quarta-feira, 15 de junho de 2011

SAÚDE

         Estou sempre espirrando. Não sei se é rinite alérgica ou qualquer outro modismo médico, só sei que estou sempre espirrando. São espirros estridentes, secos e sequenciais, geralmente entre oito e dez, que incomodam todos ao meu redor. Ultimamente, com a propagação de informações sobre surtos de gripes e viroses, espirrar em público tornou-se constrangedor. Já tentei todos os  tratamentos existentes, máscaras, homeopatia, infusões, antialérgicos, nebulização e terapias: sem sucesso.
         No último verão, uma curandeira da Chapada Diamantina me receitou uma mistura de ervas que, incrivelmente, fez cessar os espirros. No entanto, parecia que faltava algo em mim. Depois de dois dias parei de usar e voltei aos espirros.
         Espirrar, admito, é um prazer.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O DIA DOS NAMORADOS DE EDUARDO E MÔNICA

Cindy e Dean
In Memoriam de Bartô,
o surdo-mudo mais falastrão que já conheci
   
         O “Dia dos Namorados” é habilmente aproveitado, e manipulado, pelo mercado (como qualquer outro “dia de...”). Nenhuma novidade. Mas o que agora chamou minha atenção foi a equivocada estratégia de colocar “Blue Valentine” para representar os namorados nas salas dos cinemas em junho, talvez na falta de uma comédia romântica os distribuidores acreditaram que este “Namorados Para Sempre” (título que o filme recebeu por aqui) seria suficiente. No entanto, “para sempre” é tudo que não veremos.
         “Blue Valentine” acompanha os últimos momentos do casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), um pintor de paredes sem emprego fixo e uma enfermeira que dividem a casa simples com a filha de seis anos e um cachorro. Quando o filme começa, nos deparamos com o casal quase no término do relacionamento, são raras as conversas, os poucos gestos de carinho são evitados por ela – que não sabemos, apenas imaginamos, os motivos. O premiado roteiro transita entre o início e o fim da relação, nos privando de conhecer o que aconteceu durante. Os flashbacks não revelam muito, e surgem aleatoriamente. A entrega dos atores permite bons improvisos, como na sequencia em que Ryan canta para Michelle dançar (ela sem saber que música escutaria e ele sem saber que ela realmente sabia sapatear). “Blue Valentine” é o título de uma canção, e de um disco, de Tom Waits, que narra a trajetória de um casal que se apaixona e se desapaixona. O filme é sobre isso. Não é, como nos acostumamos a ver, a descoberta do amor. É o final, ou a aceitação do final. Pode ser um programa depressivo, e reflexivo, para se fazer a dois, mas valerá a pena se a intenção for apreciar um filme sobre pessoas normais e dramas normais.
         (Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica).
         Acredito que nesse momento todo mundo já viu (ou já ouviu falar sobre) a campanha do dia dos namorados de uma empresa de telefonia móvel que transporta a canção de Renato Russo para os dias atuais, um mundo onde ninguém pode viver sem telefone celular. Nunca simpatizei muito com música com “historinha”, típica dos anos 80, e “Eduardo e Mônica” menos ainda, soava classe média demais para minha realidade, algo que se confirma ainda mais agora.
         Eu tinha um amigo surdo-mudo que adorava Legião Urbana, gostava dos encartes dos LP's, gostava das letras das canções, mesmo sem nunca ter podido escutar a voz de Renato Russo. Ele não suportava ser tratado com piedade, além de ser genialmente irônico e mordaz, e odiava videoclipes (e ainda há quem diga que videoclipe é música para surdos). Certamente, ele também detestaria essa campanha. Quando alguém diz que não entendeu uma canção, provavelmente esperando que eu a explique, digo: veja o clipe.
         Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica, mas nada impede que os Eduardos e as Mônicas da vida real um dia se tornem “Blue Valentine”, num mundo onde as pessoas ainda podem viver sem telefone celular.

