sábado, 1 de outubro de 2011

BAHÊA MINHA VIDA

FOTOGRAFIA FÁBIO BITO TELES
As salas (arquibancadas) do cinema pareciam estádios de futebol, espectadores  devidamente uniformizados, com bandeiras, cantos, euforia: foi a estreia do esperado documentário BAHÊA MINHA VIDA, de Márcio Cavalcante. Com mais ingressos vendidos no seu primeiro final de semana em Salvador do que o episódio final da série HARRY POTTER, o filme levou aos cinemas uma multidão de apaixonados, que fizeram filas enormes nos cinemas da cidade, sem perder a vibração um só instante. Provavelmente, muita gente não entenderá essa paixão. Mas a ideia é realmente essa: o inexplicável. Os depoimentos dos jornalistas, ex-jogadores e artistas somam-se à força das palavras dos seus torcedores anônimos durante os cem minutos de exibição, que emociona em muitas partes, principalmente no reencontro dos campeões nacionais de 1959, “em cima do Santos de Pelé” - imagens espetaculares dessa conquista fará a alegria de qualquer admirador do futebol (arrepia os aplausos da plateia para o golaço de Alencar, que muitos apenas tinham ouvido falar, e o uníssono de “Bora, Baêa” para gols antológicos). O título brasileiro de 1988, da “elegância sutil de Bobô”, sua história vitoriosa, seus dramas (que não são poucos), tudo está lá. Mas o protagonista é mesmo o amor pelo clube, algo que vai muito além do mero fanatismo. Ao final, dezenas de pessoas de todas as idades saíram chorando e aplaudindo, contagiando ainda mais quem esperava a próxima sessão.  Em breve, em todo o Brasil.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

POEMA INÉDITO VI

quero o nada
a coisa alguma

o inconstante
a chuva passageira
a embriaguez

quero o anonimato
o esquecimento

o efêmero
a saudade
o beijo daquele carnaval

quero o desapego
as mal traçadas linhas


quero o desnecessário

Herculano Neto

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

(...)

        Não posso negar que durante algum tempo, esperei o seu retorno. Acreditava que a imagem dela indo embora, sem olhar para trás, um dia se transformaria numa manhã chuvosa, com ela a caminhar lentamente ao meu encontro, exausta e a carregar sua mala. Acreditava que ela tentaria esconder da sua face os motivos que a trouxeram de volta e eu tentaria esconder em vão as lágrimas que se confundiriam com a chuva. Acreditava que ela  apenas voltaria, que não pediria desculpas, simplesmente seguraria as minhas mãos. Acreditava que ela me contaria suas aventuras, suas lutas, seus amores e eu escutaria tudo feliz, aceitando sua distância como uma fábula.
        Durante algum tempo, essa era a única imagem que eu tinha dela: uma fantasia, não algo que eu realmente lembrava, que tivesse realmente acontecido, que tivesse me marcado.
        Esperar foi muito mais doloroso.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

(...)

