costas nuas
(Herculano Neto)
o longo vermelho
frente única
não esconde a tristeza
da moça que retoca a maquiagem
(Herculano Neto)
o longo vermelho
frente única
não esconde a tristeza
da moça que retoca a maquiagem
O meu dia poderia começar, ao menos uma vez, com um bom riff de guitarra, feito o de “Say What You Will”, da esquecida banda Fastway. Poderia haver também um narrador questionando meus passos, tecendo suas considerações sobre mim, não pragmático como o de “Mais Estranho que a Ficção”, mas descontraído como o DJ Black Boy. Ao invés da assepsia de lobos e vampiros que aceito sem reclamar na fila das matinês eu poderia ser estagiário no “Correio do Crepúsculo”, ter um chefe que coloca sapatos no pé da letra e uma amiga na crista da onda igual a Ronalda Cristina - e não um card repetido do Cristiano Ronaldo. Só não queria ter duas namoradas, para mim bastaria que o roteirista fosse mais bacana e colocasse na minha praia uma Zelda Scott sem tarja preta.
Independentemente de teorias mirabolantes e mensagens subliminares, sempre considerei, dentro dos quadrinhos produzidos por Maurício de Sousa, a “Turma da Tina” como a primeira, e verdadeira, “Turma da Mônica Jovem” - embora apenas recentemente tenha ganhado sua própria revista. Tina é sem dúvida sua personagem mais antenada com a juventude, surgiu em 1964 com visual hippie e foi se moldando às atualidades, hoje faz faculdade de jornalismo e tem um blog, mas tudo com o humor leve característico de seu criador.
Sou viciado em verdade. Para mim a mentira é uma ofensa e a omissão, covardia.
Nasci em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, onde a prática da capoeira é muito forte e comum. Lá todo mundo conhece ou tem uma história para contar sobre as façanhas do lendário capoeirista Besouro Mangangá. Durante a infância a figura de Besouro povoava meu imaginário das mais diversas formas: suas habilidades e feitos no começo do século passado, a se esquivar de balas no melhor estilo pré-Matrix, saltos e golpes mirabolantes a lutar contra os resquícios escravocratas, desbancando homens armados. Um heroi alcançável, símbolo de coragem e valentia, que ia além dos uniformizados dos quadrinhos e tv. Com tantas imagens cultivadas na memória acessei, como milhares de pessoas fizeram, ao trailer do filme no YouTube (mais de uma vez), afinal o mito local havia ultrapassado os limites do folclore e chegado à tela do cinema com uma arte marcial popular e pouco explorada e lutas coreografadas pelo chinês Huen Chiu Ku (de “Kill Bill” e “O Tigre e o Dragão”). Assim resolvi encarar a sessão de estreia do filme, curiosamente havia um público jovem, historicamente preconceituoso e reticente ao cinema brasileiro, porém tive as expectativas frustradas ao me deparar com uma obra cinematográfica inconsistente, com pretensões visuais exageradas e diálogos didáticos que remetem às manhãs do Telecurso. Sofro de “vergonha alheia”, um mal que ainda carece de medicamentos, e acompanhar o roteiro desestruturado se apoiar num misticismo gratuito e na desgastada fórmula do triângulo amoroso, e de quebra o amadorismo do elenco e uma montagem confusa, só fez me afundar mais na poltrona. Poderia valer pela valorização do negro como protagonista de uma grande produção, mas não é suficiente para suprir as claras deficiências de um produto inacabado. “Besouro” é um dos filmes mais caros já produzidos pelo cinema nacional, boa parte dos recursos oriundos de leis de incentivo, que nem de longe se espelha no Besouro cantado nas rodas de capoeira ou o das histórias narradas pelas pessoas mais velhas de Santo Amaro, esse sim, um Besouro sem preço e emblemático, que na minha imaginação realmente avoa.