sábado, 4 de junho de 2011

PLÁSTICO BOLHA

       Leio várias revistas todo mês, mas não sou assinante de nenhuma. Prefiro comprá-las na banca, gosto da expectativa, da surpresa, de perguntar ao jornaleiro se já chegou, de conferir as novidades juntamente com as manchetes da manhã.
       A única vez que assinei uma revista, a finada SET, cancelei a assinatura com menos de um ano, não havia prazer nenhum naquela “praticidade”.
       Penso de maneira parecida em relação à compra pela internet. Cultivo, ainda, o hábito de frequentar lojas físicas, mas nesse caso a concorrência é desleal: o mercado virtual tem melhores preços, produtos, variedades, raridades. Fui obrigado a me render. No entanto, quando minha compra chega, antes mesmo de conferir se tudo está em perfeito estado e conforme solicitei, passo a estourar o plástico bolha que envolve a mercadoria. 
       Muitos se irritam com aqueles estalos, mas para mim eles têm uma função tranquilizante. São quase melódicos.
       Faço isso desde criança, depois que chegou a velha geladeira.  Fazia pausas entre um espocar e outro, estourava dois seguidos, três, eram minhas canções. 
       Sei que estilistas já utilizam as bolhinhas de ar em suas criações, que celebridades exibem por aí seus biquínis, seus vestidos. Sei, também, que há calendários e outros souvenires e que existem chaveiros que reproduzem infinitamente o “plec, plec”, mas não dá pra comparar com a ansiosa busca pela bolha que restou intacta.
       Alguns hábitos não se perdem.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A MORENA DE MARCELO CAMELO

      (...)
     No trabalho de estreia do compositor Marcelo Camelo, com a banda Los Hermanos em 1999, o termo que amiúde norteava suas composições era um indefinido “outro alguém”, mesmo já sinalizando nesse primeiro momento um namoro com o cancioneiro nacional mais antigo, fosse na forma poética de canções como AZEDUME (sei que um dia a rosa da amargura/ fenecerá em razão de um sorriso teu) ou nos arlequins e colombinas de PIERROT.  Depois, num rápido e surpreendente amadurecimento musical, um diálogo que aparentava adquirir força se insinuou com a gíria “cara”, que foi “valente”, foi “estranho”, foi tranquilo (de onde vem a calma/ daquele cara?) mas que logo se desanuviou. No entanto, foi a “moça” de ALÉM DO QUE SE VÊ que saltou aos ouvidos em seu terceiro e mais representativo trabalho, VENTURA, em 2003. O uso da palavra “moça”, ainda que carregue uma suposta ingenuidade, um bucolismo, em oposição à “morena”, que é muito mais lasciva, provocativa, e que poderia muito bem dar lugar a esta, não afetando significativamente a linha melódica ou o sentido da canção (Moça, olha só o que eu te escrevi), era algo muito diferente do que vinha sendo feito no machista mundo do rock até então. Não era uma garota, uma menina, uma “gata” ou uma mulher, era simplesmente uma “moça”, que soava inusitado e, ao mesmo tempo, natural - mais tarde, essa “moça” reapareceria nas faixas TUDO PASSA  e  MENINA BORDADA, do seu début solo (SOU/ NÓS), em 2008.
          Apenas no quarto e derradeiro disco da banda, em 2005, a “morena” surgiria realmente, não faceira como outrora, mas melancólica, introspectiva, decorativa.
          É possível que a “morena” que habita o imaginário de Marcelo Camelo não seja assim tão folclórica, tão arraigada de simbolismos. É possível que a sua “morena” vá além da cor da pele, que  não seja como as cabrochas das canções do Luiz Gonzaga, que seja uma companheira silente, que nem saiba sambar, que nem seja morena (...)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

32 DENTES

Não confio em quem posta “!!!Bom Dia!!!” no Twitter ainda se espreguiçando, quem diz “bom dia” para a Ana Maria Braga ou quem retribui o “boa noite” do William Bonner, mas é incapaz de ser gentil com aqueles que fazem parte do seu cotidiano.
         Não confio em quem não se atrasa, em quem não pede desculpas, em quem não se arrepende de nada. Não confio em quem não dá o braço a torcer.
        Não confio em quem diz “adeus” e telefona no dia seguinte.
         Não confio em quem diz que adorou a biografia do Lobão, mas nunca escutou os seus discos; em quem diz que está lendo a biografia do Keith Richards, mas prefere os Beatles aos Rolling Stones. Não confio em quem lê biografias.
         Não confio em promessas de amor, promessas de governantes, em juras que começam com “nunca mais”. Não confio em quem “ama” e “adora” tudo e todos. Não confio em quem diz “odeio”, em quem diz “jamais”. Não confio em quem sofre calado, em quem diz que diz o pensa.
         Não confio em críticos de arte, em “campeões de bilheteria”, “campeões de audiência”, nos campeões do UFC.  Não confio em comentaristas nem em dirigentes de futebol.
         Não confio em placas que sinalizam “proibido”, em previsões do tempo, em conselhos moralistas.
         Não confio em “amigos” de pessoas influentes , em oportunistas,  em conquistadores baratos. Não confio em quem está sempre disposto a ajudar.      
        Não confio em taxistas que perguntam qual caminho eu prefiro, em sindicatos, no bom mocismo do Bono Vox.
         Não confio em torcidas organizadas, em organizações não governamentais. Não confio nos Estados Unidos da América.
         Não confio em ninguém com mais de trinta anos, não confio em ninguém com mais de  trinta cruzeiros, não confio em ninguém com trinta e dois dentes.
         Desconfio de mim quando me pego fazendo algo que normalmente não faria.
         Não confio em quem desconfia de tudo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

