quinta-feira, 23 de agosto de 2012

NELSON

Para quem dizia que toda unanimidade é burra, 
não deixa de ser irônico que o tempo o tenha transformado em uma.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS

(*) Não acompanho novelas, mas sei que há muito tempo elas não tinham tanta evidência. Constatei isso pelo número de matérias nas revistas semanais (inclusive capas) e pelas conversas que inevitavelmente escuto no elevador. Para quem me pergunta se vi as previsíveis revelações da noite passada, quando estou com paciência, costumo responder que dois capítulos de uma novela equivalem à duração média de um longa-metragem, ainda assim morrerei sem assistir à metade dos filmes que desejo. Melhor seria morrer, mas ter visto uma novela inteira?

(*) Não acompanho novelas, mas elas me acompanham. A filha recém-nascida de um colega de trabalho foi batizada com o nome de uma personagem do folhetim das 21 horas, pela festividade das pessoas que receberam a notícia comigo, deduzi que a tal personagem deve ser realmente muito popular, uma  heroína moderna. No meu caminho, ainda me deparo com as roupas, gírias, cortes de cabelos e músicas da novela do momento – até ela acabar e começar outra nova-novela-do-momento.

(*) Não acompanho novelas ou séries, mas não abro mão das reprises dos Simpsons, principalmente os episódios em que Nelson e Milhouse têm destaque. De alguma forma, inexplicavelmente antagônica, me identifico com as agruras de um pseudonerd ingênuo e apaixonado e com o delinquente juvenil, filho de uma prostituta relapsa, que humilha os meninos menores e mais fracos.

(*) Não acompanho novelas, mas acompanho blogues. Recentemente, li em um que “alternativa a gente não impõe, oferece”. Quando estou em uma residência em que eu não sou o dono do controle-remoto e alguém decide mudar de canal para “dar uma passadinha na novela”, olho a tela e nada vejo. “Você pode levar um cavalo até à água, mas não pode obrigá-lo a beber”.

(*) A seguir, cenas da próxima postagem... Ops! Acho que os capítulos hoje em dia terminam de maneira mas estilizada, com frames congelados, fade-out, animações... Se você for do tempo do “a seguir cenas do próximo capítulo”, definitivamente, está ficando velho.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas anúncios de acompanhante.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

RODRIGO


Quando minha mãe chama: “Digo
Vou brincando
Vou feliz
Pois eu sei que sou querido

Quando meu pai chama: “Digão
Vou correndo
Vou sem medo
Pois eu sei que é diversão

Mas quando um dos dois grita:
RO-DRI-GO
Fico quieto, nada digo
Pois eu sei que é perigo

(Trecho do livro infantil inédito 
UM MENINO CHAMADO RODRIGO)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

JORGE

      Há algum tempo, encontrei em um sebo de Salvador algumas edições de Jorge Amado devidamente autografadas, provavelmente vendidas por algum familiar que herdou a biblioteca, mas não enxergava naquele monte de livros utilidade, vai saber. O engraçado é que nem mesmo o esperto vendedor se deu conta de que aqueles rabiscos eram do próprio autor, em diferentes períodos, resultado: comprei cada um por cinco reais.
      Tenho uma espécie de fetiche por livros autografados para terceiros, para pessoas que não conheci. Reservo uma prateleira especialmente para essas relíquias. Há quem diga que autógrafo só tem validade em um cheque, em uma nota promissória. Outros, dizem que autografar estraga o livro, a capa do disco, e ficam chateados quando são presenteados com um livro “riscado”.
      Será que quando eu for apenas uma fotografia post mortem, quando eu deixar de existir que nem a Bahia de Jorge Amado, a minha coleção irá parar em algum sebo por cinco reais cada?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

EMANUEL

        Depois de ler uma matéria no jornal (sim, ainda leio jornais de papel) com todo clima de celebração em torno dos setenta anos de Caetano Veloso, decidi não reavaliar a obra do cara, mas tentar organizar meus velhos discos. No entanto, cada capa, cada dedicatória, trazia uma história para revisitar. No final, acabei mais bagunçando do que arrumando.      
      Ser conterrâneo de Caetano Veloso, ao contrário do que pode aparentar, não é fácil, principalmente quando você se encontra fora do seu torrão. Quando digo que sou de Santo Amaro, quase que consigo escutar o pensamento do meu interlocutor: “Meu Deus, outro que pensa que é artista”. Mas essa lógica-preconceituosa-de-botequim não é problema, pior é ter que prestar contas de cada declaração polêmica ou regravação de axé ou funk-carioca, como se fosse eu o culpado (quem é santoamarense sabe o que estou falando). 
        


