sexta-feira, 30 de março de 2012

NUNCA PESQUISE O SEU NOME NO GOOGLE (NEM NO FACEBOOK, TWITTER, ORKUT...)

          É notória minha aversão às redes sociais (não incluo os blogues nesse balaio), mas vira e mexe, surge algum desavisado perguntando se eu não estou no feice ou que me “buscou” e não encontrou o que, verdadeiramente, não chega a me incomodar, constrangedor é quando afirmam que me adicionaram (pior do que ser ser alvo de um perfil falso é ser confundido com alguém que “curte” balada sertaneja, esquenta em posto de combustíveis e Stephenie Meyer).
        Além de não ser adepto do excesso de exposição, tenho dificuldades para identificar seus usuários no melancólico universo offline, onde todos parecem MENOS inteligentes, MENOS bonitos, MENOS interessantes e, absolutamente, MAIS humanos.
     Quero participar de uma comunidade que possua odores, abraços, sabores. Uma comunidade com contas a vencer e problemas de verdade.
         Hoje, na minha démodé leitura matinal de jornais, me deparei com dois casos ocorridos esta semana em Salvador: no primeiro, uma garota de 14 anos esfaqueou uma colega na entrada da escola apenas porque o seu “namorado” adicionou a vítima no Orkut; no outro, um corretor de imóveis (com um perfil muito distante de ser considerado um príncipe encantado) fazia-se passar no Facebook por um ex-modelo e jovem piloto da TAM (este sim, o sonho de quase todas as leitoras da Capricho) para poder invadir os computadores das incautas mulheres que cediam aos seus apelos e depois chantageá-las em troca de sexo. 
        Notícias assim me afastam ainda mais e se sobrepõem às teóricas vantagens das redes sociais.



       

terça-feira, 27 de março de 2012

MORRISSEY, HECTOR E UMA ESCOLHA PARA O FIM DO MUNDO

(...) “First of the Gang To Die” é o segundo single de “You Are the Quarry”, de 2004, disco que interrompeu, em grande estilo, um hiato de sete anos sem gravar, e acabou se tornando a preferida de muitos admiradores de Morrissey (embora ela já fosse conhecida desde 2002). A letra romantiza a trajetória de Hector, um jovem imigrante latino que é o primeiro da gangue a ter uma arma, o primeiro a ser preso e o primeiro a morrer. Sua melodia alegre não disfarça completamente a dolorida tragédia urbana de um jovem que é baleado na garganta, desses que cotidianamente fazem a alegria da imprensa marrom. Apesar de indevidamente precoce, Hector não passava de um garotinho tolo, um ladrãozinho barato que roubava ricos e pobres sem distinção, e que arrebatava muitos corações. Talvez o público sul-americano tenha, naturalmente, se identificado com as desventuras desse anti-herói latino (...)

LEIA O ARTIGO COMPLETO NA REVISTA ELETRÔNICA VERBO 21



No vídeo, as três primeiras canções do show de Morrissey em São Paulo,  11 de março de 2012, "First of the Gang to Die", "You Have Killed Me" e "Black Cloud"

quinta-feira, 22 de março de 2012

NUNCA PESQUISE TEU NOME NO GOOGLE III

O acusado João Herculano Neto, revoltado com algumas atitudes do genro e por ciúmes, foi até a sua residência e aplicou vários golpes de foice e faca na vitima de nome Dezinho Marcelino dos Santos, nascido em 30/06/1963, natural de Macururé, que não resistiu aos ferimentos e faleceu na hora. O acusado empreendeu fuga e se encontra foragido.