QUINZE ANOS

        Acho que demorei uma eternidade até completar quinze anos. Minha infância parecia não ter fim e lembranças dela não me faltam. Outras pessoas me dizem o contrário, para elas a infância foi curta como um sonho bom - talvez eu tenha vivido meus primeiros anos acordado ou simplesmente me permiti ser criança o máximo que podia. Ser adulto nunca me seduziu, para isso não tive pressa.
        Meu sobrinho mais velho completará quarta-feira quinze anos, dizer que “parece que foi ontem” não é um lugar-comum inevitável, melhor seria afirmar que “parece que foi há poucos anos”. A impressão que tenho é que o tempo que ele levou para completar quinze eu levei para completar cinco.
        Na letra de “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, da banda paulistana IRA!, Edgard Scandurra fala sobre um homem “que se diz maduro”, “que se diz seguro”, mas quando “se apanha chorando” é como se ele voltasse a ter quinze anos, onde poderá recomeçar sorrindo. Quinze anos é o meio do caminho. Nem adulto nem criança. Certamente é quando nos sentimos mais fortes, mesmo sendo tão frágeis. É quando se abre em nossa frente um frenético leque de possibilidades, de caminhos, de escolhas, de novidades. Irônico é notarmos, muito depois, que poderíamos ter aproveitado melhor aquilo que já tínhamos aproveitado até ao final.
        Apenas após ultrapassar os quinze anos, percebi como o tempo é voraz. Agora "envelheço na cidade".

segunda-feira, 2 de maio de 2011

NÃO SEI

        Vira e mexe aparece alguém no meu caminho dizendo que sabe tudo, sabe de tudo, sabe sobre tudo (principalmente, concordâncias). Sabe desde variação cambial,  ciclo das marés, obscuridades do rock europeu, o que vai passar na TV hoje à noite, passando pelo melhor lugar para comer em POA ou beber em BH.
         Não simpatizo com quem diz saber tudo, me incomoda essa pose - saber tudo, para mim, é nada saber -, lembra informação de almanaque: rasa e desnecessária.
         Simpatizo com quem tá por fora, quem não finge que conhece nem faz questão de conhecer, quem é ignorante em algum assunto, em vários assuntos.
        Simpatizo com quem sabe muito sobre determinado tema, admiro essa fidelidade. Gosto de ligar para o Duda, por exemplo, e perguntar algo sobre a Geração Beat, acho mais bacana que pesquisar no Google – pesquisar no Google é chato pra cacete.
        Quem sabe tudo já viu todos os filmes, já leu todos os livros. Quem acha que não sabe ainda tem muitos filmes para ver e muitos livros para ler.
        Quem sabe tudo nunca tem dúvidas, nunca erra, nunca desconfia, nunca pede informação, nunca se perde. Quem pensa que sabe tudo é autossuficiente, se sente melhor que qualquer outra pessoa. Tem um troço mais chato? A incerteza é tão fascinante, tão humana. Se enganar, voltar atrás, trocar os pés pelas mãos, pegar a estrada errada para o litoral, assinalar a alternativa errada na prova, se apaixonar pela pessoa errada. Qual o problema?
        Quem acredita que sabe tudo não se permite, se tranca no seu mundo. Quem acha que não sabe nada, ou acha não saber tudo que deveria, tem o mundo inteiro pela frente. Verdade? Não sei.