Acima, a ótima versão da banda de indie rock inglesa MAGIC NUMBERS  para o clássico "You Don’t Know Me", 
faixa do disco "A Tribute to Caetano"
      

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

OS OLHOS DA RUA

FOTOGRAFIAS Herculano Neto  
(julho 2012)
SOB O CÉU DE SANTO AMARO as ruínas da antiga siderúrgica Trzan
(manhã de 29 de julho de 2012)


CARETAS DE ACUPE
Não, não são doces ou travessuras, trata-se de uma manifestação cultural de Acupe, distrito de Santo Amaro, que celebra a Independência da Bahia. Com fantasias artesanais assustam e divertem durante os domingos de julho.


DINHO FAGUNDES E AS CARETAS DE ACUPE
Não confunda com nenhuma contracapa de disco de rock nem revival de Thriller, na cena, aparentemente programada, apenas o amigo santoamarense Dinho Fagundes, sem se dar conta da aproximação das Caretas de Acupe.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ III

PRIMER (EUA, 2004)
Direção: Shane Carruth

Com apenas, inacreditáveis, sete mil dólares, um matemático desencantado com a profissão decidiu escrever, dirigir, atuar, compor a trilha sonora, escalar um elenco amador, usar a própria garagem como estúdio de filmagem, editar em um computador caseiro, e mesmo sem utilizar nenhum efeito especial, acabou realizando uma das melhores ficções científicas da história do cinema, e a melhor no sub-gênero “viagem no tempo”, sem dúvidas.  Com um roteiro que consegue tratar da maneira inteligente os paradoxos temporais, o calcanhar de Aquiles desse tipo de produção, PRIMER é um quebra-cabeças que exige do espectador a máxima atenção, são tantos os detalhes que é necessário ser visto mais de uma vez. E acredite: a cada exibição o filme fica ainda mais interessante.

O OLHAR INVÍSIVEL
(La Mirada Invisible, Argentina, 2010)
Direção:  Diego Lerman
Com ecos de Lucrecia Martel, essa película se passa em 1982, quase que exclusivamente dentro do Colégio Nacional de Buenos Aires, durante os últimos dias da ditadura militar argentina. O microcosmo do colégio reflete, naturalmente, a repressão e rigidez que acometia o país naquela época. Marita, inspetora encarregada de vigiar o cumprimento das severas regras escolares, o olhar invisível do título, e que usa o seu cargo como pretexto para observar os alunos no banheiro, é a típica representante de uma classe média utópica, que em busca de valorização profissional vivia alheia ao regime ditatorial. Feito de breves gestos, de olhares, temos, novamente, outro bom exemplar do cinema argentino, mas afirmar isso é chover no molhado.
 
O ABRIGO
(Take Shelter, EUA, 2011)
Direção: Jeff Nichols
Sempre questiono se os distribuidores brasileiros, tão preocupados com estratégias de mercado, conhecem efetivamente a sétima arte quando vejo um filme como esse estrear diretamente em home vídeo. Espécie de primo-pobre de MELANCOLIA, de Lars von Trier, e A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick, O ABRIGO acompanha de perto Curtis, ótima performance de Michael Shannon, um homem dócil, introvertido, pai de família devotado, que tem sua rotina afetada quando a iminência de uma tempestade devastadora, que somente ele consegue observar, escutar e sentir, o leva a construir um abrigo subterrâneo, decisão que terá graves consequências em sua vida. Sem sabermos se essa tempestade é real, ou se compartilhamos dos delírios de Curtis, O ABRIGO possui mais incitações psicológicas do que mera angústia apocalíptica.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

