terça-feira, 5 de abril de 2022

TODOS OS MEUS MORTOS: SOCIAL DISTANCIAMENTO XVI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Março, 2022)

Não costumo perguntar por alguém que não vejo há tempos. Sei que é bem mais que uma regra de etiqueta, é um gesto cortês, empático, delicado até; porém, não consigo. Tenho receio de ouvir em troca um “você não soube?” – “você não soube?”, para mim, é o preâmbulo da tragédia. Há quem possa, com todo direito, contra-argumentar que se trata de uma mera questão retórica, uma muleta linguística, que o meu receio, além de paranóico, é banal. “Você não soube?” pode servir para anunciar uma notícia boa, algo como ele recebeu uma proposta de emprego em outra cidade e precisou se mudar, tipo de informação que eu saberia se fosse mais assíduo e curioso em redes sociais, mas continuo achando melhor não arriscar. Por outro lado, “Você não soube?” pode servir, também, para anunciar uma notícia que não saberia interpretar de supetão se é boa ou ruim, algo como “separamos” – o que me deixaria confuso, sem saber se lamento ou felicito. Não me importo que me acusem de deselegante, mal educado, que falem “encontrei Herculano e nem perguntou por você'. Amigo, acredite que eu pensei, ensaiei, esbocei, quase perguntei, no entanto desisti no último momento apenas para não escutar um “você não soube?” e aguardar apreensivamente, durante infinitos milésimos de segundo, por uma resposta que me aliviaria ou me afundaria ainda mais na calçada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Acho que faz parte do imaginário de boa parte dos fãs de classic rock ter presenciado o Festival de Woodstock e inalado aqueles dias de flower-power – fascínio absolutamente justificável. No entanto, naquele mesmo verão de 1969, em Nova York, cerca de trezentas mil pessoas acompanharam outro evento. Sem tanta popularidade e praticamente esquecido da história por décadas, o Harlem Cultural Festival, brilhantemente documentado no filme Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada), muito mais politizado que seu colega afamado, trazia um line-up formado por artistas negros se apresentando para um público majoritariamente negro. Com uma programação que reunia Stevie Wonder, B.B. King, Nina Simone, Mahalia Jackson, Chambers Brothers, Sly & the Family Stone, Chuck Jackson, The 5th Dimension, David Ruffin, Hugh Masakela, Gladys Knight & the Pips, entre outros. Analisando agora, já não sei dizer em qual dos festivais gostaria de ter participado. 


sábado, 26 de março de 2022

CONTÉM SPOILER XV

Aquele filme que eu te falei

 

Temporada do Oscar era época de maratonar os principais títulos, fazer bolão, divulgar palpites com os que “eu acho” e os que “eu gostaria”, realizar apostas com os amigos, contestar os indicados como se fossem os convocados da seleção era quase uma Copa do Mundo. Gradativamente, tenho dado cada vez menos atenção, talvez por entender melhor os meandros da indústria cinematográfica e os seus mecanismos fui me tornando menos ingênuo e, consequentemente, menos interessado (um tanto indiferente). Amanhã haverá uma nova premiação. Deixarei para avaliar os incensados, os injustiçados e as surpresas no dia seguinte, apenas para confirmar que teria fracassado em mais um bolão.

domingo, 20 de março de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Fevereiro, 2022)

Estou aqui há vinte anos, criei o primeiro blog em 2002 no portal da IG; em 2004 migrei para o UOL e o seu zip.net, onde tive também um fotolog – espécie de antepassado do Instagram; e desde 2008  estou no Blogger. Essa cronologia não serve para muita coisa, apenas para confirmar que o tempo voa, amor, escorre pelas mãos. Portanto, não estranho quem classifica o blog como vintage, retrô ou divã de boomer (ainda dizem “cringe”?) nem fantasio que em algum momento ocorrerá fenômeno semelhante ao do vinil – não mesmo (embora eu acredite que esteja mais para cool do que kitsch, ao contrário do Feicebuque que tem envelhecido muito mal). Já é possível, inclusive, tecer comentários saudosistas rememorando uma época em que havia blogs destinados aos mais diversos assuntos, informativos e com bastante interação e repercussão, porém sem o ranço bélico das redes sociais. Agora isso aqui não passa de um cemitério de jazigos abandonados esperando por esporádicas visitas. Às vezes me sinto solitário como Wall-E trafegando pelo ferro-velho.  