Devido ao forte conteúdo fotográfico da notícia, desta vez não tem link.

segunda-feira, 19 de março de 2012

POEMA INÉDITO VIII




não me afagam possibilidades
nem mesmo imprevisibilidades
esperanças, ainda que vãs

minha agonia é agora
angústia sem hora marcada

nada tenho do amanhã



 
Herculano Neto

sexta-feira, 16 de março de 2012

NUNCA PESQUISE TEU NOME NO GOOGLE II


“Eu não me suicidei, eu parti para junto de Deus. Fiquem cientes que não bebo e não uso drogas, eu decidi que já fiz tudo que podia fazer nessa vida. Tive uma vida linda, conheci o mundo, vivi em cidades maravilhosas, tive uma família digna e conceituada, brilhei na minha carreira, ganhei muito dinheiro e ajudei muita gente com ele. Realmente não soube administrá-lo e fui ludibriada por pessoas de má fé, mas sempre renasci como uma fênix que sou e sempre fiquei bem de novo (...) Mas acontece que eu não quero mais morar em lugar nenhum. Eu não quero envelhecer e sofrer. Eu vi minha mãe sofrer até a morte e não quero isso para mim. Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não aguento mais pensar, pagar contas, resolver problemas (...) Aos meus fãs verdadeiros (...); ao prefeito de Itu, Herculano Neto e toda a sua equipe e ao meu amigo Zé meu muito obrigado."

quinta-feira, 15 de março de 2012

O PODEROSO CHEFÃO, 40 ANOS

“O Poderoso Chefão” estreou no dia 15 de março de 1972.
Hoje, queria apenas que o filme estivesse sendo exibido em um grande cinema, lugar onde nunca pude apreciar devidamente a obra de Francis Ford Coppola.
Al Pacino, Robert Duvall, James Caan, Diane Keaton, John Cazale e Marlon Brando. O clã Corleone continua influenciando e cativando muita gente.
Hoje é dia de tirar minhas camisas do armário.

THE GODFATHER - A SAGA

segunda-feira, 12 de março de 2012

NUNCA PESQUISE TEU NOME NO GOOGLE


"O motivo da confusão foi passional. O policial Gerson Francisco da Silva, conhecido como Gersinho, estava acompanhado da uma jovem, que seria ex-mulher de Herculano Neto, que foi agente penitenciário do Centro de Triagem. As informações são que Herculano esperou Gerson sair da casa noturna e o matou com vários tiros no estacionamento".

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

VINTE E NOVE

      Dizem que Saturno leva vinte e nove anos para percorrer sua própria órbita e voltar ao ponto exato em que se encontrava no dia do nascimento de qualquer pessoa. O Retorno de Saturno. Teoricamente, significaria o início de uma nova fase na vida, quando o indivíduo teria as rédeas do seu destino nas mãos, se desligaria do passado e construiria seu futuro.
        Mas será que essa regra vale para mim também?
     Nasci no dia 29 de fevereiro de 1976 (se tudo der certo, hoje será a nona vez que comemoro meu aniversário). Ainda não descobri nenhuma vantagem em nascer em um ano bissexto, ser  múltiplo do número 4 só faz aumentar minha solidão. Não tenho nada em minhas mãos, muito menos as rédeas do meu destino. Vivo preso ao passado e pouco espero do futuro. Se Saturno passou por mim, esqueceu de dizer um olá.
       Talvez ele tenha deixado para passar por mim em 2092, no meu 29º aniversário, embora eu acredite que não viverei tanto para saber.
        Às vezes eu acho que tenho realmente nove anos. 


Livremente inspirado na canção
"Vinte e Nove" (Renato Russo, 1993) 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS

(*) Tenho várias restrições quanto às redes sociais, mas não posso permanecer indiferente, nem deixar de considerar admirável, o número de casais que vejo se formando, principalmente através dos blogues. Almas absolutamente parecidas, separadas por inúteis fronteiras, se encontrando nessas intersecções do acaso.

(*) Há quem diga que é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, não sou tão velho assim, mas com toda essa febre em torno das tecnologias móveis, descobri que sou do tempo em que se ficava em casa porque estava esperando uma ligação.

(*) Gosto do ambiente da cozinha, me traz uma lembrança familiar que nunca abandonei. Mais do que cozinhar, gosto de inventar. De misturar, de encontrar sabores, de nomear pratos com títulos poéticos. Questionado sobre o que não pode faltar na minha cozinha, respondi: Heineken.