POST MORTEM

Por mais mórbido que possa parecer, antigamente era comum fotografar um ente querido morto (costume que ainda é preservado em algumas localidades). A fotografia "Post Mortem" era a última homenagem prestada ao falecido, principalmente nas famílias mais ricas e tradicionais. Para a produção dos retratos eram criados situações e cenários que simulavam um ato corriqueiro, que parecesse natural, como sentar com as pernas cruzadas, segurar livros ou bebês, abraçar um parente, ou ficar “em pé”, com o auxílio de madeiras por dentro da roupa. Fotos “post mortem” aparecem em um dos melhores momentos do filme OS OUTROS (The Others, 2001). Abaixo, alguns exemplos:
A moça em pé está morta
Garotinha apreensiva ao lado do irmão morto

Pai e filho mortos

sexta-feira, 20 de julho de 2012

DAS COISAS QUE EU ADORO EM BLOGUES

Blogues que são atualizados frequentemente. Blogues que produzem seu próprio conteúdo. Blogues enxutos, com um design que favoreça a leitura. Blogues que respeitam a obra de Caio Fernando Abreu, Cecília Meireles e Clarice Lispector. Blogues que respeitam a Língua Portuguesa. Blogues que publicam todos os comentários. Blogues que não utilizam letras de verificação. Blogues com torrents de filmes independentes. Blogues com EPs de bandas independentes. Blogues que provocam. Blogues que informam. Blogues que apontam caminhos, possibilidades. Blogues que não pareçam diários de adolescente. Blogues que pareçam blogues. Blogues com boa poesia. Blogues que saibam a diferença entre crítica e spoiler. Blogues com listas de “odeio” ou “adoro”. Blogues que não se incomodam com a opinião de outros blogueiros.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

DAS COISAS QUE EU ODEIO EM BLOGUES

Blogues que são abandonados depois da primeira postagem. Blogues desatualizados há mais de um mês. Blogues que parecem Twitter.  Blogues que utilizam todos os gadgets disponíveis. Blogues que não produzem seu próprio conteúdo. Blogues que mudam o design como quem muda de roupa. Playlist (ser obrigado a escutar Céline Dion ou Michael Bublé é tortura). Quem “confunde” blogue com fotolog. Ponteiros animados. Clicar em um link e abrir várias páginas. Fonte cursiva. Comentários CTRL+C CTRL+V (“teu blog é lindo já tô seguindo me segue também”). Selinhos. Plágio. Postagens que citam Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector com frases que nem são deles. Postagens suicidas (“estou sozinho em meu quarto, ninguém me entende, apenas o Mc Lanche me deixa feliz”). Postagens  informando que “estou sem tempo para postar”.  Nova Língua Portuguesa (“nada haver”, “agente vai amanhã”, “ela mim falou” e “eu desistir de comprar” são exemplos). Abreviações. Letras de verificação. “Continue lendo...”. Spoilers. Listas de “odeio” ou “adoro”.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

TODO DIA É DIA DE ROCK

No dia 13 de julho de 1985 acontecia o Live Aid, um show simultâneo em diversas cidades do planeta, com o objetivo de arrecadar fundos contra a fome na Etiópia e com a presença de artistas como The Who, Dire Straits, Queen, David Bowie, BB King, U2, Paul McCartney, Phil Collins, entre outros – desde então, 13 de julho passou a ser conhecido como o Dia Mundial do Rock. Para lembrar essa efeméride, segue a performance de Raul Seixas no Festival Phono 73 (provavelmente sua melhor apresentação ao vivo), com as canções “Let me sing, let me sing” e “Loteria de Babilônia”. Realizado no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, de 11 a 13 de Maio de 1973, o festival era uma estratégia de marketing que pretendia demonstrar ao governo militar que a gravadora Phillips/Phonogram (Universal), não era um reduto de comunistas, no entanto o evento ganhou um forte viés político, principalmente quando Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram o som dos seus microfones desligados pela polícia durante a  exibição de "Cálice". O festival ainda contou com Elis Regina, Gal Costa, MPB4, Caetano Veloso, Wilson Simonal e Jorge Ben.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O MESTRE DOS MAGOS