domingo, 13 de março de 2022

VIRADA DE PÁGINA XIII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Conheci Iznogoud através da animação (que transformava o califa em sultão na versão brasileira) exibida durante as manhãs em algum ponto nebuloso dos anos de 1990. Iznogoud era um grão-vizir que tentava de todas as maneiras usurpar o trono, uma espécie de golpista sonhando com impeachment. Criado em 1962 pelos franceses René Goscinny e Jean Tabary, não teve muitas obras publicadas no Brasil. Escrevi sobre o personagem no inverno de 2009 AQUI, na época, acreditara que havia alguns “iznogouds” no meu caminho, que tolice. Excesso de vaidade, mania de perseguição, deslumbramento, egoísmo… talvez um pouco de cada somada à minha imaturidade naqueles dias. Estupefato, hoje me pergunto como é que alguém poderia mirar a minha vida e dizer: eu quero ser sultão no lugar do sultão!

terça-feira, 8 de março de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

No começo dos anos de 1980, praticamente todos os lares de Santo Amaro possuíam uma cópia do LP “CAVALO DE PAU”, de Alceu Valença – pelo menos todas as casas que eu frequentava ou que minha memória da infância permite lembrar. Possivelmente estimulado pelos sucessos “Tropicana” e “Como dois Animais”. No entanto, a canção que me inquietava era a faixa título, com uma formação mais enxuta, apenas baixo/bateria/guitarra/piano, em um arranjo minimalista muito mais próximo do experimentalismo do rock do que dos ritmos regionais que caracterizavam o álbum, culminando em um Alceu, a plenos pulmões, vociferando sua letra. Era um som que, naquele contexto, causava inevitável estranheza. Curiosamente, seus versos só começaram a me trazer real significado após vários anos, depois que vim parar na capital. Quando, aos poucos, fui desconhecendo aquele menino do interior em mim e, irremediavelmente, deixando a minha inocência para trás – talvez o bem mais precioso que perdi na vida. Por mais que eu insistisse em procurá-la, esquecida na mala/em um canto dos olhos, sabia que jamais a reencontraria novamente. Minha inocência era como aquele cavalo de pau que se torna arisco, indomável, que me derruba, que me nega, determinando que agora era tempo de caminhar sozinho.

(Publicado originalmente em agosto de 2010)

 


 

quarta-feira, 2 de março de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XIV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Janeiro, 2022)

Ainda utilizar uma ferramenta paleolítica como o blogue, tão rudimentar quanto um livro, em pleno 2022, o primeiro ano do resto de nossas vidas, escrevendo o que quiser/ quando quiser/ para quem quiser ler, sem se desassossegar com engajamento/ monetização/ patrocinadores/ trending topics/ cancelamentos, em um mundo onde tudo precisa acontecer e deixar de existir em meros quinze segundos, é um oásis no caos, um alívio necessário. 


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIV

Aquele filme que eu te falei

Queria iniciar o texto qualificando as mães de Almodóvar, um adjetivo apenas, algo que pudesse sintetizar esse universo tão explorado pelo cineasta em sua obra (cativantes, exageradas, dramáticas, trágicas, passionais, divertidas, corajosas, fortes, inquietantes, arrebatadoras, coloridas), são muitas as possibilidades, mas nenhuma satisfatória. Um termo que convidasse o leitor a seguir naturalmente pela crônica até ao seu final, uma palavra que fosse retomada na conclusão criando uma espécie de efeito estético, cíclico – um truque barato e que ainda funciona. Mas não encontrei. Em “MADRES PARALELAS” ele nos apresenta a várias: desde a mãe que deixa a filha para cuidar da carreira como atriz às mães que criaram sozinhas os seus filhos após os maridos serem assassinados covardemente durante a guerra civil espanhola. E no meio de tudo isso uma Penélope Cruz, mais madura em seu ofício, alinhavando esse misto de melodrama (no melhor sentido) com manifesto político. Inteiras. Acho que encontrei a palavra que eu precisava.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XIII