(*) Não costumo me manifestar quando o assunto é carnaval. Não entendo, não sei como funciona, não participo. Carnaval, para mim, é sinônimo de silêncio, de cidade vazia. Melhor escola de samba, bateria nota dez, melhor bloco, melhor cantora, melhor música, revelação... Acho que não faz sentido transformar uma festa popular em competição.

(*) Após oito anos, e inúmeras versões, enfim o meu livro de contos está pronto, do jeito que sempre imaginei. Agora é lutar para encontrar uma forma decente de publicação.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

DE SEGUNDA

        A primeira impressão é a que fica, mas apenas para quem se deixa levar pelo preconceito. Na primeira impressão não conseguimos avançar além das máscaras, das meras formalidades e posturas defensivas, por isso não é incomum nos tornarmos amigos de pessoas que antipatizávamos (ou vice-versa). Primeira impressão é capa de livro, é gata(o) na balada.
    Rever um filme pode ser uma experiência absolutamente satisfatória, saber como os acontecimentos se encaminharão, traçando causas e consequências previamente, sem nos perdermos no labirinto das possibilidades, nos permite enxergar tudo de maneira ampla e tranquila, livre das expectativas e armadilhas do roteiro. O mesmo vale para a literatura, reler um livro é sempre encontrar um livro novo. Não é difícil gostar mais de um livro depois de uma segunda leitura.
        Descobri esse prazer nas reprises dos jogos de futebol nos canais fechados, que me fazem companhia nas madrugadas insones. Acompanhar uma partida conhecendo o seu resultado é, inusitadamente, interessante. Não há tensão, não há torcida, não há ansiedade. Sabendo antecipadamente a conclusão de uma jogada, podemos analisar objetivamente, sem o coração nas mãos – embora, algumas vezes, eu vibre mais com os melhores momentos do show do intervalo. Acho que depois disso, comecei a admirar o jogador mais cerebral, aquele que recebe a bola, observa, pondera, e define a jogada num genial passe – de segunda. Parece que quem toca de primeira quer somente fazer a alegria dos narradores e espera contar mais com o acaso do que com a técnica (vide o número de passes errados encobertos por uma vitória).
        Obviamente, também não acredito em amor à primeira vista. O amor, amor pra valer, precisa ser construído, sem clichê de conto de fadas, sem mágica. Dou sempre uma segunda chance ao amor, aos livros, aos filmes, à vida. A única exceção talvez seja a música, mas isso renderia uma outra crônica.        
   

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A INFÂNCIA DOS IRMÃOS DARDENNE

Longe das benesses prometidas pela globalização, os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne inserem em seus filmes severas críticas ao tratamento oferecido para quem procura melhorias fora dos seus países de origem, sendo a imigração ilegal o tema central de dois trabalhos. Somam-se a isso, desempregados, indivíduos de baixa renda, moradores da região periférica e outros seres desesperançados que irão ajudar a compor o quadro de uma sociedade europeia menos privilegiada, principalmente a partir de 1996, com o ótimo e despretensioso “A Promessa”, filme que já trazia as principais peculiaridades do cinema deles: o uso de locações e luz natural, a ausência de maquiagem e trilha sonora, a câmera na mão, muito próxima dos atores, enredo que não possui necessariamente um começo ou um fim e temática social – elementos herdados do passado como documentaristas. No entanto, são os jovens marginalizados e crianças que tiveram a infância abortada que serão a essência da sua breve obra até agora. 
[LEIA O ENSAIO COMPLETO AQUI]


FILMOGRAFIA: LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO

2011 O Garoto da Bicicleta (Le Gamin au vélo)
2008 O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna)
2007 Cada Um com Seu Cinema (Episódio: Dans L’obscurité)
2005 A Criança (L’enfant)
2002 O Filho (Le Fils)
1999 Rosetta
1996 A Promessa (La Promesse)
1992 Je Pense a Vous (inédito no Brasil)
1987 Falsch (inédito no Brasil)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O DIA DA MARMOTA