          Ele sempre aparecia quando eu precisava. E desaparecia quando eu precisava mais ainda. Um dia, me vi num inferno, num mato sem cachorro — sem enigma que pudesse quitar os meus pecados.

terça-feira, 3 de julho de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS IV

(*) Há várias maneiras de saber que você está ficando velho: quando você começa suas frases com um nostálgico “antigamente...” ou “no meu tempo...”, quando você pede para diminuir o volume ou quando as pessoas ao seu redor passam a perguntar quando você terá um filho, por exemplo – e, ultimamente, esta tem me perseguido. Tenho respostas prontas que utilizo a depender do grau de intimidade que possuo com quem pergunta, falta de talento, incompetência e excesso de juízo são algumas delas. 98,98% dos pais que eu conheço, esses mesmos que me importunam com esse tipo de pergunta, tiveram filhos por “acidente”. Não quero olhar para o meu filho e vê-lo como um acidente, algo que não deveria ter acontecido, sentado no sofá a imaginar que vida eu teria se eu não fosse pai.

(*) Pessoas excessivamente convictas me cansam. Aprecio quem hesita, quem oscila. Pessoas excessivamente convictas batem o pênalti para fora, ficam em xeque a todo instante (um bom jogador não deixa de duvidar). Pessoas excessivamente convictas não são boas de papo, não são boas de copo, não são boas amantes. Pessoas excessivamente convictas têm uma velha opinião formada sobre tudo, sempre.

(*) Tenho amigos que dizem me invejar porque, segundo eles, estou constantemente “ligado” em bandas novas, livros novos, filmes novos, vida nova... Tenho um, especificamente, que diz que sou “viciado em juventude” (sem nenhum cunho pedófilo, assim espero). Outro, afirma que chega um momento da nossa efêmera existência que só é possível ouvir os mesmos discos, reler os mesmos livros, rever os mesmos filmes, ver os novos filmes dos mesmos diretores... Será? Acho o dia muito curto para ficar agonizando no repeat.

(*) Já escutei, algumas vezes, que sou um bom conciliador, que escapo com destreza de polêmicas e transito com desenvoltura em diversos ambientes – há quem me considere, inclusive, um hábil e desperdiçado político. Essa qualidade é exaltada até por pessoas que não me são simpáticas. Na verdade, não sou nada disso, tal qual  o Conselheiro Aires, de Machado de Assis, tenho tédio à controvérsia, somente.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas páginas de diário.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

BODAS DE NAFTALINA

“Cinquenta anos dos Rolling Stones”. “Cinquenta anos da conquista do bicampeonato da seleção brasileira no Chile”. “Cinquenta anos da morte de Marilyn Monroe”. “Há cinquenta anos um filme brasileiro ganhava a Palma de Ouro em Cannes”. “Cinquenta anos de Tom Cruise, Jon Bon Jovi, Axl Rose, Paula Toller...”.

Cinquenta é um número forte, emblemático, não nego. Inclusive, sua entonação requer um pouco mais de esforço, uma sílaba de cada vez pedindo passagem, CIN-QUEN-TA, pela boca que parece se abrir mais para pronunciá-lo, um trema que se recusa a morrer. Entendo essa força quando a pedra é cantada num bingo, quando é festejado o aniversário de casamento do feliz casal de vovôs, quando o valor de uma dívida é cobrado, quando o médico comunica que há 50% de chances, mas não compreendo o fetiche que a mídia tem pelo número: é como se 47, 48 e 49 não tivessem existido ou se tivessem ficado hibernando em naftalina, como se não fossem necessários. 