Aquele filme que eu te falei

Não condeno quem decide não ter filhos, muito menos que isso seja um ato egoísta ou que vá contra algum mandamento divino. Na verdade, considero um posicionamento corajoso, nobre. Colocar uma criança, deliberadamente, nesse mundo está muito mais próximo da maldade do que do amor. Que se dane o que espera a sociedade e a família de um casal, roteirizando a vida a dois num final de novela das seis. Romantizar a maternidade/paternidade é um engano, como se procriar fosse trivial como brincar de casa de bonecas. O Google me informa que foi o escritor Coelho Neto quem disse que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, extremamente repetida e parodiada, costuma ser enfatizada nesse tal “paraíso”, morada celestial e inalcançável, com pouco destaque para o “padecer”. Em “A Filha Perdida” (The Lost Daughter, 2021), Leda, interpretada esplendidamente pela britânica Olivia Colman, ao ser questionada como foi ter abandonado as duas filhas pequenas, simplesmente revela: maravilhoso – em um misto de dor e alegria. Um conflito sincero e carente de julgamentos, em uma das melhores atuações dos últimos anos, seguramente. Por mais incômoda que possa parecer, sua resposta não poderia ser mais honesta.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA XII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Houve uma época em que eu costumava me designar como escritor, ao ser apresentado a  amigos de amigos ou ao preencher algum formulário, pouco importava, assim eu compreendia quem eu era – o que levava muitas pessoas a me inquirir sobre qual seria meu "trabalho de verdade", como se escrever não fosse profissão. Para a prosa não render, há algum tempo me identifico, meramente, como um reles barnabé. Por outro lado, quando esbarro com executivos, bancários, ratos de repartição ou workaholics em geral me atrevo a perguntar: e quem você realmente queria ser? A intenção não é ser desmancha-prazeres nem guru (des)motivacional de ninguém, de coach de autoajuda o planeta tá infestado, apenas confirmar que muitos músicos, pintores, estilistas, artesãos que por suposta segurança financeira ou pressão social vão adiando seus sonhos, deixando para “depois”, um “depois” que parece não ter data para acontecer. Contradizendo o Clube da Esquina, sonhos envelhecem. 

DUAS VIDAS, do francês Fabien Toulmé, parte de uma premissa aparentemente simples, um jovem advogado descobre ter câncer terminal e é impulsionado pelo irmão a aproveitar o que ainda lhe resta de vida fazendo o que sempre desejou e não teve coragem, uma jornada comovente que desembocará em um bem construído plot twist despertando reflexões que se prolongarão após o término da leitura. A HQ abre com uma célebre citação de Confúcio que diz que temos duas vidas, mas a segunda começa quando percebemos que só temos uma. Recordo de uma música de Raul e Cláudio Roberto e de repente me dou conta, com inevitável desalento, que posso ter me tornado o personagem daquela canção.

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Assim como a publicação com AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS, outra postagem que despertou a sanha dos haters de clickbait foi OS PIORES VERSOS DE RENATO RUSSO, como se eu fosse o seu maior desafeto no planeta (mais uma brincadeira mal interpretada). Durante a juventude fui até presidente de fã-clube da Legião Urbana em Santo Amaro, pesquisando e acumulando qualquer material que se referisse à banda. Sendo assim, imaginei que pela listagem das músicas selecionadas, que incluía licenças pueris como “Benzina” e “Submissa”, estivesse evidente que não seria algo para ser levado a sério – muito menos ameaçar a integridade física do autor (ai, que medo). Passados quase dez anos da postagem original, aqui estou para elencar os versos que considero dignos de uma leitura sem a presença da canção e (por que não?) serem chamados de poesia.

Leia no volume máximo!


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

TODOS OS MEUS MORTOS: SOCIAL DISTANCIAMENTO XIII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Dezembro, 2021)

De tudo que é pregado nas mais diversas crenças, o que mais me aterroriza é o conceito de vida eterna, para mim é angustiante a ideia de viver para sempre, como se eu fosse Mumm-Ra, o de vida eterna! Viver o agora já é um fardo difícil de suportar. Saber que não existe nada é o que me dá força para continuar caminhando. Acreditar que apenas a morte é eterna me consola, é a minha fé. Quando revelo que não possuo religião, algo que deveria ser visto com naturalidade, imediatamente me veem como a encarnação do anticristo na Terra, as pessoas se assustam e afirmam que isso não é possível, desdenham ou passam a tentar comprovar a importância de deus-krishna-oxalá-kardec-acaso para o indivíduo  que maçada. Já fui mais complacente, hoje não tenho muita tolerância com catequismos (talvez seja efeito colateral da idade), a fim de evitar deselegâncias sociais da minha parte, procuro evitar o tema. No entanto, para quem ainda insiste em não compreender, posso confessar, simplesmente, que um belo dia tive uma iluminação e desde então encontrei a paz.