Recebi uma ligação de Capitu ontem à tarde, enquanto eu tentava acordar. Ela fez aquele típico suspense, meio infantil, de “adivinha quem é”, mesmo sem eu me importar e já desconfiando quem poderia ser. Depois de se identificar ela quis saber se eu estava surpresa, respondi que não. Há muito tempo que nada nessa vida me surpreende, muito menos uma ligação – mas não lhe disse isso. Capitu achou estranho eu não ter feito nenhum comentário a respeito do seu nome quando nos conhecemos, ainda assim ela destrinchou uma explicação que deveria utilizar frequentemente: que não se chamava Capitu, muito menos Capitolina, como a enigmática criação machadiana; que se chamava Lilian, ou Lídia, não me recordo exatamente; que recebeu o apelido de uma colega quando chegou com ressaca aos catorze anos durante uma aula de literatura; que achou “da hora” e resolveu adotar a alcunha oficialmente com uma tatuagem na altura do cóccix no ano seguinte; que as únicas pessoas que a chamavam pelo seu próprio nome eram atendentes de telemarketing e gerentes de banco... Se dependesse do seu frenesi, e dos bônus fornecidos pela sua operadora de telefonia, ela continuaria falando muito mais, porém interrompi seu entusiasmo com uma desculpa qualquer, pouco convincente. Antes de desligar ela quis marcar um encontro, “um drinque apenas”, alegou que eu estava devendo. Prometi que ligaria outra hora.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Sempre gostei de ficção científica e sempre odiei minha vida de adolescente, afirmar que eu habitava um episódio de Todo Mundo Odeia o Chris não seria exagero, embora, naquela época, eu estivesse mais para Kevin Arnold ou Doug Funny. Com as inseguranças típicas da idade, vivia arrependido por tudo que fazia ou (principalmente) deixava de fazer, imaginando como poderia ter sido as outras possibilidades e a procurar onde ficava o CTRL+Z da vida real (acho que todo adolescente é um pouco assim). Quisera eu ter despertado na mesma manhã, seguidamente, como se fosse o dia da marmota. Acreditava que a qualquer momento poderia aparecer um “eu” vindo diretamente do futuro, mais velho e mais sagaz, que me ensinaria o caminho das pedras, que me explicaria como eu deveria agir para garantir uma existência futura sem remorsos. Costumava brincar dizendo que não me assustaria se algum dia eu aparecesse para mim e ainda me cumprimentaria firmemente, olhando nos meus olhos: “estava te esperando”. No entanto, não demorei para descobrir que não conseguiria fugir das minhas responsabilidades e que tudo que eu considerava danoso ajudaria a moldar a pessoa que agora eu sou. Curiosamente, ou obviamente, nada muito diferente disso acontece em O HOMEM DO FUTURO, de Cláudio Torres (“Redentor”, “A Mulher Invisível”). Wagner Moura é um amargurado cientista e professor universitário chamado Zero, que teve sua vida modificada a partir de uma fatídica festa à fantasia no, agora distante, ano de 1991, onde foi humilhado por Helena (Alinne Moraes), seu grande amor. Acidentalmente, Zero viaja no tempo exatamente para o dia da festa e aproveita a oportunidade para modificar sua própria história, mas nem tudo sai como esperado.
         O cinema tem verdadeiro fascínio pelos paradoxos temporais ocasionados pelas viagens no tempo – que é praticamente uma espécie de sub-gênero da ficção científica. “O Planeta dos Macacos”, “De Volta Para o Futuro”, “Jornada nas Estrelas”, “Efeito Borboleta” sobram exemplos. Gosto, particularmente, do curta-metragem “Barbosa”, de Jorge Furtado, onde um homem tenta impedir a derrota brasileira na final da Copa do Mundo de 1950 no estádio do Maracanã, trauma de sua infância, no entanto ele próprio se torna o motivo da distração do goleiro Barbosa, que resulta no gol vitorioso da seleção uruguaia. Sei que não faltará cético para dizer que se fosse possível viajar no tempo algum viajante já teria retornado do futuro (a não ser que o considerassem louco, como ocorre em “Os 12 Macacos”), nem crédulo para explanar sobre universos paralelos e futuros alternativos (a contrapor a teoria de causa e efeito, que diz que se alguém voltasse no tempo para impedir um acidente e conseguisse, o acidente, que é o motivo da viagem, deixaria de existir, consequentemente a viagem também).
          O enredo de O HOMEM DO FUTURO poderia se resumir, simplesmente, à letra da canção “Tempo Perdido”, emblemático sucesso da Legião Urbana, que permeia toda a película: de “todos os dias quando acordo”, passando por “então me abraça forte” e culminando com “somos tão jovens”. Aliás, boa parte da obra parece condensada no clipe musical que serviu como divulgação (vídeo abaixo). Se a filme fosse apenas esse vídeo, como aconteceu com “Eduardo e Mônica” em uma campanha de telefonia celular, teria sido genial. Propositalmente, não há nada original. Mas a ideia é mesmo essa: resgatar a simpatia de uma descontraída sessão da tarde. Para quem não viu, aviso que quanto menor a expectativa, menor será a impressão de tempo perdido (sem trocadilho). Com viagens temporais, uma festa à fantasia e um hino juvenil de pano de fundo, o trabalho do diretor Cláudio Torres não sai da adolescência, mergulha no raso, assim como em seu filme anterior, onde era idealizada a mulher perfeita, outro desejo da juventude, ainda que o exemplo de perfeição fosse Luana Piovani.

          Já não quero voltar no tempo, quero apenas mais tempo para realizar tudo que desejo.
       

terça-feira, 6 de setembro de 2011

(...)