Cinquenta tem vida própria, afinal “não é todo dia que se comemora meio-século”, e 2012 tem sido generoso para quem gosta dessas efemérides (vide o primeiro parágrafo) e que deve ser aproveitadas ao máximo, até porque 51, 52 e 53 vêm aí e são tão importantes quanto 47, 48 e 49 (bem que alguém poderia pegar carona e produzir uma mostra com filmes lançados em 1962, adoraria assistir em uma tela de cinema à “Lawrence da Arábia”, “O Sol é para todos”, “Lolita”, “Jules e Jim”, “007 Contra o Satânico Dr. No” ou à  “Luz de Inverno”.).

Um homem com cinquenta anos é um homem de meia idade – e  que, dificilmente, um dia será um homem de idade inteira. Na numerologia cabalística o número 50 está associado a letra “O” (cinquenta é uó?). Cinquenta é o número atômico do estanho. Em uma cédula de 50 euros há portais e arcos em arquitetura renascentista, na de 50 dólares o ex-presidente Ulysses Simpson Grant (quem?), na de 50 reais uma onça pintada e na de 50 pesos Diego Armando Maradona. Um pé-de-moleque em Salvador custa cinquenta centavos, um programa de meia hora custa cinquenta reais. Cesar Cielo é o recordista mundial dos 50 metros nado livre. O canal Nickelodeon exibiu 50 horas consecutivas de Bob Esponja. A cantora Shakira tem 50 milhões de fãs no Facebook. O atacante uruguaio Edinson Cavani vale 50 milhões de euros. 50 cilindradas é moto de menina. Sobrevivi 50 dias com ela. 

Em janeiro, encontrei uma cédula de 50 cruzados novos, em ótimo estado de conservação, guardada por algum previdente senhor, em uma antiga edição de “Sagarana”, em um sebo da Estação da Lapa, mas isso não tem nada a ver com  o texto – eu acho.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ II

BILLY ELLIOT (Inglaterra/França, 2000)
Direção: Stephen Daldry


Na inacreditável filmografia de Stephen Daldry, com quatro filmes e três indicações ao Oscar (por “As Horas”, “O Leitor” e “Tão Forte, Tão Perto”), talvez “Billy Elliot” tenha sido o que mais merecesse essa honraria, não apenas pela vitória de “Gladiador”, mas porque o considero melhor que alguns indicados de 2001, como “Erin Brockovich” ou “Chocolate”. Na Inglaterra de 1984/85, Billy, Jamie Bell de “Querida Wendy”, é um jovem que vive com as lembranças da mãe falecida, o pai, o revoltado irmão mais velho e a avó esclerosada no subúrbio de uma cidade operária do interior da Inglaterra, em meio a crise provocada no país pela greve dos mineradores. Sem habilidades para o treinamento do boxe, ele termina, por acaso, descobrindo sua verdadeira vocação: o balé clássico. "Cosmic Dancer”, do T-Rex,não sai da memória.
    

SAMSON & DELILAH
(Austrália, 2009)
Direção: Warwick Thornton 

Samsom e Delilah são dois jovens de descendência aborígine que vivem no inóspito deserto australiano, em um ambiente da mais absoluta modorra, onde nada parece subverter a ordem do tédio e onde o silêncio acaba sendo uma solução natural – praticamente não escutamos a voz do seu protagonista, em contrapartida a música é um elemento constante e que muitas vezes funciona como válvula de escape (incluindo em sua trilha sonora uma inusitada versão de “Talismã”, sucesso da dupla Sullivan e Massadas). O uso de “não-atores” torna ainda mais forte a jornada do casal, que culminará numa desalentada estadia nas ruas da metrópole, por motivos que não vale a pena aqui relatar, além de trazer questões sociais e culturais. O afeto, que brota à fórceps, torna esta uma das melhores histórias de amor já realizada pelo cinema. Prêmio Câmera D’Or em Cannes. Sugestão de Daniela Delias.