Feliz Natal. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

CONTÉM SPOILER XII

Aquele filme que eu te falei 


Hoje é o Dia da Marmota. Hoje também é dia de festa no mar e dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do meu torrão natal, mas o Dia da Marmota é mais importante. Segundo a tradição de uma pequena cidade estadunidense, na manhã de dois de fevereiro as pessoas devem observar uma toca de marmota, caso ela saia com o tempo nublado indica que o inverno terminará cedo, porém se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e retornar para a toca, é sinal de que o inverno durará mais seis semanas. Esse evento célebre, para a  incredulidade de muitos, atrai milhares de turistas todos os anos. Em o FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog Day, 1993), Bill Murray é um repórter cínico e intolerante que anuncia as previsões meteorológicas em um canal de TV, que para sua contrariedade é encarregado de fazer uma matéria sobre o encabulado roedor. No entanto, ele desperta sempre no mesmo dia e é obrigado a experienciar tudo novamente até encontrar sua fabular redenção. Também queria acordar no mesmo dia e vivenciar minha existência igual de maneira diferente. Queria cometer outros erros, ter outras dúvidas e temores – ou como Humberto Gessinger, erraria tudo exatamente igual. No entanto, acho que estou cada vez mais parecido com a marmota, me assustando com a minha própria sombra e vivendo um inverno que parece não ter fim.
 
(Publicado originalmente em fevereiro de 2012) 
 


domingo, 30 de janeiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA XI

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Sabia da existência, porém nunca tinha dado a merecida atenção aos gibitúberes que fazem a leitura das HQs na Internet como voluntários em um grupo de apoio, para mim era absolutamente indiferente. No entanto, recentemente, tenho notado o crescente número de canais que prestam esse serviço essencial de acessibilidade. Substituir a leitura, a experiência entre o texto e arte, pela voz insípida de alguém lendo enquanto folheia as páginas é sensacional. É praticamente a atualização das rádios novelas que minha vó tanto apreciava. Por que cargas d’água ninguém pensara nisso antes? Com o preço abusivo das publicações praticado pelas editoras no Brasil como poderíamos participar do hype do momento se não fosse por esses abnegados caçadores de laiques? Sempre é bom lembrar que nem todo herói usa capa. Não tenho receio de afirmar que essa é a maior criação desde o scan em pdf, afinal por que baixar ilegalmente e ter o desconforto de ler se basta apertar o play? E em 2X. Acho que deixarei de ler quadrinhos também e quem sabe até me tornar um gibituber monetizado sorrindo numa thumb maneira.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

TODOS OS MEUS MORTOS: SOCIAL DISTANCIAMENTO XII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Outubro, 2021)

Caetano Veloso costuma dizer que não queria ter saído de Santo Amaro, é natural duvidar dele. Para quem é obrigado, pelas circunstâncias, a sair do interior sabe que essa frase é impregnada de verdades. Do mesmo modo eu não queria ter saído, mas todas as minhas tentativas de ficar deram n’água. História semelhante se repetiu com meus amigos, praticamente todos partiram também. Há os que conseguiram permanecer (ou não conseguiram sair). Acredito que ficar seja mais doloroso do que ir embora, caminhar pelas ruas em que morávamos, lugares em que nos encontrávamos, e saber que não estaremos ali, apenas lembranças como fantasmas tentando nos assombrar, não deve ser fácil. Minhas escolhas acabaram me levando para longe da cidade, gosto de imaginar que em uma realidade alternativa, onde fiz outras escolhas na vida, eu ainda more lá.