Preciso de alguém que tenha medo, que erre, que peça desculpas, alguém que sorria engraçadamente, que contamine o foyer com sua gargalhada desajeitada. Preciso de alguém que tenha dúvidas, que confie em mim, mas que pense duas vezes antes de se atirar nos meus braços, alguém que se confunda na multidão, que seja comum até no nome que herdou de sua avó. Preciso de alguém que fale a verdade mesmo quando estiver me enganando, que não se iluda com minha pose, com meus blefes, alguém que não me repreenda quando meus burros derem n'água. Preciso de alguém pra ver Godard, pra ver Eisestein, pra ver o blockbuster do momento, alguém que acorde tarde e que não me desperte dos meus sonhos, que ame Londres e veraneie em Itaparica. Preciso de alguém que entregue os pontos, que não dê um ponto sem nó, alguém que siga em frente, mas que não tenha pressa, afinal a pressa é a inimiga dos idiotas. Preciso de alguém para terminar a noite de sábado caminhando na praia domingo pela manhã, alguém que me surpreenda, que contrarie tudo aquilo que idealizo.  

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

(...)

Acho que foi num filme que ouvi alguém dizer que os pais dos outros sempre aparentam ser melhores do que os nossos, mas que os nossos avós são melhores do que os avós de qualquer outra pessoa. Não sei até onde isso é verdade. O esforço dos meus pais era evidente, eu que não estava disposta a posar de filha querida, orgulho da família, embora o decadente rótulo de ovelha negra também não me caísse bem (...) Meus únicos avós, por parte de mãe, tinham dezenas de netos, e outros tantos bisnetos, e nunca pareceram muito interessados em mim. Imagino que nem o meu nome eles sabiam exatamente (...) Papai era um homem irritantemente tranquilo, que evitava demonstrar suas emoções - se estava alegre, se estava triste, impossível saber. Todos aqueles sentimentos, que eu imaginava estarem submersos, jamais vieram à tona. Nem o Alzheimer  tirou a placidez de sua face (...) Não me senti culpada quando minha mãe nos abandonou, há tempos que eu percebia sua mudança de comportamento: sua euforia, seus silêncios, seus porres. “Se eu pudesse eu te levaria comigo” era a pior frase que ela poderia me dizer.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

POR QUE EU NÃO CONSIGO GOSTAR DO UFC?

         UFC (Ultimate Fighting Championship) é um torneio de artes marciais mistas, mais conhecido pela sigla em inglês MMA, uma sensação mundial que caminha para algo além do simples fenômeno de entretenimento. Há quem diga que em breve será, se já não for, o segundo esporte mais popular do Brasil (o que deve explicar a presença de Felipe Melo na última Copa do Mundo de futebol).
          90% do tempo que desperdiço na frente da TV é dedicado à programação esportiva (até de rugby eu gosto), no entanto não consigo simpatizar com o UFC. Já tentei, juro. Cheguei a gravar um documentário onde apresentavam a história, as regras, os ídolos, mas me distraí completamente quando começaram a falar sobre o octógono: imediatamente passei a recordar a professora Yêda, no antigo Polivalente de Santo Amaro, e os seus enormes compassos e esquadros de madeira constantemente sujos com pó de giz. Outro dia, fui parar num bar onde exibiam as lutas no canal de pay per view, e a atenção e gritaria dos homens, e também das mulheres, eram impressionantes. Não direi que assemelhava-se à plateia das arenas que assistia entusiasmada à barbárie dos gladiadores porque nunca estive na Roma Antiga (não que eu me lembre), mas já vi algo similar nas rinhas de galos. Pedi um Campari e uma soda, com muita dificuldade, e fui embora pouco depois.
          Todo esse interesse parece, simbolicamente, querer resgatar a masculinidade perdida nas últimas décadas, num exemplo máximo de virilidade (mesmo que meu preconceito não compreenda como sendo muito másculo, e hétero, dois musculosos se agarrando). Se era para reunir um grupo de homens urrando e bebendo cerveja, melhor seria colocar duas turbinadas usando biquíni e lutando num tablado de lama, mas não seria suficiente, faltaria testosterona, reduziria o esporte a mero fetiche.
          Não quero posar de moralista, de ofendido, que considera o evento muito violento e deseducador. Imagino que a essa altura alguém já deve ter pensado que violento são os noticiários policiais, o trânsito, o centro da cidade, o dia... Sei que o UFC possui regras seguras para os seus praticantes e que qualquer partida do campeonato brasileiro de futebol é muito mais perigosa para os jogadores (e para a torcida), só que como modalidade esportiva não me seduz. Conheço esotéricos, intelectuais, feministas, homossexuais e evangélicos que adoram esse esporte, por que não eu? Será por que eu não brincava de lutar durante a infância? Por que eu sofria bullying? Por que eu desprezava os filmes de ação que ainda hoje fazem sucesso, embora a maioria estreie diretamente em home vídeo? Por que eu sou metido a besta? Na verdade, não sei porque não gosto do UFC, talvez seja simplesmente ciúme: quando esse assunto chega à mesa do bar todos se animam e a conversa se torna monotemática; sobrepondo-se, inclusive, à vida alheia, futebol, mulheres e política (nessa ordem). O que me deixa silenciosamente deslocado.
          O próximo sábado poderia ser uma boa oportunidade para eu me transformar no mais novo entusiasta das artes marciais mistas, porém prefiro não arriscar, provavelmente haverá alguma reprise do Bob Esponja em outro canal.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