            Hoje é o Dia da Marmota. Hoje também é dia de festa no mar e dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do meu torrão natal, mas o Dia da Marmota é mais importante.
       Segundo a tradição de uma pequena cidade estadunidense, na manhã de dois de fevereiro as pessoas devem observar uma toca de marmota, caso o animal saia da toca com o tempo nublado, isso indica que o inverno terminará cedo, mas se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e retornar para a toca, é sinal de que o inverno durará mais seis semanas. A marmota que todos os anos anuncia a duração do inverno, dizem,  possui mais de cem anos, e é cuidadosamente protegida por um grupo de cidadãos locais desde 1887. Este evento célebre, para a  incredulidade de muitos, atrai milhares de turistas todos os anos.
       No filme FEITIÇO DO TEMPO, Bill Murray é o repórter que anuncia as previsões metereológicas em um canal de TV, e para sua contrariedade é encarregado de fazer uma matéria sobre a marmota. No entanto, ele desperta sempre no mesmo dia e é obrigado a vivenciar tudo novamente. Cínico e intolerante com todos ao seu redor, ele encontra nessa “condenação” uma forma de se redimir, sendo, ao final, uma alegoria sobre a humanidade nesses tempos onde os dias parecem caminhar cada vez mais rapidamente, todos sempre apressados, onde acreditamos viver uma imensa rotina, quando na verdade a culpa dessa rotina é apenas nossa.
        Também queria acordar no mesmo dia e viver o meu dia igual de maneira diferente. Queria cometer outros erros, ter outras dúvidas e temores. Mas acho que estou cada vez mais parecido com a marmota e me assustando com a minha própria sombra. Melhor voltar para a toca e ver se “Feitiço do Tempo” já está passando em algum canal.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DO MEU ESCAFANDRO

        Tenho cada vez menos vontade de opinar, sobre qualquer coisa. Futebol, sexo, cinema, economia, a cor das cortinas... qualquer coisa. Minha opinião se tornou algo completamente desinteressante, inclusive para mim. Todo mundo tem opinião sobre tudo, eu não quero ter opinião sobre nada. Não participo de redes sociais, não interajo com desconhecidos no elevador, não acompanho reality shows, séries ou novelas da TV. Não conheço as coreografias do momento, as tendências e as gírias da estação. Não conheço nada. Importa-me saber se poderá chover, se os combustíveis subiram, se outro ministro caiu, mas não me interessa opinar.
        Não sinto que estou ficando para trás, pelo contrário. Na verdade, a pista parece sempre livre.
       Não me confundam com nenhum adepto de alguma seita raulseixista, alardeando que prefere ser uma metamorfose ambulante (por enquanto, prefiro apenas hibernar no meu escafandro).
        Não acho, não tenho certeza, não gosto, não detesto, não vi, não conheço (tenho inveja de quem sabe), na melhor das hipóteses eu não sei. “Não sei” é o meu mantra, minha melhor opinião sobre a vida, esse mistério que prescinde de explicações. O resto é silêncio.


P.S.: Rita, ainda não estou convencido de que não ter opinião seja uma opinião;

P.S.2: Tenho recaídas quando o assunto é necrofilia.

sábado, 14 de janeiro de 2012

SÓ GAROTOS

        “Quando eu era bem nova, minha mãe me levava para passear no Humboldt Park, pela margem do rio Prairie. Tenho vagas lembranças, como impressões de vidro, de um velho ancoradouro, uma concha acústica circular, uma ponte arqueada de pedra. O trecho estreito do rio terminava em uma grande lagoa e vi sobre a superfície um milagre singular. Um longo pescoço curvo ergueu-se de um vestido de plumas brancas.
        'Cisne', minha mãe disse, sentindo minha excitação. Ele tamborilou na água brilhante, batendo suas asas grandiosas, e alçou voo no céu.
        A palavra por si mal dava conta de sua magnificência, nem continha a emoção que ele produzia. Sua visão gerou uma necessidade para a qual eu não tinha palavras, um desejo de falar do cisne, de dizer algo sobre sua brancura, a natureza explosiva de seu movimento e o lento bater de suas asas.
        O cisne mesclou-se ao céu. Fiz força para encontrar palavras que descrevessem minha própria ideia sobre ele. 'Cisne', repeti, não totalmente satisfeita, e senti uma pontada, uma saudade curiosa, imperceptível aos passantes, à minha mãe, às árvores ou às nuvens.”


