quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FICÇÃO CIENTÍFICA

VIAGEM À LUA, 1902, Georges Méliès
Possuo dezenas de teorias estapafúrdias, que apenas eu pareço disposto a acreditar. Acredito, por exemplo, que o teletransporte, recurso tão comum em produções de ficção científica, como a série "Star Wars", salvaria a humanidade de um inevitável colapso emocional. Principalmente no cada vez mais confuso final do ano. Com o teletransporte não desperdiçaríamos nosso precioso tempo, não existiria atrasos, frustrações. Teríamos uma melhor qualidade de vida, viver valeria realmente à pena. Com o teletransporte teríamos o fim dos congestionamentos e acidentes na estrada, o fim do caos aéreo, o fim da espera, o fim da saudade (uma mãe em Feira de Santana poderia dar um beijo de boa noite em sua filha em Tóquio e voltar à Bahia antes do almoço).
        Mas acho que estou vendo muitos filmes...
    Ficção científica talvez seja o único gênero cinematográfico que não se encerra completamente ao final da sessão. Um bom exemplar deixa saudáveis arestas, que propiciam discussões e interpretações. Sempre tive o desejo de participar, ou fundar, um clube de ficção científica, onde os sócios poderiam rever “Blade Runner”, “Os 12 Macacos”, “2001”, entre outros. Por enquanto, isso é mais fácil de ser resolvido do que a criação do teletransporte, infelizmente.
          Então, que venha 2012! 
          Os aeroportos me aguardam!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MAIS LISTAS?

        Questionado por que nunca faço listas de livros ou séries de TV, a resposta não poderia ser mais evidente: não leio livros recém-lançados (os mais recentes que li foram  “Em Alguma Parte Alguma” de Ferreira Gullar e "Só Garotos" de Patti Smith), acho que uma única existência não será suficiente para ler e reler todos os clássicos que desejo. E não acompanho séries de TV, também acredito que não conseguirei ver todos os filmes que pretendo e dois episódios de qualquer série, ou dois capítulos de uma novela, equivalem a um longa-metragem, aproximadamente - além do meu televisor só conhecer noticiário, eventos esportivos e reprises de “Chaves” e “Todo Mundo Odeia o Chris”.
         Tenho outras listas, mas estas, como já disse anteriormente, ainda são impublicáveis.

*Na imagem, John Cusack em “Alta Fidelidade”, 
interpretando o maníaco em listas Rob Gordon. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

MELHORES DISCOS 2011 – INTERNACIONAIS

         Listar os melhores discos lançados em 2011, com base nas minhas questionáveis preferências, não é tarefa das mais fáceis. Mesmo consumindo bastante música e sempre me mantendo curioso e sem medo de arriscar, tenho receio de esquecer algum trabalho, ou ser injusto com alguém porque me faltou paciência para uma audição mais apurada, algo que o tempo, fatalmente, me cobrará (perdoe-me Bon Iver). Mas dentre aqueles que eu não tive uma relação efêmera, que não foram sumariamente deletados do meu playlist, e que ainda me acompanharão por muitas temporadas, estão:

WHAT DID YOU EXPECT FROM THE VACCINES?
The Vaccines
(Destaques: “A Lack of Understanding” e “Family Friend”)

LET ENGLAND SHAKE
PJ Harvey
(Destaques: “o disco inteiro”)

THE KING IS DEAD
The Decemberists
(Destaques: “Don't Carry It All” e “Rise To Me”)

BLESSED
Lucinda Williams
(Destaques: “Buttercup” e “Blessed")

YUCK
Yuck
(Destaques: “Get Away” e “Rubber”)

DEMOLISHED THOUGHTS
Thurston Moore
(Destaques: o disco inteiro)

 
OUTRAS ESTAÇÕES
  • REM dizendo adeus em grande estilo com COLLAPSE INTO NOW;
  • MILES KANE, menção honrosa;
  • Já tinham convertido álbuns do Pink Floyd, Radiohead e Beatles para o ritmo jamaicano, no entanto o conjunto soava irregular. O veterano Little Roy, com BATTLE FOR SEATTLE, fez a obra do Nirvana soar mais natural. Recomendável mais para fãs de reggae do que os fãs do grunge;
  • Não chega a ser o pior do ano, mas o encontro de Lou Reed com o Metallica em LULU, para mim, foi a maior decepção;
  • SUPERHEAVY, a liga da justiça do rock, formada por Mick Jagger, Dave Stewart, Joss Stone, Damian Marley e A. R. Rahman, poderia ter sido, mas não foi.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MELHORES DISCOS 2011 – NACIONAIS