CINEMA VERITÉ (EUA, 2011)
Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini

Filme produzido pela HBO sobre os bastidores da série televisiva An American Family, que foi ao ar em 1973 e acompanhava os passos dos Loud, uma típica família estadunidense, nos moldes do que hoje chamamos de reality show. Inspirado pelo cinema-verdade, o documentarista Craig Gilbert propôs à recém-criada TV pública uma “experiência em antropologia cultural”, mas em vez de mirar as lentes para culturas exóticas e distantes, a ideia era observar de perto a sociedade americana, o que resultou num imenso sucesso. Aos poucos, as máscaras da família perfeita caem diante das câmeras: um filho que se assume homossexual, outro que não quer perpetuar o negócio familiar, traições e um casamento desfeito. Alternando ficção com cenas reais, “Cinema Verité” tem Tim Robbins e Diane Lane em  bons momentos de suas carreiras. Massacrados pela opinião pública, a família Loud jamais seria a mesma, nem a maneira como assistimos à televisão.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

POEMA INÉDITO IX


não quero uma casa no campo
com verdes e animais
longe de tudo

quero uma casa na Getúlio Vargas
com vista pro viaduto
a poucas quadras da repartição



Herculano Neto


domingo, 10 de junho de 2012

CONFLITO DE ECOS

Em outubro, se o meu mundo não acabar, completarei dez anos de blogue. O primeiro foi no IG, depois na UOL e desde 2008 estou aqui – quem tentou escrever e ser lido em fanzines mimeografados (o quê?) ou xerocados (neologismo infeliz) no século passado, sabe o valor de produzir e publicar seu próprio conteúdo.

Gosto bastante de blogues, leio vários todos os dias, embora nem sempre comente, algumas vezes por falta de tempo (a desculpa mais esfarrapada da história da humanidade), noutras, para evitar embates desnecessários. Comentários elogiosos são frequentemente ignorados, mesmo quando comentam que sua postagem salvou a vida de alguém. No entanto, basta discordar para o mundo do blogueiro vir abaixo e ele apresentar todas as suas deselegantes armas (o que, cá entre nós, é uma bobagem sem tamanho). Concordar ou discordar faz parte do debate e deveria ter o mesmo peso, mas o ser humano necessita de eco.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

PÓLVORA

 Ainda me avisaram para eu não ir, que era barril.
Só não imaginava que o pavio fosse tão curto.




sexta-feira, 1 de junho de 2012

SACIZEIROS

“Mas os três sacis,
sempre com razão,
sabem que poupança é a solução”.
 
          Dizem que em “A Caverna do Dragão”, Tiamate, o dragão de cinco cabeças, seria a representação do bem, uma espécie de anjo, mas, levados pelas aparências, os jovens buscavam ajuda no verdadeiro lado maligno, o Mestre dos Magos. Na vida real também é assim: o mal é fácil, o bem requer esforço (lição corriqueiramente apregoada pelos religiosos). Mensagem subliminar semelhante existia na antiga série de anúncios do falido Banco Econômico, quando um dragão tentava, a todo custo, alcançar três simpáticos sacis e "queimar o dinheiro dos bichinhos da floresta". Não sei que maldade havia no meu inocente, ainda, coração de criança para torcer pelo dragão – intuição, talvez.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

PODERIAM SER CRÔNICAS, MAS SÃO APENAS NOTAS III

(*) Já escrevi AQUI que prefiro ir à banca de revistas, conferir as novidades, ver as manchetes dos jornais, do que ser assinante. Faço isso desde moleque, quando colecionava minhas primeiras Hqs, não mudaria agora – tornar-se adulto é mero detalhe.
      Algumas publicações, numa estratégia de mercado, costumam colocar duas ou mais capas diferentes à disposição do leitor, algo que tem se tornado cada vez mais comum e me agradado bastante. Em junho de 2010, a “Rolling Stone” disponibilizou uma capa com Mick Jagger e outra com Keith Richards, com suas faces mais imberbes. Ao perguntar ao jornaleiro se a revista já havia chegado, ele prontamente me ofereceu a edição com Jagger, educadamente recusei e disse que preferia a outra, sem se dar por vencido, ele argumentou que era Mick Jagger. “E este é Keith Richards” – sentenciei. Depois, fiquei imaginando qual seria a capa que escolheriam para mim se eu fosse assinante.
      Poder escolher, ainda, é o meu maior trunfo.