Bastardos Inglórios é Quentin Tarantino de volta à grande forma num dos melhores filmes do ano (tentei não escrever no calor da hora para evitar lugares comuns como esse). Seguindo à risca a cartilha de “como produzir um cult movie”, ele nos presenteia mais uma vez com diálogos memoráveis e personagens carismáticos, como o coronel nazista Hans Landa, “o caçador de judeus”, interpretado magnificamente (também queria evitar hipérboles e superlativos) pelo ator austríaco Christoph Waltz, que deu vida a um dos maiores antagonistas de toda história do cinema (não é exagero). Tarantino divide sua obra em capítulos (até aí nenhuma novidade) para apresentar durante a 2ª Grande Guerra as trajetórias do tenente Aldo “Apache” Raine, vivido por Brad Pitt, líder dos Bastardos, um batalhão especializado em escalpelar nazistas na França ocupada por Hitler, e Shosanna, a judia que escapa de um massacre em família e se torna (sem muitas explicações plausíveis, talvez na especulada continuação) proprietária de um cinema em Paris. Com essas duas premissas o enredo caminha paralelamente até a aguardada intersecção, que culmina numa sanguinolenta sequência - que já foi o sonho politicamente incorreto de qualquer pessoa que preze a dignidade humana (não, não contei o final).
Costumo ler no ônibus, enquanto vou ao trabalho. Diferentemente dos meus colegas de viagem, que já embarcam temerosos, leio tranquilamente – sem me importar com o imprevisível. Durante duas dessas ocasiões comecei e terminei a leitura de “PATTY DIPHUSA”, do cineasta Pedro Almodóvar. Uma série de contos publicados originalmente na revista espanhola “La Luna” a partir de 1982 e copilados em livro em 1991 (ano em que filmou “De Salto Alto”). Impossível não imaginar aquelas histórias (e acredite que tentei) em película, provavelmente a trajetória da estrela pornográfica internacional Patty Diphusa por Madri não tivesse espaço no cinema de hoje (nem uma atriz como Victoria Abril como protagonista), talvez soasse demais como um Almodóvar de antigamente, o que já seria bem melhor do que suas últimas produções.
Querida Wendy, Dinamarca 2005, tem direção de Thomas Vinterberg e roteiro de Lars von Trier (que abandonou a direção de Dear Wendy para se dedicar a Manderlay). No filme o jovem Dick compra por acaso um pequeno revólver e juntamente com outros “excluídos” funda um contraditório clube baseado no pacifismo e na posse de armas. Esteticamente lembra um pouco “Dogville”, principalmente a cidade Estherslope e seus peculiares habitantes, embora seja bem menos pretensioso e descontraído. Atenção especial para a excepcional trilha sonora, com clássicos do grupo inglês The Zombies.
Tive a honra e a felicidade de debutar em livro ao lado de Miguel Carneiro, em 2004 na antologia OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI. Juntamente com o escritor conheci a pessoa e desde então minha admiração por ambos se mantém crescente. Homem de valores raros, tento, sem muito sucesso, absorver um pouco. Uma queixa recorrente que Miguel amiúde faz é que pouco nos encontramos, mesmo habitando a mesma cidade média - talvez em decorrência de minha personalidade arredia, não sei. Numa dessas oportunidades ele me presenteou com seu livro TRANCELIM DOS INCRÉDULOS (Ed. Virtual Books), um conjunto de “apenas” três contos (Trancelim dos Incrédulos, Galo de Ouro e Naquele Dia eu vi o Diabo de Perto). Se posso reclamar de algo é que a publicação é demasiadamente curta, tende-se a querer ler tudo num só fôlego e o desejo de mais não se evapora com facilidade ao transpor suas 56 páginas. Com sua prosa rica Miguel nos conquista com suas expressões populares e personagens carismáticos que são ótimos contadores de história, valorizando sempre a oralidade do nosso povo. Fica a vontade de ver um dia, dignamente reunidas, a poesia, ficção e dramaturgia de Miguel Carneiro num merecido tomo de obras completas.