          Na minha relação de discos, levo sempre em consideração a permanência duradoura no meu playlist e evito, especialmente, o que for excessivamente underground (alguma banda do interior do Tocantins que disponibilizou seu trabalho no Myspace e que ninguém sabe quem é, mas pega bem se você citar) e aquilo que eu não tive tempo de digerir (um grande álbum que saiu do forno no final de dezembro). Em um ano tão irregular, não são muitas as exceções. A cena musical brasileira nunca pareceu tão feminina, ao menos para mim, bons exemplos são Karina Buhr, com LONGE DE ONDE, Mallu Magalhães, com PITANGA, Mariana Aydar, com CAVALEIRO SELVAGEM AQUI TE SIGO, e Tiê, com A CORUJA E O CORAÇÃO, que me surpreenderam, além das veteranas Adriana Calcanhoto, com O MICRÓBIO DO SAMBA, e Gal Costa, com RECANTO (mesmo sendo "apenas" a voz do novo disco de Caetano). O ponto fraco, mas não inesperado, ficou por conta do inexpressivo O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE, de Marisa Monte. Entre os marmanjos, independentemente do hype, MOTO CONTÍNUO, do VJ China, e O DESTINO VESTIDO DE NOIVA, de Fábio Goés, valem a audição (já um Chico Buarque que não deixa marcas nem vale esse parênteses).
         Enfim, fazem parte da minha lista:

BOA PARTE DE MIM VAI EMBORA
Vanguart
(Destaques: “Nessa Cidade” e...Das Lágrimas)

CLIMAX
Marina Lima
(Destaques: “Não me venha mais com o amor” e “Keep Walking”)

UM LABIRINTO EM CADA PÉ

Rómulo Froés
(Destaques: “Muro” e “Máquina de Fumaça”)

SAMBA 808
Wado
(Destaques: “Esqueleto” e “Com a Ponta dos Dedos”)

MÚSICA CROCANTE
Autoramas
(Destaques: “Abstrai” e “Guitarrada II”)

NÓ NA ORELHA
Criolo
(Destaques: o disco inteiro)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

PIORES FILMES 2011

    É sempre mais difícil, e injusto, fazer essa relação, principalmente porque escapei com destreza de quase todos os remakes dos anos 80, Globo Filmes, temática espírita, vampiros & bruxos, Jason Statham e similares, bobagens declaradas como "11 11 11" e Brasileirinhas, além daqueles previsíveis filmes de ação e comédias americanos que muitas vezes estreiam diretamente em home video. Entretanto, não sou infalível e não consegui evitar Hilary Swank na pele de uma inverossímil e frágil médica em A INQUILINA (talvez induzido pelo título que remetia ao clássico de Roman Polanski), nem Mel Gibson, sob a direção frouxa de Jodie Foster, no papel de um executivo em depressão profunda que passa a se comunicar com o mundo através de um fantoche de castor em UM NOVO DESPERTAR (ainda penso que poderia ter sido menos ruim, se não fosse a conclusão à facão) – filmes que eu sabia que não eram interessantes, mas quis apostar com as estrelinhas do jornal. Outro desastre foi a nova versão do clássico O RETRATO DE DORIAN GRAY, de Oscar Wilde, que jogou a obra do bardo inglês no vaso sanitário e nos presenteou com um protagonista insosso, incolor, inodoro e insípido, com menos expressividade do que o Superman de Brandon Routh ou o cigano Igor de Ricardo Macchi. Por falar em literatura, a cinebiografia do dramaturgo e poeta espanhol Félix LOPE de Vega feita por Andrucha Waddington, em sua primeira experiência no exterior, é outro filme que eu poderia ter passado batido. Já SUA ALTEZA é um claro exemplo do que não deveria existir, assim como voto proporcional e Coca-Cola Zero, durante muito tempo culparei a trinca James Franco, Natalie Portman e Zooey Deschanel por esse constrangimento (Natalie já tava meio sem moral desde SEXO SEM COMPROMISSO e THOR). Para finalizar, gostaria de colocar ASSALTO AO BANCO CENTRAL como o honroso representante nacional, mas esse não conseguiu me pegar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MELHORES FILMES 2011 – NACIONAIS