terça-feira, 26 de abril de 2011

POEMA INÉDITO III

não tenho medo de ser simples
tenho medo de ser raso
de ser vago

não tenho medo do esquecimento
tenho medo da lembrança feita de mágoa
da saudade

não tenho medo da rotina
da crise de meia-idade
da constância dos funerais
das mesmas conversas
dos mesmos amigos
do verão

tenho medo dos caminhos que não segui
das escolhas que não fiz
dos desencontros

Herculano Neto

quinta-feira, 21 de abril de 2011

ZÉ DO CAROÇO

Não preciso nem escrever nada, 
a canção, e a sua autora, já explicam tudo.
LECI BRANDÃO, primeira mulher a entrar para a ala dos compositores da Mangueira, na capa do LP lançado em em 1985, onde apresenta, além de "Zé do Caroço", a faixa "Isso é Fundo de Quintal", de sua autoria em parceria com Zé Maurício, depois de ter ficado alguns anos sem gravar por ter brigado com sua antiga gravadora, Polygram.

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

sábado, 16 de abril de 2011

SAUDADES DA VELHA GAL

       Apesar de não ter vivido os anos sessenta e setenta, tenho saudades da velha Gal.
       Apesar de surgir a cada ano um punhado de cantoras interessantes, ainda me interesso pela velha Gal.
       Apesar de Caetano Veloso produzir, ao lado de Kassin e do filho Moreno, o tão aguardado novo disco de Gal, ainda considero novos os velhos LPs da velha Gal.
       Apesar dela ser acompanhada no disco pela Banda Cê e pelo grupo experimental Rabotnik, ainda prefiro mesmo é a velha guitarra de Lanny Gordin.
       Apesar de Caetano compor canções exclusivamente para ela, ainda prefiro suas velhas composições na voz da velha Gal.
       Apesar da velha Gal parecer cada vez mais distante, ainda acredito que ela ressurgirá a qualquer momento. E eu não saberei mais o que é saudade.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

ANTIBIOGRAFIA

           Gosto das minhas cicatrizes, de quem não me entende, de quem acha que me entende. Gosto do meu passado, até quando ele me condena. Gosto de quem me intimida, de descer do salto, de andar descalço, de saudar o inverno. Gosto dos mitos, dos boatos, dos rumores.
           Quem me vê por fora nem imagina o quanto sou profundo. Quem me vê por dentro sequer desconfia o quanto sou raso. Gosto da dúvida, da contradição.
           Eu não sou nada, eu não sou ninguém, essa constatação me permite ser tudo, ser todos. Sem máscaras, apenas sendo eu mesmo, em meu melhor papel.
           Alguém me disse, recentemente, que o que mais o atrai no local onde mora são os carimbos, os rótulos. Os epítetos que se distribuem em qualquer cidade do interior e que são carregados com desvelado orgulho, algo como “Não Sei Quem do Bar da Esquina”, “Fulano, mecânico”, “Beltrano de Dona Zizinha”. Alguns, é verdade, nem tão lisonjeiros assim, mas omito os exemplos. Esse tipo de identificação nunca me seduziu, e se me orgulho é por ser, exatamente, inclassificável.
           Gosto do silêncio das capitais, de ser mais um na multidão, mais um retalho na colcha.
           Gosto dos versos que começam com “sou”, mas que pouco explicam – e na maioria das vezes confundem. Gosto das reticências...

domingo, 3 de abril de 2011

NADA PESSOAL

O cinema é a minha igreja. Acho que por isso eu não frequente as salas de cinema dos shopping centers (onde muitas pessoas entram na fila para comprar o ingresso sem sequer saber o que está sendo exibido, onde vendem gigantescos combos de pipoca e refrigerante, onde tagarelam livremente, com seus cúmplices ou nos famigerados telefones celulares). O cinema é a minha igreja, e eu sou fiel e carola.
        Cinema é um espaço público, mas alguém sentar ao seu lado e roubar sua atenção com conversas ou “namorando” ou roncando ou colocando os pés na cadeira ou mastigando é muito mais que deselegante.  Sei que  a venda de guloseimas é responsável por parte significativa dos lucros de um cinema, mas não consigo imaginar alguém comendo pipoca ao assistir BIUTIFUL, EM UM MUNDO MELHOR ou INCÊNDIOS, apenas para citar produções recentes e que foram indicadas ao Oscar de filme estrangeiro – ou o apetite iria embora ou a indigestão seria certa. Quero sempre acreditar no bom senso alheio, na sensibilidade e educação, sem ter que apelar para medidas radicais, como fazem algumas salas que não permitem o acesso às áreas de exibição portando alimentos de qualquer natureza. Mas nem sempre é possível.
        Quem vai ao cinema no shopping center não gosta de cinema, gosta de shopping center. E eu odeio shopping center – embora, eu saiba, que há pessoas sérias que frequentam estes cinemas por falta de opção.
        Cinema não é teatro (alguém já disse), mas deveria ser respeitado igualmente.
        Com o constante fechamento das salas do circuito de arte nas grandes cidades, está cada vez mais complicado usufruir de uma boa sessão, sem inconvenientes. Não quero baixar meus lançamentos preferidos e me isolar  em casa (como fazem alguns), quero apenas que haja espaço para todos.
        Portanto, não se ofendam, nem me desejem mal, o casal apaixonado ou os garotos falastrões do Sartre Coc, que se sentaram ao meu lado no cinema e foram, gentilmente, convidados a se retirar. Nada pessoal.