(Novembro, 2021)

Grupos de aplicativos de conversas não aproximam ninguém, neles eu sinto meus conhecidos cada vez mais estranhos, cada vez mais distantes. Quase todas as minhas amizades pertencem à minha infância/juventude, poucas pessoas, muito poucas realmente, conseguiram furar essa bolha. Algumas, inclusive, já começaram a morrer. Temo ter entrado em uma fase da existência que seja comum ir a funerais, uma fase feita mais de despedidas do que reencontros. 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO XI

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Outra questão banal comumente abordada é qual o seu beatle preferido (em um modo avançado de conversação a trivialidade pode avançar para qual seria o seu álbum preferido dos Beatles), minha resposta sempre foi George Harrison – não consigo recordar se algum dia foi os óculos do John ou o olhar do Paul –, me identificava com seu jeito mais retraído, sua elegância como músico, suas composições e vocais. Uma resposta provável também poderia ser o boa-praça Ringo Starr, mas esse eu deixo para Marge Simpson. Após assistir à série documental “The Beatles: Get Back” minha admiração por George apenas aumentou. É fascinante a genialidade obsessiva de McCartney buscando, e alcançando, resultados espetaculares – beira o surreal. E o que dizer da participação mágica (não, não encontrei outra palavra) do pianista Billy Preston? No entanto, a maneira como Harrison é tratado por seus companheiros de banda e a forma extrema que ele é obrigado a lidar com a situação somente reafirmou meu carinho por ele.

“I Me Mine”

***

Ah, e se o Quiz prosseguisse para qual único disco eu levaria para uma ilha deserta, certamente seria “All Things Must Pass” – a escolha de um vinil triplo seria trapacear?

 


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CONTÉM SPOILER XI

Aquele filme que eu te falei

 

Desde que vi “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty's Secret Service, 1969), George Lazenby se tornou minha usual resposta para a questão sobre qual seria meu James Bond preferido. Lazenby teve a incumbência de substituir Sean Connery e terminou protagonizando apenas um longa-metragem como o espião inglês. Não é incomum em matérias sobre 007 o seu nome sequer ser lembrado. Minha preferência tinha aparência de contrariar apenas para não ser igual, mas eu realmente gostava bastante do filme – ainda o meu favorito. Hoje eu sei que é cultuado por vários admiradores da série. O ator australiano incorporou um personagem que se aproximava da criação de Ian Fleming, um agente secreto em início de carreira, muitas vezes inseguro, passível de erros, mais humano e verossímil – uma versão bem diferente da deixada por seu antecessor. Em determinado momento ele chega a quebrar a quarta parede para nos dizer, ironicamente, que isso jamais aconteceria com o outro cara. A conclusão do filme é surpreendente e perturbadora, com sua amada sendo assassinada na estrada logo após se casarem, interrompendo abruptamente o que caminhava para um final feliz. Essa cena é aludida no mais recente título da franquia, “Sem Tempo Para Morrer” (No Time to Die, 2021), com o Bond de Daniel Craig dirigindo pela costa da Itália ao lado de Madeleine (Léa Seydoux), e com a belissíma “We Have All the Time in the World”, tema da obra de 1969, sendo referenciada no diálogo e em um arranjo instrumental no começo do filme – prenunciando, para os mais atentos, que esse romance também poderia não acabar bem. Nos créditos finais a canção retorna, dessa vez em sua versão original com a emocionante interpretação de Louis Armstrong, já debilitado devido a problemas renais e cardíacos. Não poderia haver melhor composição para simbolizar uma despedida.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

SOCIAL DISTANCIAMENTO XI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Julho, 2021)

Há coisas que implico de graça, idiossincrasias que fazem de mim esse velho casmurro sem par nem futuro. Já superei o “gratidão” no lugar do “obrigado”, apenas não utilizo. No entanto, creio que dificilmente poderei superar o “já deu tudo certo”, uma espécie de spoiler dos males momentâneos, uma frase mágica mais eficaz que Dipirona. É possível que essa implicância seja reflexo da minha ausência de religiosidade, não tenho certeza, mas não me diga isso.



(Agosto, 2021)

Há coisas que implico com algum custo, não comemorar aniversários e ainda assim ter que ser gentil com quem vem me parabenizar já faz parte do pacote que me aguarda anualmente, não contesto. Possuo sentenças padronizadas de agradecimento que distribuo no piloto automático. Recentemente deram para me felicitar com um tal de “feliz novo ciclo que se inicia”, com pequenas variações. Não sei bem o que isso significa, para essa frase ainda não tenho respostas prontas. Só sei que o mundo seria perfeito se a cada 365 dias fôssemos restaurados, reinicializados ou simplesmente atualizados e um novo ciclo realmente começasse.