30 ANOS SEM GLAUBER

Curiosamente, ou estranhamente, conheço mais pessoas que não apreciam a obra de Glauber Rocha do que o contrário. Parece um clichê às avessas: afirmar que não “curte Glauber” parece soar legal, incomum, foge dos estereótipos, demonstra identidade própria – o que não passa de uma grande bobagem. Sei que a obra dele não é de fácil digestão, mas se permitir é se deparar com uma cinematografia envolvente, provocativa, subversiva, brasileira. Não gostar do trabalho de Glauber é não gostar do neo-realismo,  é não gostar da Nouvelle Vague. Não gostar de Glauber é não gostar de cinema.
          Na arte que Humberto Vellame criou em 2008 para a capa do meu livro CINEMA, Prêmio Braskem de Literatura, ele utilizou, entre outras imagens, a emblemática figura do Corisco de Othon Bastos em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, algo que muito me alegrou.  No mesmo ano, compareci à reinauguração do histórico Cine Glauber Rocha, na Praça Castro Alves (antigo Cine Guarany, fundado em 1919), para assistir à versão restaurada do clássico O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO, primeiro longa-metragem colorido do diretor, e a oportunidade de ver um filme dele numa sala de cinema me seduziu ainda mais. Este, provavelmente, o seu trabalho que mais se aproxima do grande público. Trazendo como protagonista Antônio das Mortes (nome pelo qual o filme é conhecido internacionalmente), personagem mais popular de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, uma espécie de caçador de recompensas, responsável  pela morte do cangaceiro Lampião e que aceita a proposta de combater um bando de jagunços, numa mistura de cordel, ópera e western norte-americano. O filme rendeu a Glauber o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes (a imagem que ilustra esta postagem é uma reprodução da capa da revista Veja, de 28 de maio de 1969, que celebra a conquista do cineasta brasileiro). Mas devido aos ditames do governo militar, Glauber só voltaria a dirigir novamente no Brasil dez anos depois.
          Morando no centro da capital da Bahia, trafego pelos mesmos lugares que Glauber Rocha um dia caminhou, imagino sua presença nas calçadas dos Barris, nas praças e nos antigos bares da cidade. E se hoje Salvador é outra, a importância dele nos nossos dias não seria diferente, Glauber ainda seria uma personalidade instigante, questionadora. Certamente.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

(...)

         Derrubei todas as carreiras pensando em você: por amor, angústia, indiferença ou qualquer bobagem assim (cinco gramas de paixão e fúria). Derrubei todas as cartas do meu castelo de mágoas pensando nos nossos planos: por impaciência, imprudência ou desespero (no meu jogo limpo, nenhuma carta escondida, nenhum truque, nenhum blefe. Nada). Derrubei meus preconceitos, minhas lógicas. Derrubei os meus muros, os meus mitos.  Por você, derrubei meu próprio rei. 
          Perto de você qualquer certeza é relativa, tudo é muito pouco, tudo é precipício.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ELVIS NÃO MORREU