[SMITH, Patti. Só Garotos. Companhia das Letras, 2010. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza. 269 págs] 

SINOPSE: Patti Smith se mudou para Nova York com vinte anos, no final dos anos 1960. Enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do 'verão do amor', conheceu sua primeira grande paixão - o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição, os dois viveram períodos de transformações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens consideradas ousadas começam a ser reconhecidas no mundo da arte. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

(...)

         Adormeci lendo Rimbaud, como se estivesse em uma praia selvagem do Marrocos, como se aquelas palavras me deflorassem, como se eu estivesse exposta ao feroz zunzum das moscas imundas, como se a eternidade me invadisse e um amor infinito tomasse minha alma, como se eu dançasse no baile dos enforcados e depois caminhasse longe, muito longe, feito um boêmio.
      Quando acordei, tinha o olhar perdido e a postura morta. Acho que ninguém me reconheceria assim.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

(...)

      Se a vida tivesse trilha sonora, como nos filmes, “Unsatisfied”, dos Replacements, tocaria incessantemente, enquanto eu caminhasse pelas ruas. Se a vida tivesse trilha sonora, eu seria mais segura, mais forte. Meus passos seriam mais firmes, meu olhar, mais inquisidor. Se a vida tivesse trilha sonora, meu dia seria menos triste, menos acinzentado. 
      Mas aqui, na vida real, por mais que eu me esforce, só escuto o barulho apressado da cidade e o silêncio das redes sociais.

UNSATISFIED, Replacements

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

(...)

    Quando eu era criança, costumávamos passar as férias na Ilha. Lembro-me, frequentemente, de uma louca que vivia pelas ruas, a carregar um saco de pano cheio de bonecas velhas recolhidas pela vizinhança - um cemitério ambulante de infâncias. 
         Entoando uma antiga canção do Roberto, as outras crianças a perturbavam diuturnamente, apenas para, após o verso que você não vê que ele está ficando démodé”*, ouvi-la pronunciar uma variedade infinita de impropérios e atirar pedras a esmo, para a alegre e desesperada fuga de todos. Parecia ser o único divertimento do verão. Teorias pouco imaginativas, diziam que ela tinha sido professora na capital durante a juventude e tinha aversão a estrangeirismos; ou que ela enlouqueceu depois que o noivo a trocou por uma dançarina francesa de um cabaré itinerante. Na verdade, sua ingenuidade religiosa confundia “démodé” com demônio, nada mais. Queria terminar este parágrafo afirmando que ela desapareceu misteriosamente, deixando à beira-mar dezenas de cabeças de bonecas. No entanto, ela foi covardemente assassinada por um pai furioso, depois de ter acertado uma pedra na perna do seu filho.
             Os verões nunca mais foram os mesmos na Ilha, nem rei nem Roberto.

*CIÚME DE VOCÊ (Luiz Ayrão, 1968)

domingo, 1 de janeiro de 2012

(...)

       Parece que na noite de 31 de dezembro alguém esqueceu de pressionar a tecla “reiniciar”, pois na manhã de primeiro de janeiro não aconteceu nenhum milagre, nenhum encanto (acho que meu sapatinho ainda espera na janela do quintal). Continuei com as mesmas dores, com os mesmos sonhos, mesmas dúvidas. Continuei com as mesmas angústias, mágoas, medos e ansiedades, com os mesmos delírios e dívidas. Com a mesma cara borrada no espelho.
           A vida não estancou para assistir à queima de fogos no réveillon.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FICÇÃO CIENTÍFICA