NADA PESSOAL II

Cinema é a bola da vez, definitivamente. Muitos têm pressa para emitir suas opiniões, mas pouco tempo para ver, realmente, bons filmes. Blogs voltados para as produções cinematográficas se proliferam em espantosa velocidade, parece que o cinema nunca esteve tão em voga ou nunca soou tão cool o adjetivo “cinéfilo”. Poderia até ser um fenômeno admirável, caso as obras analisadas não se restringissem, simplesmente, aos filmes em cartaz – como se fossem, esses novos críticos, redatores dos suplementos culturais dos jornais. Pior, ainda, é a superficialidade da abordagem da maioria desses blogs, quase uma extensão dos comentários infelizes que se ouve na saída do cinema.
          Curiosamente, após fazer a leitura da resenha do mesmo filme em vários blogs diferentes, ficou evidente a repetição do tom, da forma, da percepção, como se todos tivessem entendido, e sentido, o filme de igual maneira. Impossível? Não seria se muitas frases utilizadas não fossem idênticas, com alguma inversão e troca de sinônimos aqui e ali, muitas vezes reproduzindo o conteúdo dos sites especializados – exclusivo, apenas, o criativo título da postagem (quando querem soar originais, as postagens se tornam sinopses estendidas recheadas de spoilers). Outra característica é a preferência pelas produções americanas, enquanto o bom cinema independente é solenemente desprezado, tal qual as produções latinas, asiáticas e europeias, sem mencionar os clássicos – provavelmente porque elas não são exibidas nas modernosas salas do shopping center. De quando em vez, o cinema nacional é lembrado, geralmente com algum exemplar do momento, um legítimo made in Globo Filmes. Nada tenho contra as produções dos EUA, sei que lá estão grandes profissionais, de toda parte do mundo, e os grandes investimentos, mas se esses blogueiros conhecessem, ao menos, diretores norte-americanos em atividade como Hal Hartley ou Todd Solondz... Sei, também, que há meia dúzia de cinco blogs interessantes do gênero, mas correm o risco de se perder no meio de tanta inutilidade.
          Portanto, não se ofendam, nem me desejem mal, devoradores de pipoca anônimos, adoradores de blockbusters, hollywood-maníacos e hypes em geral. Nada pessoal.

segunda-feira, 28 de março de 2011

POEMA INÉDITO II

sem bússolas
sem mapas
sem rotas

pouco importa saber onde estou

o meu dia é feito de encruzilhadas
de tamburellos
de labirintos
desvios

nenhum acaso me guia

Herculano Neto

domingo, 13 de março de 2011

NÃO É DA SUA CONTA

 “Como Vai Você?”, de Mário Marcos e Antônio Marcos, é uma canção que sempre me incomodou. Gravada desde os anos 70 por diversos artistas da música brasileira, de Roberto Carlos a Daniela Mercury, de Nelson Gonçalves a Cauby Peixoto, vem, frequentemente, embalando os mais diversos romances e fossas. Mas ao contrário do que aparenta, não se trata necessariamente de uma “canção de amor”: sua melodia adocicada é acompanhada por uma letra extremamente egocêntrica, onde a primeira pessoa conduz e é a razão de ser do discurso. A pergunta do título, seguidamente repetida, não demonstra preocupação no bem estar alheio, é apenas uma possessiva curiosidade, típica de quem não aceita o fim do relacionamento, num tom contraditório e autoritário, a exigir satisfações:

como vai você?
EU PRECISO saber da sua vida

         Sem ter satisfeito seu desejo individualista, o narrador apela para outras artimanhas, como sugerir um portador para a informação requerida:


peça a alguém PRA ME CONTAR sobre o seu dia

          E ao acrescentar o advérbio “só” à frase EU PRECISO SABER, tenta esboçar alguma fragilidade, mas não convence:

Anoiteceu, e EU PRECISO SÓ SABER

         Até quando resolve qualificar o outro, o uso do pronome possessivo é recorrente, não estranharia se eles tivessem escrito um verso como o melhor de você sou eu:
razão de MINHA PAZ já esquecida
que já modificou A MINHA VIDA

         É quase cômica a falsa dúvida levantada, praticamente uma declaração de amor:
nem sei se gosto MAIS DE MIM ou de você

         Os argumentos para a reconciliação são ainda mais egoístas. Não há em nenhum momento interesse no conjunto. A felicidade do casal não existe, é tudo muito unilateral. Chego a imaginar que a musa da canção tenha sido uma boneca inflável:

Vem, que a sede de te amar ME FAZ MELHOR
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ

         “Como Vai Você?” não é uma canção para ser ouvida a dois, ela é opressora, mesquinha, masturbatória. Produto da vaidade de alguém que não sabe o que é amar, e nem o que é sofrer.

terça-feira, 1 de março de 2011

PORQUE NÃO POSSO SER AMIGO DO MÁGICO

           Não posso ser amigo do mágico, conheço seus truques, suas cartas marcadas, seus textos ensaiados, seus aparatos, até suas novidades. Não posso ser amigo do mágico, minha presença na plateia não o alegra, apenas o constrange, incomoda. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não gosta de amigos, gosta de aplausos e da expressão de surpresa quase infantil. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não me ludibria, não aguça minha curiosidade.
           (Há muitos “mágicos”, em outras áreas, que dispensam minha amizade).
           A vida é mágica, mágica é imprevisibilidade, mas o mágico é óbvio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

“DE ALMA INGÊNUA, ACREDITO”

          Não me vejo namorando na Praça da Bandeira, atrás do prédio da cadeia, nem passeando com minha roupa de domingo pela Praça da Purificação, essas praças não me pertencem mais. Me vejo apenas na Praça do Rosário, correndo descalço atrás do bonde, brincando de esconde-esconde no Largo da Cruz (1,2,3: achei você!). Me vejo nos atalhos do Maricá, trocando alumínio por Grapette, espantando maruins na descida do Tauá, “roubando” bananas no beco de Narciso, anoitecendo no tamarineiro.
         Sou eu tocando trompete na Santa Mazorra de Dona Zica, bradando “É Maro-Maro” no gol de Careca, acordando com os pés dentro d’agua na casa inundada, imitando Besouro contra Bruce Lee, saudando o camarada Maru, a velha Domingas, Seu Chiquinho do Apolo. Sou eu aos prantos cantando “Trilhos Urbanos” no adro durante as festas, pedindo silêncio para escutar a nota de falecimento no beco da Rencau, recitando “Papai Noel – Pólo Norte” no Teodoro.
          Não sou estrangeiro, sou nativo. 
          Sou Calolé, Destilaria, Conde e Pilar. Sou Campo do Arroz, Colibri, Ideal e Botafogo. Sou São Francisco, São Bento, São Brás e São José. Sou Timbó, Acupe, Viúvas e Virgens.  E quero a brisa vespertina do Senado; Geração 80 e Confronto; 2001 no Cine-Subaé; poesia na Selibasa; Sangue e Raça e Uhuru-Eby; A Sineta e O Ataque. Quero as glórias do passado no presente.
          Não sou a interseção entre a rua direita e a estrada dos carros, não ostento sobrenome escravocrata. Sou índio do Trapiche, descendente dos Carijós. Sou bicho do mato, retraído tal qual a folha do não-me-toque.
         Não sou de santinho, meu santo é grande, meu santo é forte, meu santo é doce, meu santo é amaro.
         Caminhando pela cidade, vejo um menino sozinho, sentado num banco da praça. Aquela praça não me pertence mais (constatação sem lamento), mas ainda me vejo nos olhos daquele menino.
          No perigo e na bonança dessa gente morena, estou.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

UM ANTIGO POEMA TRADUZIDO

EN FAISANT LES VALISES
(Arrumando As Malas, Herculano Neto)
Tradução para o francês: Pedro Vianna


 Vídéo ancienne,
 photo ancienne
 fausses cartes,
 tout un peu faux
 quelque peu opaque et déformé

“Tu n'as jamais essayé d'être mon ami”
 c'est ce qu'elle a dit avant de se tirer,
 sans Kerouac
 avec Baudelaire
 et sans la patience
 de quelqu'un qui attend des changements.