        Basileia, 1983.
        Os últimos anos de investigação me levaram àquele chalé. No início, encarei como mais um extravagante trabalho, depois se tornou quase obsessivo. Os contratantes me dispensaram ainda nos primeiros meses, alegaram que estavam convencidos de que ele realmente tinha morrido. Mas eu quis continuar por conta própria, era pessoal.
        Quando eu adentrei o salão, decorado com antigos quadros, ele estava sentado na poltrona, de frente para a lareira - parecia muito mais gordo do que em sua última aparição. Sem olhar para mim, ele falou num tom de voz tranquilo e extremamente grave:
        — Creio que você sabe que não poderá sair daqui.
        — Sei, mas isso é o que menos importa.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

THE NATIONAL - RUNAWAY

         O vídeo abaixo é um produção em stop motion realizada pela holandesa SOPHIE VAN DER BURG utilizando parte da canção “Runaway”, da banda americana The National.
         Provavelmente, “Runaway” foi a canção que mais me afetou no último ano, presente sempre em momentos delicados e reflexivos, talvez por isso ela tenha ficado algum tempo "esquecida". No entanto, durante uma dessas viagens melancólicas que amiúde faço para o meu torrão natal, fui surpreendido pelo modo aleatório do tocador de MP3, exatamente quando eu rememorava um desses momentos.
          Ironias da vida: “But I won't be no runaway, cause I won't run”.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

POEMA INÉDITO V

recebi o coração de Alice num dezembro
embrulhado com plástico bolha
dentro de uma caixa que dizia:
CUIDADO, FRAGIL! ESTE LADO PARA CIMA

o coração de Alice era pequeno
do tamanho de uma romã
do tamanho de uma alegria

no coração de Alice não cabia o Universo
o coração de Alice era somente
bairro e quermesse

o coração de Alice estragou no dezembro seguinte
pouco depois de eu ter recebido
uma nova caixa

o coração de Alice é saudade


Herculano Neto

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A BELA TRISTEZA DE LÉA SEYDOUX

        Curiosamente, muitos comentários recebidos pela série FRAGMENTOS DE UM ROMANCE QUE NUNCA EXISTIU faziam referência à modelo que ilustrava as postagens: a atriz francesa Léa Seydoux. Não me incomodou o fato dela ter chamado mais atenção do que os textos, taí uma disputa que eu não fazia a menor questão de vencer.
        Sempre quis utilizar (e ainda quero) a imagem de Lauren Bacall no blogue, mas para esse universo essencialmente urbano, melancólico e reflexivo, tão agora, uma diva noir, uma femme fatale, não seria muito adequado. Léa Seydoux não foi uma escolha premeditada, aconteceu naturalmente. Gosto da empatia que ela tem com as câmeras, de não parecer que é feita de plástico, inatingível, de parecer com alguém que realmente existe, com todos os seus dramas e alegrias.
         Considero belíssima a sua tristeza.
        Léa Seydoux se destacou no filme A BELA JUNIE (La Belle Personne, 2008) de Christophe Honoré, onde interpretou a enigmática personagem título que despertava o interesse do seu professor, Louis Garrel. No ano seguinte, participou da produção de Quentin Tarantino, BASTARDOS INGLÓRIOS, na extraordinária sequência de abertura, ao lado de Christoph Waltz. Atuou, também, em ROBIN HOOD, de Ridley Scott e este ano encantou em MEIA-NOITE EM PARIS, de Woody Allen, interpretando a doce Gabrielle. Em breve, marcará presença no novo MISSÃO: IMPOSSÍVEL (Ghost Protocol), quando, certamente, ganhará um número ainda maior de admiradores.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

FRANCISCA

         Não sou nenhum indie intransigente, do tipo radical e esnobe, que só escuta banda que quase ninguém conhece: também gosto da música pop, a música pop é que parece não gostar de mim. Não é o caso do trabalho de Francisca Valenzuela,  destaque da atual cena musical chilena. Sua música descontraída (com ecos de Regina Spektor, Café Tacuba e Fiona Apple) muito me encanta. Francisca (adoro este nome) é pianista e compôs todas as faixas do seu segundo álbum, “Buen Soldado”, um conjunto de canções simples, aparentemente descompromissadas, mas sem deixar de lado o engajamento político, como acontece na balada “Salvador”, que encerra o disco e homenageia Salvador Allende.
         Francisca é para dias felizes, tardes com sol.
         Francisca é leve.  
    