VIAGEM À LUA, 1902, Georges Méliès
Possuo dezenas de teorias estapafúrdias, que apenas eu pareço disposto a acreditar. Acredito, por exemplo, que o teletransporte, recurso tão comum em produções de ficção científica, como a série "Star Wars", salvaria a humanidade de um inevitável colapso emocional. Principalmente no cada vez mais confuso final do ano. Com o teletransporte não desperdiçaríamos nosso precioso tempo, não existiria atrasos, frustrações. Teríamos uma melhor qualidade de vida, viver valeria realmente à pena. Com o teletransporte teríamos o fim dos congestionamentos e acidentes na estrada, o fim do caos aéreo, o fim da espera, o fim da saudade (uma mãe em Feira de Santana poderia dar um beijo de boa noite em sua filha em Tóquio e voltar à Bahia antes do almoço).
        Mas acho que estou vendo muitos filmes...
    Ficção científica talvez seja o único gênero cinematográfico que não se encerra completamente ao final da sessão. Um bom exemplar deixa saudáveis arestas, que propiciam discussões e interpretações. Sempre tive o desejo de participar, ou fundar, um clube de ficção científica, onde os sócios poderiam rever “Blade Runner”, “Os 12 Macacos”, “2001”, entre outros. Por enquanto, isso é mais fácil de ser resolvido do que a criação do teletransporte, infelizmente.
          Então, que venha 2012! 
          Os aeroportos me aguardam!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MAIS LISTAS?

        Questionado por que nunca faço listas de livros ou séries de TV, a resposta não poderia ser mais evidente: não leio livros recém-lançados (os mais recentes que li foram  “Em Alguma Parte Alguma” de Ferreira Gullar e "Só Garotos" de Patti Smith), acho que uma única existência não será suficiente para ler e reler todos os clássicos que desejo. E não acompanho séries de TV, também acredito que não conseguirei ver todos os filmes que pretendo e dois episódios de qualquer série, ou dois capítulos de uma novela, equivalem a um longa-metragem, aproximadamente - além do meu televisor só conhecer noticiário, eventos esportivos e reprises de “Chaves” e “Todo Mundo Odeia o Chris”.
         Tenho outras listas, mas estas, como já disse anteriormente, ainda são impublicáveis.

*Na imagem, John Cusack em “Alta Fidelidade”, 
interpretando o maníaco em listas Rob Gordon. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

CARNAVAL FUTEBOL E POESIA

Adeus, Doutor
     Costuma-se dizer que no Brasil o ano começa somente depois do carnaval, para mim ele termina com o fim do Campeonato Brasileiro de Futebol. Sei que essa afirmação soa tão leviana quanto dizer que só após a folia momesca a vida encontra seu trâmite normal (quem já está escalado para bater o seu cartão de ponto em primeiro de janeiro que o diga).
      Para quem viu seu time do coração lutar o certame inteiro contra o rebaixamento, talvez não haja muito o que comemorar, embora sempre exista a expectativa de dias melhores, até para quem espera alguma mágica acontecer num mero espocar de um espumante numa praia lotada na noite de 31 de dezembro.     
     Gosto tanto de futebol quanto de poesia, para a incompreensão de muitos. Gosto da poesia das palavras, da embriaguez dos versos inusitados, os versos que gritam e pedem socorro, os versos que silenciam, entretanto me fascina muito mais a poesia das ruas, a poesia dos andaimes, a poesia das flâmulas. 
        Gosto da poesia de Drummond, mas prefiro a poesia de um Sócrates em campo.
        Infelizmente, amanhã não haverá a infinidade de reprises dos gols da rodada, não haverá mesa redonda, discussões em mesa de bar. A partir de amanhã os noticiários esportivos irão se abastecer de retrospectivas, gols internacionais e especulações sobre os bastidores da bola. A partir de amanhã os domingos serão simplesmente domingos, sem graça, sem vibração, sem  compromissos. Nesse instante, deve ter alguém repetindo aliviadamente: até que enfim – o mesmo que eu direi na quarta-feira de cinzas, quando Salvador voltar a ser dos soteropolitanos.