***

ARRUMANDO AS MALAS

Vídeo antigo,
foto antiga,
cartas falsas,
tudo um pouco falso
um tanto opaco e distorcido.

“Você nunca tentou ser meu amigo”
foi o bilhete que ela deixou
antes de botar o pé na estrada:
sem Kerouac
com Baudelaire
e sem a paciência
de quem espera por mudanças.


ESCUTE O POEMA RECITADO PELO AUTOR AQUI

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

LIXO EXTRAORDINÁRIO

          O bairro de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, abriga o maior aterro sanitário da América Latina, e é o palco do documentário LIXO EXTRAORDINÁRIO, candidato ao Oscar 2011 (Jardim Gramacho já tinha servido de cenário para o ótimo documentário ESTAMIRA, em 2006).
          Vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim em 2010 e aplaudido de pé no Festival de Paulínia, LIXO EXTRAORDINÁRIO, dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley, foi filmado entre agosto de 2007 e maio de 2009, e acompanha o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz – filho de retirantes cearenses e radicado em Nova York, onde é considerado um dos mais importantes artistas plásticos da atualidade, principalmente por experimentar novas mídias recriando de maneira inusitada trabalhos célebres como as pinturas de Monet e Leonardo da Vinci. Após passar por uma crise artística sobre a real utilidade de sua obra, ele decide passar dois anos no Jardim Gramacho, onde pretende ajudar os moradores do local produzindo arte com materiais retirados do lixo. Inicialmente falando em inglês, Vik Muniz assemelha-se mais a um estrangeiro pregando assistencialismo. Mas, se a ideia era buscar no aterro material para sua obra, serão as pessoas que lá trabalham sua verdadeira matéria-prima, e é a partir desse contato que o filme se humaniza e desce do pedestal. A realidade dessas pessoas, que aparentemente viviam felizes e conformadas no seu trágico universo, torna o filme ainda mais forte e comovente, sem pieguices. Depois de selecionar e fotografar um grupo de catadores de material reciclável, Vik vai exercer sobre eles um poder transformador ao aproximá-los da dignidade esquecida. Utilizando objetos retirados do lixo todos vão trabalhar na confecção dessas obras, onde todo valor arrecadado será empregado na comunidade. Introduzidos no mundo da arte, eles percebem como são poderosos, e que tudo é arte. Com a autoestima renovada, mudanças externas e internas serão produzidas. O conflito provocado é voltar ou não para o lixão com o fim do projeto.
          O documentário começa e termina com imagens extraídas de entrevistas realizadas no “Programa do Jô”, há quem diga que TV é lixo e que essas imagens são uma espécie de metáfora, mas teorias da conspiração à parte, foi a televisão que proporcionou a Vik Muniz popularizar seu trabalho no Brasil ao aceitar um convite para reutilizar a mesma ideia na abertura da novela global “Passione”, de Sílvio de Abreu.
          Após assistir ao filme é impossível você olhar para o seu próprio lixo, ou para os catadores de material reciclável na rua, da mesma maneira, deixando bem claro que a coleta seletiva é uma necessidade que não pode ser desprezada pelas autoridades nem pela sociedade, e que 99 não é 100.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

NESTE DOIS DE FEVEREIRO

  Duvido de quase tudo, 
mas acredito em Pierre Verger e em Carybé.

Ilustrações dos livros Carybé & Verger - Gente da Bahia e 
Carybé, Verger e Caymmi - Mar da Bahia

