segunda-feira, 22 de agosto de 2011

30 ANOS SEM GLAUBER

Curiosamente, ou estranhamente, conheço mais pessoas que não apreciam a obra de Glauber Rocha do que o contrário. Parece um clichê às avessas: afirmar que não “curte Glauber” parece soar legal, incomum, foge dos estereótipos, demonstra identidade própria – o que não passa de uma grande bobagem. Sei que a obra dele não é de fácil digestão, mas se permitir é se deparar com uma cinematografia envolvente, provocativa, subversiva, brasileira. Não gostar do trabalho de Glauber é não gostar do neo-realismo,  é não gostar da Nouvelle Vague. Não gostar de Glauber é não gostar de cinema.
          Na arte que Humberto Vellame criou em 2008 para a capa do meu livro CINEMA, Prêmio Braskem de Literatura, ele utilizou, entre outras imagens, a emblemática figura do Corisco de Othon Bastos em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, algo que muito me alegrou.  No mesmo ano, compareci à reinauguração do histórico Cine Glauber Rocha, na Praça Castro Alves (antigo Cine Guarany, fundado em 1919), para assistir à versão restaurada do clássico O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO, primeiro longa-metragem colorido do diretor, e a oportunidade de ver um filme dele numa sala de cinema me seduziu ainda mais. Este, provavelmente, o seu trabalho que mais se aproxima do grande público. Trazendo como protagonista Antônio das Mortes (nome pelo qual o filme é conhecido internacionalmente), personagem mais popular de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, uma espécie de caçador de recompensas, responsável  pela morte do cangaceiro Lampião e que aceita a proposta de combater um bando de jagunços, numa mistura de cordel, ópera e western norte-americano. O filme rendeu a Glauber o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes (a imagem que ilustra esta postagem é uma reprodução da capa da revista Veja, de 28 de maio de 1969, que celebra a conquista do cineasta brasileiro). Mas devido aos ditames do governo militar, Glauber só voltaria a dirigir novamente no Brasil dez anos depois.
          Morando no centro da capital da Bahia, trafego pelos mesmos lugares que Glauber Rocha um dia caminhou, imagino sua presença nas calçadas dos Barris, nas praças e nos antigos bares da cidade. E se hoje Salvador é outra, a importância dele nos nossos dias não seria diferente, Glauber ainda seria uma personalidade instigante, questionadora. Certamente.

20 comentários:

  1. Não sou um grande conhecedor do trabalho de Glauber Rocha, mas admiro muito a sua contribuição para o cinema nacional. "Deus e o Diabo na terra do sol" e "Terra em transe" são obras de arte do nosso cinema.

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  2. sem dúvida glauber fez história e numa época em que o cinema transbordava magia,


    abraço

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  3. Lendo vc, fiz logo um paralelo com os livros difíceis de ler. A cultura do entretenimento rápido, que não leva a pensar, questionar, que não faz sofrer, que não exige nenhum esforço.

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  4. Glauber escreveu a história do cinema brasileiro ... pertinente este registro ...

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  5. Bela lembrança de Glauber nas tuas linhas finais.

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  6. Assino em baixo.
    Vc escreve muito bem.
    Beijokas.

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  7. Olá passei para lhe desejar um lindo dia.

    Abraço

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  8. Eu gosto de gente inteligente e interessante de qualquer área.

    Um beijo.

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  9. Eu sou muito ignorante sobre o GR. Muito mesmo. Tenho de me dar um jeito. Um dia dou!
    beijo

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  10. Olha, Glauber, Wood Allen, Bergman, só para citar alguns, são safra do cinema autoral. É preciso um tempo de interiorização com suas obras. Meu filme de cabeceira continua sendo o Baile de Etore Escola. Quem consegue fazer um filme sem falas e dizer tanto num longa? Sim, alguém pode fazer isso hoje e ainda bem melhor. Mas agora, agora ele já fez.
    Glauber é por aí. Gostando ou não, ele fez.

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  11. A mídia praticamente ignorou a data de ontem, triste este Brasil.

    Glauber

    Glauber

    Glauber

    E a imagem da capa da Veja além de linda é histórica.

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  12. Bravo, Herculano!

    Glauber sempre será lembrado como o maior cineasta brasileiro. "DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL" não pode ser perdido!

    Beijos

    Mirze

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  13. Caro amigo, feliz lembrança. Caetano, em seu Verdade Tropical cita-o inúmeras vezes. Pelé do Cinema Novo, Velho, Futuro...genial! Abraço.

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  14. Não sou versada na obra de Glauber. Como leiga, procurei assistir aos filmes, gostei, compreendi a sua reconhecida genialidade, mas (pode ser ignorância minha, claro), penso que algumas pessoas (e incluo ele) são mais geniais na arte de "ser como são", ou como foram. Não sei também se podemos separar o artista da sua arte...mas há pessoas geniais, independentemente da arte. Dizer que não se gosta dos filmes de Glauber pode chocar tanto quanto dizer que, por exemplo, não se gosta dos livros de Jorge Amado? Eu considero que Jorge Amado teve um valor inestimável, levou o nome do Brasil, da Bahia...etc. etc...mas não sou uma fã do Jorge Amado escritor. Sou admiradora do Jorge Amado contador de histórias. Quando li um texto que comparava Jorge Amado a Gabriel Garcia Marquez...choquei! Sou fá do Gabriel. Não dá pra comparar, acho eu. Enfim, apenas pra dizer que tudo é possível, não creio que a unanimidade seja lei.
    Beijos,

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  15. Pelo pouco que sei de Glauber Rocha,um cineasta controvertido alvo de perseguição na epoca da Ditadura, seus movimentos estudantis,exílio etc,
    este teu registro é de uma preciosidade ímpar e desperta-me a curiosidade de conhecer melhor o seu trabalho e o cinema nacional.
    Bjus

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  16. Tenho um amigo que diz a mesma coisa, quem não gosta de Gláuber não gosta de cinema :)

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  17. Deste lado do oceano Glauber é pouco conhecido....lamentavelmente, pois assim, fico sem opinião possível.

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  18. Glauber era maravilhoso. Saudações de Portugal!

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