        Por enquanto, sou apenas saudade.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

NATALIE WOOD

De estrela mirim à namoradinha da América, Natalie Wood participou de eternos clássicos do cinema, “De Ilusão Também se Vive”, “Juventude Transviada”, “Rastros de Ódio”, “Clamor do Sexo” e “Amor, Sublime Amor” são alguns deles. Há exatamente trinta anos, no dia 29 de novembro de 1981, ela abandonava essa existência, em circunstâncias misteriosas, enquanto navegava em um iate na companhia do marido Robert Wagner e do “amigo” Christopher Walken. Dona de uma beleza natural, e que ainda me encanta, Natalie Wood não é tão cultuada, como outras atrizes de sua geração, mas, certamente, possui um lugar importante na história do cinema. Merece a lembrança.
 




sábado, 26 de novembro de 2011

CALUDA, TAMBORINS!


          Para Jorge Bóris 

          Pegando carona num inusitado interesse da mídia pelo centenário do compositor e ator Mário Lago, e fugindo das onipresentes Amélias e Auroras, segue uma marchinha que ironizava a criação da Academia Brasileira de Música Popular, em 1941, intitulada "Caluda, Tamborins! ou de como o biltre do demo enredou em sua parlanda a trêfega Natércia" (traduzindo: "Silêncio, Tamborins! Ou como foi que o infame do diabo envolveu a alegria [de] Natércia no seu blá blá blá"), com uma  letra hermética que contrapunha o simplismo do gênero, mas essa, provavelmente, não passará em nenhum especial da TV.

Caluda, tamborins, caluda! Um biltre meu amor arrebatou.
No paroxismo da paixão ignota/ Supu-la um querubim, não era assim.
Caluda, tamborins, caluda... Soai plangentemente, ai de mim.
Vimo-nos num ror de gente /E, sub-repticiamente,
O olhar seu me dardejou.
Cáspite, por suas nédias madeixas/ Que suaves endechas
Em pré-delíquio o pobre peito meu trinou.
Fomo-nos de plaga em plaga, /Pedi-lhe a mão catita,
Em ais de êxtase m'a deu.
E o dealbar de um amor/ Em sua pulcra mirada resplandeceu, olarila!
Férula, ignara sorte/ Solerte a garra adunca
Em minha vida estendeu! Trêfaga ia a minha natércia,
Surge o biltre do demo/ Rendida à sua parlanda, ela se escafedeu.
Vórtice no imo trago.
São gritos avernais que no atro ódio exclamei.
Falena sou, desalada...
Ó numes ouvi-me: aqui del-rey!

domingo, 20 de novembro de 2011

MEU PÉ ESQUERDO

        O soteropolitano, e quem visitou Salvador recentemente, sabe que a capital baiana está abandonada, diferente da sua alegria folclórica no colorido do cartão-postal.
        Vivendo no centro dessa cidade há oito anos, não muito distante do que será a “nova Fonte Nova”, sequer me proponho imaginar como esse lugar sediará os jogos da Copa do Mundo de Futebol (nem todos os tapetes do planeta seriam suficientes para esconder tanta sujeira, nem toda maquiagem conseguiria disfarçar tanto descaso).
        Ao caminhar por suas históricas ruas, suas ladeiras, desviando-me habilmente dos vendedores ambulantes que ocupam todos os espaços, não tive a mesma habilidade para escapar dos buracos na calçada, que já fazem parte da paisagem, e, inevitavelmente, meu pé esquerdo sucumbiu pateticamente no meio da via, promovendo uma virada forçada do tornozelo. Resultado: os ligamentos rompidos e condenado a ficar “preso” dentro de casa, minha prisão sem grades, sabe-se lá por quantos dias, deslocando-me com o auxílio de muletas, com os movimentos reduzidos que transformam o simples em complexo, o corriqueiro em estafante, e digladiando contra o tédio (entre tantos insucessos, a angústia que senti ao utilizar uma cadeira de rodas no hospital foi uma das piores desta minha parca existência).
        Mas que Salvador acolha em 2012 um novo governante, que não se afogue no pouco caso e nas promessas demagógicas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