     

(Espero que ninguém comente: “o pop não poupa ninguém”.)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AS TRÊS VIDAS DE MILDRED PIERCE

Confira o ensaio de Herculano Neto sobre o filme ALMAS EM SUPLÍCIO, de 1945, a telenovela VALE TUDO, de 1988 e a série MILDRED PIERCE, de 2011, 
na revista eletrônica Verbo 21.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A MISTERIOSA MULHER SEM ORIFÍCIO

        Cinco anos após seu último disco, Chico Buarque, enfim, lançou seu mais recente trabalho, intitulado simplesmente “CHICO”, antecipado por uma bem sucedida estratégia anti-pirataria promovida pela gravadora Biscoito Fino, que colocou o disco em pré-venda no site do cantor há mais de um mês - e conseguindo apenas no primeiro dia quase duas mil aquisições, o que levou o site a ficar fora do ar. Essa gravadora, inclusive, não costuma permitir que o seu material seja disponibilizado na internet, frequentemente vídeos são bloqueados e arquivos para download são removidos (uma canção minha, DEU SAUDADE, que faz parte do seu catálogo, foi retirada deste blog três vezes - nesse momento nem sei se ainda está postada).
        Deixando o disco em segundo plano, o que a imprensa, dita especializada, mais se apegou ultimamente foi o seu romance com a cantora Thaís Gulin e um verso da canção “Querido Diário”, que a versão digital da revista Veja considerou o pior da MPB no século XXI: “Amar uma mulher sem orifício”. Assim mesmo, no singular. É possível que a sonoridade e o significado da palavra “orifício” causem um desconforto, mas descontextualizado até Fernando Pessoa parece estranho (bom, Fernando Pessoa não). A letra da canção é um simples conjunto de notas cotidianas sem muita profundidade, tal qual acontecimentos dispersos nas páginas de um diário, sobre o trânsito, um cachorro de rua ou um encontro casual com amigos (“Hoje topei com alguns conhecidos meus/ Me dão bom-dia, cheios de carinho”). O polêmico verso aparece pouco depois: “Hoje pensei em ter religião/ De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício/ Por uma estátua ter adoração/ Amar uma mulher sem orifício”.
        Há quem diga que o “genial” Chico Buarque tenha ficado para trás e que o epíteto de “melhor letrista da música brasileira” já não lhe caiba tão bem. Comparações com outros contemporâneos em atividade, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, são quase inevitáveis, este tenta manter o frescor da sua obra e nunca teve problemas com nenhum tipo de orifício, vide o verso “A tua presença/ entra pelos sete buracos da minha cabeça”.
        Amar uma mulher sem orifício não sugere muitas possibilidades, provavelmente não passa de um amor platônico, um amor sem sexo ou um amor que exista além do sexo - ou trata-se mesmo da imagem de uma santa. Orifício é uma passagem estreita, um pequeno furo. O uso do substantivo no singular serve para enfatizar a ideia de único caminho, única oportunidade - que não há. Uma mulher sem orifício talvez seja, simplesmente, um desejo inalcançável
. Certamente, havia outras maneiras de dizer a mesma coisa, ou rimar sacrifício com artifício, início, desperdício ou fictício - cada poeta com suas palavras -, contudo, dificilmente provocaria o mesmo estranhamento.
        De repente, para um homem de 67 anos, o amor sem sexo, um amor platônico ou amar uma estátua seja realmente isso: um estranhamento.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

(...)

Encostei meu vestido turquesa no disputado balcão de um bar no Rio Vermelho e consegui, sem muito esforço, que me servissem um daikiri. Foi quando me apresentaram à Capitu - bastante extrovertida e popular, ela era cumprimentada por todos que chegavam. Capitu quis estender a conversa além das formalidades de praxe, principalmente quando alguém disse que eu tocava bandolim num grupo de choro – fiz questão de corrigir, falar que isso fazia parte do meu passado, porém ela preferiu não escutar. Capitu gostou do meu nome, associou ao de uma cantora da Jovem Guarda que uma tia adorava, em troca evitei esboçar qualquer comentário sobre o seu, sabia que não soaria nada original (mas me contive quando descobri que ela morava no Barbalho e por pouco não cantarolei o primeiro verso do clássico “Tradição”, de Gilberto Gil). Acho que ela trabalhava com decoração de interiores, ou alguma coisa assim, e às quartas-feiras “arranhava no baixo” em uma daquelas bandas formada somente por garotas. Prometi ficar até ao final da sua apresentação, “para conversarmos melhor”, mas fui embora logo depois que elas começaram com toda aquela distorção gratuita. Com o drinque na mão, deixei que ela me visse saindo, durante uma versão hardcore para um sucesso da Madonna.


domingo, 17 de julho de 2011

(...)