         Dos 96 filmes nacionais lançados este ano, vinte a mais do que em 2010, somente sete alcançaram a marca de um milhão de espectadores, enquanto 32 conseguiram menos de 1000 testemunhas - entre uma ponta e outra devem ter ficado A ALEGRIA, RISCADO e O JARDIM DAS FOLHAS SAGRADAS, filmes que merecem ser conferidos. Com ressalvas, vejo a proliferação do stand-up comedy no cinema brasileiro, com sucessos de bilheteria e cara e corpo de humorístico televisivo, como MUITA CALMA NESSA HORA, DE PERNAS PRO AR e CILADA.COM, mas acho que cumprem o papel que a chanchada, a pornochanchada e as produções de Os Trapalhões um dia tiveram.
         Em virtude das poucas opções, não foi muito complicado selecionar os filmes nacionais que mais me agradaram em 2011, a maioria oriunda do circuito dos festivais, que é a realidade do nosso cinema, carente de distribuição e interesse da mídia. BRODÉR, de Jefferson De, foi um deles. Ao conseguir empregar originalidade à desgastada tríade favela-violência-tráfico, subvertendo outros clichês sociais, levou o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado em 2010. O introspectivo MEU PAÍS, de André Ristum, melhor diretor no Festival de Brasília já em seu primeiro longa-metragem, trouxe Rodrigo Santoro de volta às telas brasileiras nesse delicado drama familiar. O incensado diretor Eduardo Coutinho retomou a estética de JOGO DE CENA em AS CANÇÕES e a partir de um questionamento banal (qual música marcou sua vida?) elaborou uma obra tocante, vencedora no último Festival do Rio na categoria documentário. Melhor filme no Festival de Brasília em 2010, O CÉU SOBRE OS OMBROS, de Sérgio Borges, invade o universo de três personagens inusitados sem traçar intersecções evidentes e sem nos permitir conhecer o que há de ficção e realidade na vida de um Hare Krishna integrante da torcida organizada Galoucura, um escritor marginal que vive com a mãe e cuida do filho deficiente e a transexual formada em psicologia que concilia a prostituição com a rotina acadêmica. TRANSEUNTE, de Eryk Rocha, Prêmio da Crítica e melhor ator em Brasília, lindamente filmado em preto & branco, segue de perto Expedito, um homem solitário, cheio de silêncios, que caminha pelas ruas do Rio de Janeiro mais como coadjuvante do que como protagonista da sua própria vida, certamente um dos melhores exemplares do nosso cinema nos últimos tempos, ao lado de O PALHAÇO, de Selton Mello, que com ecos de Fellini, Renato Aragão e Ettore Scola, acompanha a crise existencial do palhaço Pangaré quanto a sua vocação. Divertido, comovente e com sequencias inesquecíveis, Selton Mello, melhor diretor no Festival de Paulínia, consegue o que parecia ser o mais improvável no cinema brasileiro: ser bem recebido pelo grande público e pela crítica. "O rato come o queijo, o gato bebe leite e eu... Sou palhaço".