(*) Tenho pavor a diminutivos, desde sempre. Falsa intimidade ou excesso de intimidade pouco importa para mim, é constrangedor de qualquer forma. Penso que os “inhos” e  “inhas” deveriam se restringir, no máximo, ao ambiente familiar. Os irmãos Fernandinho e Fernandinha, ao se encontrarem no pátio da escola, se tratariam como Fernando e Fernanda, sem carinhos... Ops! Será que “carinho” também é um diminutivo?

(*) Fotógrafos, Djs, escritores e comediantes se espalham por aí, feito uma virose pós-carnaval. Acho que falta quem diga que apertar um botão não faz de ninguém fotógrafo, colocar um disco para tocar não faz de ninguém DJ, ajuntar palavras não faz de ninguém poeta, contar uma piada não faz de ninguém comediante. No entanto, enquanto houver quem “curta” e “compartilhe” a ausência de talento ainda será a bola da vez.
       A busca por um padrão diminui as possibilidades, e nunca houve tantas.

(*) Poderiam ser crônicas, mas são apenas parágrafos. Falta de fôlego do cronista ou preguiça do leitor? Preguiça do cronista ou falta de fôlego do leitor? Falta do leitor ou falta do cronista? Falta de leitor?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

OS INOCENTES

A perda da inocência é um tema recorrente nas artes, é a verdadeira entrada no mundo adulto, o baile de debutantes da vida real. A inocência pode ser perdida, ou abandonada, a qualquer momento: aos dez, quinze, trinta anos (quando alguém lhe diz que as nuvens não são feitas de algodão). Conheço crianças sem nenhuma inocência e adultos com toda inocência do mundo – não há regras.

Acho que perdi minha inocência quando comecei a ter medo das pessoas, quando passei a atravessar a rua para não trombar com um tipo estranho, quando menti para não ofender alguém, quando resguardei meu coração para não ser magoado. Quando evitei um aperto de mãos, um beijo no rosto, de pessoas que são obrigadas a me tolerar.

Acho que perdi minha inocência quando mirei aqueles olhos e nada vi, quando o silêncio tomou o lugar da indiferença, quando duvidei de promessas, de juras de amor.

O pior de perder a inocência é saber que passarei, inutilmente, o resto da vida procurando-a, mesmo tendo certeza que jamais irei reencontrá-la, não como ela já foi um dia.

Desacreditar na humanidade não tem volta.
 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

ALÉM DO QUE SE VÊ

Não costumo indicar filmes, parece um misto de pretensão com responsabilidade. No entanto, muitas pessoas (muitas mesmo), frequentemente me pedem sugestões, perguntam qual foi o filme que vi recentemente e que vale a pena, o que há de interessante em cartaz, etc. Sendo assim, vez ou outra, selecionarei alguns trabalhos que vi (ou revi) este ano. Sem nenhuma pretensão, mas com extrema responsabilidade.

ELEIÇÃO (Election, EUA, 1999)
Direção: Alexander Payne

A fugaz disputa pela presidência de um conselho estudantil é o pano de fundo ideal para Alexander Payne dissecar sua crítica à sociedade americana a partir do universo de uma típica high school. As narrações em off, feitas por diversas personagens, deixam ainda mais ácida, e divertida, essa comédia de humor negro. Além de resgatar Matthew Broderick, “Eleição” ainda tem o mérito de trazer a melhor interpretação da superestimada Reese Witherspoon.
MEU PAÍS (Brasil/ Itália, 2011)
Direção: André Ristum

O encontro de uma desconhecida meia-irmã com deficiência mental (Débora Falabella) após a morte do pai (Paulo José) é o ponto de partida para tentarmos entender essa família formada por um playboy esbanjador viciado em jogos (Cauã Reymond) e um executivo bem sucedido residente na Itália (Rodrigo Santoro), mas não se assuste com o elenco global, todos em boas atuações. Sem melodramas, o filme é introspectivo, repleto de sutilezas e fragmentos, europeu no melhor sentido que este adjetivo pode ter.