POEMA INÉDITO VII

estou no meu próprio centro
entre minhas próprias margens

nem sempre me perco
nem sempre me acho

em cada estação sou uma nova cidade

Herculano Neto

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PORQUE NÃO TENHO TELEFONE MÓVEL

Inicialmente, foi um pouco difícil me adaptar: se eu queria saber as horas, tateava o bolso em busca do aparelho; se estava atrasado afligia-me não poder avisar no trabalho que chegaria mais tarde; se me diziam um endereço, a data de algum compromisso, nunca tinha onde anotar – afinal, caneta e papel são utensílios do século passado. Mas, pouco a pouco, fui aprendendo a existir sem ele e consequentemente minha qualidade de vida a aumentar surpreendentemente (tenho medo de calcular quanto tempo desperdicei sendo escravo daquela caixinha). Meus amigos e familiares não entendiam minha decisão, argumentavam que tentavam se comunicar comigo e não conseguiam, que não se pode viver sem telefone celular nos dias de hoje, etc. Até me presentearam com um desses modelos de penúltima geração, cheio de softwares desnecessários, no entanto jamais o tirei da embalagem. 
          Não demorou para que as outras pessoas, também, estranhassem o fato de eu não possuir um celular: “como assim, você não tem?!”, parecia que eu estava dizendo que eu não tinha alma. Definitivamente, não me fazia falta nenhuma aquele troço. Agora, não tinha que dar satisfação por que não atendi alguma ligação ou por que o telefone estava desligado. Não era interrompido nos momentos mais inoportunos. Não incomodava ninguém com o meu gosto musical duvidoso. Não assustava minha sobrinha com o meu ringtone macabro. Não era obrigado a compartilhar minhas conversas quando eu estivesse em locais públicos. Não sofria com a ausência de sinal, falta de crédito nem bateria descarregando. A melhor parte, e olha que é difícil decidir qual é a melhor parte, era não ter que prestar contas de cada passo meu e ainda ter que tolerar a deseducação alheia, que já liga perguntando onde você está, tornando dispensável um mero cumprimento. Estava livre e com dó daqueles que passavam por mim digitando mensagens, ouvindo músicas, assistindo aos seus vídeos, papeando banalidades, conectadas na rede mundial e desligadas do mundo ao seu redor – mais solitárias que um grão de areia numa lata de Leite Ninho. 
          Mas não pensem que eu sou um desses alarmistas ecologicamente corretos, que afirmam que telefone celular é cancerígeno e que se ele pode causar interferência em eletrodomésticos coisa muito pior pode provocar no nosso organismo. Não acredito, por exemplo, que o uso do telefone móvel será proibido em muitos lugares, com restrições semelhantes às que acometem os fumantes, e que haverá severas advertências do Ministério da Saúde e áreas específicas para a sua utilização (o que me permitiria dizer, sem estranhamentos, algo como “há cinco anos que não tenho celular”, como quem diz com orgulho o tempo que tem longe da bebida alcoólica). Não acredito que existirá clínicas para reabilitar os seus dependentes e que o tema será considerado de extrema prioridade pelos governos, inclusive sendo a base dos debates e promessas de campanha eleitoral. Não acredito que a interatividade alcançará níveis cinematográficos, com telefones inteligentes, com vontade própria, que um dia poderão se rebelar contra a humanidade. Não acredito que arma de fogo será um dos seus diversos aplicativos de segurança. Não acredito que tudo que falamos nele será registrado em um enorme banco de dados gerido pelas potências mundiais, em parceria com as grandes corporações, onde serão arquivadas todas as nossas movimentações e preferências  – nem acredito que o cruzamento dessas informações ajudará a definir a estratégia de mercado para  determinados produtos, além de prevenir crimes, numa sociedade claramente inspirada em “Minority Report”. Não acredito que seremos conhecidos apenas por números, e que receberemos esse número ao nascermos, em hospitais e maternidades comandados pelas operadoras de telefonia.
          Não acredito em quase nada disso.

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