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

MELHORES FILMES 2011 – INTERNACIONAIS

         Todo ano, prometo que não farei mais listas, porém, quando percebo, já estou rabiscando “melhores isso”, “piores aquilo”, listas são, realmente, o meu maior vício – a maioria delas impublicáveis, por enquanto. Inicio a última série de 2011 com os filmes que foram lançados comercialmente este ano no Brasil e que permaneceram comigo após o fim da sessão (a palavra “melhores” é usada aqui sem nenhuma pretensão de julgamento, apenas por mera falta de opção).          
           Em uma época em que a (cada vez mais controversa) premiação do Oscar deixa de ditar tendências, com produções como CISNE NEGRO, O VENCEDOR e O DISCURSO DO REI, que não acrescentam muito, as surpresas ficaram por conta dos bons indicados na categoria de filme estrangeiro, INCÊNDIOS, DENTE CANINO e EM UM MUNDO MELHOR. Os cultuados cineastas Woody Allen, com MEIA-NOITE EM PARIS, e Pedro Almodóvar, com A PELE QUE HABITO, apresentaram obras significativas em suas filmografias. Já Nicole Kidman, em REENCONTRANDO A FELICIDADE, e a dupla Michelle Williams e Ryan Gosling, em BLUE VALENTINE, foram os pontos fortes em seus respectivos trabalhos. Se eu relacionasse outras categorias O HOMEM AO LADO seria o melhor argentino, RANGO  a melhor animação e o sul-coreano POESIA seria o mais sensível.
         Coincidentemente, os seis filmes que mais me agradaram são extremamente reflexivos, TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado, requereu recompensadora imersão em uma obra absolutamente sensorial, caso contrário corria o risco de abandonar o cinema durante a exibição, assim como A ÁRVORE DA VIDA, do cineasta bissexto Terrence Malick, uma belíssima parábola sobre a origem do universo e o sentido da vida a partir de um típico drama familiar, muita gente também abandonou a sessão decepcionado com o “novo filme de Brad Pitt”. Em sua primeira experiência fora do Irã, Abbas Kiarostami teorizou brilhantemente sobre o valor do original e do falso em CÓPIA FIEL, onde quase não conseguimos distinguir o que é real ou encenado, trazendo ainda Juliette Binoche em grande forma. O polêmico diretor Lars von Trier nos mostrou sua visão depressiva do fim do mundo em dois tempos no ótimo MELANCOLIA, com Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg aguardando o pior, cada uma a seu modo, ao som de Richard Wagner. E os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne realizaram seu trabalho mais alentador em O GAROTO DA BICICLETA, o que não quer dizer que eles fizeram concessões (apesar do uso inédito de música e de uma atriz consagrada no elenco, Cécile de France, o naturalismo da dupla continua intacto). Inacreditavelmente, o menos compreendido da lista foi UM LUGAR QUALQUER, de Sopia Coppola, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, talvez por falta de boa vontade da crítica e do público, que ainda esperam da cineasta um novo LOST IN TRANSLATION. “Um Lugar Qualquer” é um filme simples, repleto de rotinas e tédio, que acompanha o enfado de um astro do cinema com sua vida perfeita, olhando bem, talvez este seja o seu novo LOST IN TRANSLATION.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

CARNAVAL FUTEBOL E POESIA

Adeus, Doutor
     Costuma-se dizer que no Brasil o ano começa somente depois do carnaval, para mim ele termina com o fim do Campeonato Brasileiro de Futebol. Sei que essa afirmação soa tão leviana quanto dizer que só após a folia momesca a vida encontra seu trâmite normal (quem já está escalado para bater o seu cartão de ponto em primeiro de janeiro que o diga).
      Para quem viu seu time do coração lutar o certame inteiro contra o rebaixamento, talvez não haja muito o que comemorar, embora sempre exista a expectativa de dias melhores, até para quem espera alguma mágica acontecer num mero espocar de um espumante numa praia lotada na noite de 31 de dezembro.     
     Gosto tanto de futebol quanto de poesia, para a incompreensão de muitos. Gosto da poesia das palavras, da embriaguez dos versos inusitados, os versos que gritam e pedem socorro, os versos que silenciam, entretanto me fascina muito mais a poesia das ruas, a poesia dos andaimes, a poesia das flâmulas. 
        Gosto da poesia de Drummond, mas prefiro a poesia de um Sócrates em campo.
        Infelizmente, amanhã não haverá a infinidade de reprises dos gols da rodada, não haverá mesa redonda, discussões em mesa de bar. A partir de amanhã os noticiários esportivos irão se abastecer de retrospectivas, gols internacionais e especulações sobre os bastidores da bola. A partir de amanhã os domingos serão simplesmente domingos, sem graça, sem vibração, sem  compromissos. Nesse instante, deve ter alguém repetindo aliviadamente: até que enfim – o mesmo que eu direi na quarta-feira de cinzas, quando Salvador voltar a ser dos soteropolitanos.

        Por enquanto, sou apenas saudade.

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