"Havia rosas no mar,
havia ondas na areia".
                                           Otto





segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

EU, O OTIMISTA

          Há quem, frequentemente, me chame de pessimista, de pragmático, de realista. Confesso que isso não é demérito algum, essas adjetivações soam até lisonjeiras. A verdade, e isso não é segredo, é que eu não passo de um otimista, de um Policarpo Quaresma repaginado, o último romântico dos litorais de qualquer atlântico. Sou, assumidamente, fora de moda. Dizem que o otimista é uma pessoa sem muita experiência, mas não me importo.
          Estou eternamente disposto a ver o lado bonito da vida, nem que seja na balada após a quinta cerveja.
          Sempre acredito que não irá chover, mesmo que eu compareça aos meus compromissos encharcado da cabeça aos pés.
          Frases motivacionais adornam o calendário da minha mesa no escritório, apenas não compreendi, ainda, o que Borges quis dizer no mês de maio com “a esperança é o mais sórdido dos sentimentos”.
          Tenho o armário repleto de caixas de remédios variados, mas não sou um hipocondríaco (ser cumprimentado na farmácia, como fazem os garçons no bar, não atesta o contrário).
          Não acho que o meu vizinho tenha um emprego, um gramado e uma mulher melhores do que os meus. Não acho que a fila ao lado anda mais rapidamente do que a que estou e no restaurante não acho o prato dos outros mais atrativo do que a refeição que escolho – embora pareçam.
           Não sinto a sua falta, sinto a sua presença pela casa arrastando correntes durante a madrugada.
           Já não me amarguro arrependido a imaginar “e se eu tivesse feito isso” ou “e se eu tivesse feito aquilo”, meus excessos me permitem, no máximo, um “e se eu não tivesse feito isso” ou “e se eu não tivesse feito aquilo” (o que, ao final das contas, deve ser a mesma coisa).
          Aguardo ansiosamente o resultado positivo, seja do exame de gravidez daquela paixão do carnaval em Salvador ou de alguma doença hereditária degenerativa.
          Sim é a minha palavra preferida, principalmente quando preciso confirmar os meus nãos.
          Recentemente, percebi que querer nem sempre é poder e que nada é tão ruim que não possa piorar (mas não divulgo essas descobertas).
          Sei que os últimos serão os últimos, porém não desanimo derrotado na torcida.
          Assim como Woody Allen, também acredito que o copo está meio cheio... de veneno.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

POEMA INÉDITO


carrego nos braços
alegria e tristeza na medida errada

em excesso

quem me vê entristecido
na rua
não sabe que descanso o peso da alegria
                   
Herculano Neto 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CONTRA O SILÊNCIO

          Grande parte dos meus desafetos nasceu da minha palavra, não apenas a escrita, principalmente a falada, em alto e nem sempre bom som.
          Não costumo omitir o que penso, até tento, mas não consigo. Para quem pessoalmente não me conhece, advirto que não sou nenhum falastrão, o rei da festa com suas tiradas sem graça. Na verdade, sou introspectivo, de breves comentários, observador. No entanto, o pouco que digo é o suficiente para fomentar rancores ou paixões.
          Não quero o aplauso fácil, desconheço o meio-termo, o alto do muro. Diplomacia, conheço somente de vista. Não falo duas vezes antes de pensar, sei o que falo. Nem simplifico a questão me comparando à natureza de uma criança, não terceirizo minha responsabilidade. Frequentemente, sou tachado de deselegante, de deseducado. Mas se me desagrada, não falo o contrário para satisfazer ninguém.
          Sempre falei o que pensava, mesmo que depois eu me arrependesse (não do que disse, mas por ter dito). É um risco me pedir a opinião sobre algo, desde os testes nucleares na Coréia do Norte à cor do vestido. Não tenho medo de destoar, de contra-argumentar, de desmentir, de desmistificar. Não tenho medo da maioria. Só não quero me martirizar por que não disse o que sentia. A palavra represada amargura, corrói, causa câncer.
          Sofri quando quis me esconder atrás do silêncio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

PARA QUEM AINDA FREQUENTA VÍDEO LOCADORA

IMAGEM ILA FOX

Atendendo a pedidos, a relação de alguns dos melhores filmes que revi em home video durante o último ano. Sei que a minha opinião sobre o que é “melhor” não vale muita coisa, mas pode servir como dica para quando você estiver perdido na video locadora - ou quando tiver direito àquela “cortesia” e não souber o que escolher:


A FLOR DO MEU SEGREDO (1995)
Pedro Almodóvar

AMNÉSIA (2000)
Christopher Nolan


CONTRA A PAREDE (2004)
Fatim Akin

ED WOOD (1994)
Tim Burton

FELICIDADE (1998)
Todd Solondz

HISTÓRIAS MÍNIMAS (2002)
Carlos Sorín

O GRANDE GOLPE (1956)
Stanley Kubrick

PACTO SINISTRO (1951)
Alfred Hitchcock

SIDEWAYS (2004)
Alexander Payne
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