Pablo se irritava ao ser chamado de garçom, tecnicamente ele possuía outra função, algo afrancesado, ainda assim não compreendia como isso afetava seu ego. Apenas para chatear, nada mais, eu sacava um “garçom, por favor”, quando menos ele esperava, em troca eu recebia um simpático olhar de desprezo. Com o tempo ele parecia não se importar, mas fingia. Certa feita, Pablo quis saber o que eu tanto anotava: são meus riscos, respondi. Não satisfeito ou curioso, ele passou a recolher todos os meus tolos versos que ganhavam a lixeira – exercícios poéticos, no máximo. No entanto, só descobri essa coleta muito depois, na mesma época em que ele começou a implicar com os meus cigarros.


sábado, 16 de julho de 2011

(...)

Deixei de realizar minhas visitas ao asilo há mais de um mês, recebo algumas ligações da diretoria, mas não atendo. Não sei por que eles insistem, ele nunca sabia quem eu era mesmo - éramos apenas estranhos. Engraçado é que eu também passei a ter cada vez menos recordações, e o pouco que recordo parece que não me pertence, é como se fosse um filme que vi há muito tempo, algo que me contaram. São trechos desconexos, esmaecidos, lembranças em Super-8. Confesso que já não tinha paciência para todo aquele teatro, para brincar de recomeçar a cada encontro: antes era dolorido; agora, indiferente.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

(...)

Ultimamente, minha vida se resume aos bares que percorro pela noite e as tardes que passo no Café Terrasse – aprecio, principalmente, suas mesas de madeira, ainda vazias, ao entardecer. Não tenho todo tempo do mundo, como cantou uma alma inquieta, mas possuo mais tempo livre do que deveria. Costumo pedir sempre o mesmo expresso com canela, que deixo descansar enquanto molho meus lábios com água com gás ou tento misturar sua fumaça com a fumaça do meu Charm, mas elas fazem questão de se manterem heterogêneas, numa luta, numa dança. Antes que outras pessoas contaminem o ambiente,  rabisco alguns poemas que geralmente vão parar no lixo. Procuro evitar verbos auxiliares, adjetivos, estrofes, títulos e letras maiúsculas, mais por implicância do que por estilo. Procuro evitar, também, amores que durem mais de uma estação, porém dificilmente consigo.

domingo, 3 de julho de 2011

POEMA INÉDITO IV


sei dos meus cinismos
dos meus silêncios
dos meus enganos

sou tão leve quanto o inferno
pesado feito um anjo


Herculano Neto

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SAÚDE

         Estou sempre espirrando. Não sei se é rinite alérgica ou qualquer outro modismo médico, só sei que estou sempre espirrando. São espirros estridentes, secos e sequenciais, geralmente entre oito e dez, que incomodam todos ao meu redor. Ultimamente, com a propagação de informações sobre surtos de gripes e viroses, espirrar em público tornou-se constrangedor. Já tentei todos os  tratamentos existentes, máscaras, homeopatia, infusões, antialérgicos, nebulização e terapias: sem sucesso.
         No último verão, uma curandeira da Chapada Diamantina me receitou uma mistura de ervas que, incrivelmente, fez cessar os espirros. No entanto, parecia que faltava algo em mim. Depois de dois dias parei de usar e voltei aos espirros.
         Espirrar, admito, é um prazer.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O DIA DOS NAMORADOS DE EDUARDO E MÔNICA