TOMBOY (França, 2011)
Direção: Céline Sciamma

Sem bandeiras ou estereótipos, a descoberta da sexualidade é vista através de Laura (Zoé Héran, perfeita), que aos dez anos é confundida com um menino pela nova vizinhança e decide assumir essa identidade. Nesses tempos, em que a homofobia é constantemente discutida, este é um bom exemplar que consegue abordar um tema tão difícil com delicadeza e sem excessos, principalmente com o apoio do ótimo elenco infantil.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

OS OLHOS DA RUA

Gosto bastante de fotografia, muito mais de fotografar do que ser fotografado (nas fotos da festa da empresa ou do aniversário de um amigo, dificilmente estarei em alguma, embora eu esteja em todas). Gosto, principalmente, quando consigo fotografar aquilo que os meus olhos veem, e não o que apenas parece com o que vejo. Com tantos, e variados, dispositivos moveis a disposição do usuário, a fotografia tornou-se algo absolutamente comum nos nossos dias – algumas vezes, quase banal. Organizando meus arquivos digitais dos últimos anos, selecionei três momentos da minha cidade natal, Santo Amaro da Purificação, sem folclores ou caetanices:
RIO SUBAÉ, SANTO AMARO, 2007
ONDE MORA MINHA INFÂNCIA, 2005



A SOLIDÃO DAS ANTENAS DE TV, 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

FOGO AMIGO

Os ausentes servem de alvo fácil para qualquer tipo de comentário — não há escrúpulos. Ontem, não pude ir. Temo, também, ter sido alvo de munição pesada.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

HAROLDO

Eu tinha um tigre de sorriso triste que me acompanhava por todo lugar.
Um dia, ele foi morar numa caixa, em cima do armário. No entanto, não estava mais lá quando nos mudamos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

VOMIT (GIRLS)

        Em noites cada vez mais melancólicas, uma companhia constante tem sido a balada épica “Vomit”, da banda californiana GIRLS (o título pode afastar um pouco, mas em nenhum momento a  palavra “vômito” aparece na canção). Inconscientemente, sussurro versos como “Lookin' for love” ou “Come in to my heart” durante o dia, às vezes feito um mantra. Costumo escutar seguidamente os seis minutos e meio da sua versão de estúdio, no entanto a performance ao vivo é quase uma catarse na minha alma. Para assistir até ao final, e no repeat.

terça-feira, 1 de maio de 2012

SÓ POR HOJE

         Vi 350 filmes no último ano.
      Mas não se enganem com a afirmativa, não estou me gabando, contando vantagem, tripudiando sobre quem sequer recorda quando foi a última vez que assistiu a um filme, longe disso. Quando me deparei com o número, fiquei com a sensação de que não tive vida social em 2011, embora tenha gastado cerca de setecentos reais apenas com idas ao cinema (conforme minha heterogênea coleção de canhotos).
        Agora, estou tentando não ver tantos filmes, embora eu admita que seja muito difícil, já que se tornou algo maior do que mero hábito, se aproximando do que pode ser considerado um vício. Se não vejo um filme, ao final do dia tenho a impressão de que está faltando alguma coisa – e realmente está.
       Acho que não seria nenhum exagero se existisse alguma associação especializada em dependentes da sétima arte.
       Até o momento foram 122 dias e 72 filmes, média bem inferior ao que estou acostumado. Comecei o ano com um Hitchcock, para manter a tradição,  passei por um Polanski, um Clouzout, alguns indicados ao Oscar, ao Globo de Ouro (para alimentar a conversa do bar), nada demais. Sei que falta um Fellini, um Bergman, um Kurosawa, mas esses serão encontros inevitáveis.
        Só por hoje, não verei nenhum filme. Amanhã, não sei.


 ***



Peter Griffin, de “Family Guy”, vai ao cinema na expectativa de que algum personagem pronuncie, em algum momento, o nome do filme dentro do filme. Não tenho a mesma expectativa, mas não deixo de achar engraçado quando encontro a imagem que adorna o cartaz em uma cena. 


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