terça-feira, 13 de outubro de 2026

TODOS OS MEUS MORTOS XVI

 

Na minha infância, assistia muito a telenovelas com minha mãe (hoje não acompanho mais, não por considerar uma mídia inferior, longe disso, apenas uma soma de desinteresse com falta de tempo). Era um momento em família. Minha mãe deveria ser, o que se convencionou chamar depois, uma “noveleira”. Ela tinha um velho caderno, que cultivava desde a adolescência, com anotações sobre cada folhetim transmitido (elenco, autores, datas, sinopse, observações, notas). Em seu último ano de existência, com o alzheimer caminhando a passos largos, passávamos as tardes a rever capítulos aleatórios de novelas dos anos 80. Durante a exibição ela conseguia recordar com entusiasmo o nome dos personagens e antecipar os acontecimentos da trama. Uma metralhadora de spoilers. Quando a tevê era desligada minha mãe se desligava também – e retornava ao seu mundo particular. Somente agora, em dúvida se dou play em “Vereda Tropical” ou “Livre para Voar”, me dou conta desse fechamento de arco. E que a vida, mesmo sem roteiros, pode ser cíclica e sacana.

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