Cindy e Dean
In Memoriam de Bartô,
o surdo-mudo mais falastrão que já conheci
   
         O “Dia dos Namorados” é habilmente aproveitado, e manipulado, pelo mercado (como qualquer outro “dia de...”). Nenhuma novidade. Mas o que agora chamou minha atenção foi a equivocada estratégia de colocar “Blue Valentine” para representar os namorados nas salas dos cinemas em junho, talvez na falta de uma comédia romântica os distribuidores acreditaram que este “Namorados Para Sempre” (título que o filme recebeu por aqui) seria suficiente. No entanto, “para sempre” é tudo que não veremos.
         “Blue Valentine” acompanha os últimos momentos do casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), um pintor de paredes sem emprego fixo e uma enfermeira que dividem a casa simples com a filha de seis anos e um cachorro. Quando o filme começa, nos deparamos com o casal quase no término do relacionamento, são raras as conversas, os poucos gestos de carinho são evitados por ela – que não sabemos, apenas imaginamos, os motivos. O premiado roteiro transita entre o início e o fim da relação, nos privando de conhecer o que aconteceu durante. Os flashbacks não revelam muito, e surgem aleatoriamente. A entrega dos atores permite bons improvisos, como na sequencia em que Ryan canta para Michelle dançar (ela sem saber que música escutaria e ele sem saber que ela realmente sabia sapatear). “Blue Valentine” é o título de uma canção, e de um disco, de Tom Waits, que narra a trajetória de um casal que se apaixona e se desapaixona. O filme é sobre isso. Não é, como nos acostumamos a ver, a descoberta do amor. É o final, ou a aceitação do final. Pode ser um programa depressivo, e reflexivo, para se fazer a dois, mas valerá a pena se a intenção for apreciar um filme sobre pessoas normais e dramas normais.
         (Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica).
         Acredito que nesse momento todo mundo já viu (ou já ouviu falar sobre) a campanha do dia dos namorados de uma empresa de telefonia móvel que transporta a canção de Renato Russo para os dias atuais, um mundo onde ninguém pode viver sem telefone celular. Nunca simpatizei muito com música com “historinha”, típica dos anos 80, e “Eduardo e Mônica” menos ainda, soava classe média demais para minha realidade, algo que se confirma ainda mais agora.
         Eu tinha um amigo surdo-mudo que adorava Legião Urbana, gostava dos encartes dos LP's, gostava das letras das canções, mesmo sem nunca ter podido escutar a voz de Renato Russo. Ele não suportava ser tratado com piedade, além de ser genialmente irônico e mordaz, e odiava videoclipes (e ainda há quem diga que videoclipe é música para surdos). Certamente, ele também detestaria essa campanha. Quando alguém diz que não entendeu uma canção, provavelmente esperando que eu a explique, digo: veja o clipe.
         Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica, mas nada impede que os Eduardos e as Mônicas da vida real um dia se tornem “Blue Valentine”, num mundo onde as pessoas ainda podem viver sem telefone celular.

sábado, 4 de junho de 2011

PLÁSTICO BOLHA

       Leio várias revistas todo mês, mas não sou assinante de nenhuma. Prefiro comprá-las na banca, gosto da expectativa, da surpresa, de perguntar ao jornaleiro se já chegou, de conferir as novidades juntamente com as manchetes da manhã.
       A única vez que assinei uma revista, a finada SET, cancelei a assinatura com menos de um ano, não havia prazer nenhum naquela “praticidade”.
       Penso de maneira parecida em relação à compra pela internet. Cultivo, ainda, o hábito de frequentar lojas físicas, mas nesse caso a concorrência é desleal: o mercado virtual tem melhores preços, produtos, variedades, raridades. Fui obrigado a me render. No entanto, quando minha compra chega, antes mesmo de conferir se tudo está em perfeito estado e conforme solicitei, passo a estourar o plástico bolha que envolve a mercadoria. 
       Muitos se irritam com aqueles estalos, mas para mim eles têm uma função tranquilizante. São quase melódicos.
       Faço isso desde criança, depois que chegou a velha geladeira.  Fazia pausas entre um espocar e outro, estourava dois seguidos, três, eram minhas canções. 
       Sei que estilistas já utilizam as bolhinhas de ar em suas criações, que celebridades exibem por aí seus biquínis, seus vestidos. Sei, também, que há calendários e outros souvenires e que existem chaveiros que reproduzem infinitamente o “plec, plec”, mas não dá pra comparar com a ansiosa busca pela bolha que restou intacta.
       Alguns hábitos não se perdem.
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