(Setembro, 2021)

Há coisas que implico com muito custo, ser avaliado pelo número de seguidores nas redes sociais é uma delas. Vejo na programação das feiras literárias autores que são saudados por possuírem mais de um milhão de seguidores no Instagram, seguidores é a nova forma de medir um best-seller. Fenômeno semelhante ocorre nos programas de auditórios na TV (sim, eles ainda existem), quando uma atração é celebrada pelo número de visualizações no YouTube e não por discos vendidos (sim, eles também ainda existem). Já disse que sou um velho casmurro, algumas coisas me escapam, confesso; outras, deixo escapar. 


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

VIRADA DE PÁGINA X

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Em uma manhã, numa banca de jornais – um hábito cultivado desde a infância que infortunadamente se dissipou –, me deparei com uma revista do Homem-Aranha Superior em que o  corpo do herói era “habitado” por Otto Octavius, um dos seus maiores inimigos. Minha primeira reação foi maldizer contra quem escrevera aquele disparate, é possível também que eu tenha expressado aos ouvidos do jornaleiro um retórico “onde vamos parar”. Alguns anos adiante, mais maduro e menos adepto do “não li e não gostei”, quando as edições foram encadernadas e relançadas, resolvi dar uma chance para a tal série aracnídea – não oculto que o cupom promocional ajudou a tomar essa decisão. E não é que tive que dar o braço a torcer, quando, finalmente, entendi a definição do “superior” no título. Eu que já vinha descontente com o Aranha e o seu exagerado código moral, chegando ao ponto de não salvar o mundo (eu disse: NÃO SALVAR O MUNDO), como vimos na saga “Ilha das Aranhas”, por exemplo; encontrei na publicação tudo que esperávamos, e sabíamos, que Peter Parker poderia realizar. Na pele do seu nêmesis, Otto conseguiu um doutorado, criou uma empresa de tecnologia avançada, se tornou respeitado até mesmo pelo prefeito de NY, ninguém menos do que John Jonah Jameson. Em combate passou a ser mais objetivo, pra não dizer violento, com pouco tempo para piadinhas e fazendo uso prático dos seus avanços tecnológicos. Aprecio, inclusive, seu interesse amoroso, a jovem cientista Anna Maria Marconi, alguém diametralmente distante do estereótipo de supermodelo. Há quem, como eu naquela manhã, deteste essa fase do Cabeça de Teia, talvez falte apenas a boa vontade de dar uma chance ou uma oferta imperdível na Amazon.

sábado, 1 de janeiro de 2022

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO X

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Alguns clássicos do reggae, automaticamente, conseguem me transportar a um período específico da minha infância – uma época em que a vida, definitivamente, parecia ser mais simples. Não pretendo, novamente, soar nostálgico, não é esse o propósito, até porque hoje eu sei que a vida não era tão simples assim.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO X

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Maio, 2021)

Onde estiverem dois ou mais escritores reunidos fatalmente surgirá o questionamento/curiosidade/falta do que falar se você está escrevendo algo no momento. Mesmo que o projeto apenas habite a sua cabeça, ou gaveta, bastará revelar a ideia do título para surgirem teóricos que dissequem com maestria sua escolha. Conheço autores que são hábeis em cunhar títulos para os seus livros, existe toda uma lógica/ciência envolvida que vai desde a extensão e sonoridade até o uso de palavras a ser evitadas. Há outros que são especializados em arte da capa, alguns desses livros mereceriam um quadro na parede da sala de estar e não a poeira da biblioteca. Tem ainda os que conseguem os prefaciadores mais sagazes, que realizam a proeza do trabalho parecer mais interessante do que ele verdadeiramente é, além dos que dispõem das fotos mais bacanas na orelha do livro, como se fossem astros do rock dos anos 80 no encarte do vinil. Sei que o livro é um produto e que precisa ser vendido (não sou tão ingênuo, só um pouco chato), mas a máxima de não julgar um livro pela capa parece não valer para livros. 


(Junho, 2021)

O “fique em casa” da pandemia me possibilitou ler/reler muitos livros, acho que nunca li tanto. Quase caí, inocentemente, na tentação de postar em alguma rede social as leituras concluídas, mas logo lembrei daqueles que fazem gincana no Instagram contabilizando com soberba cada obra lida e rapidamente desisti. 


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

CONTÉM SPOILER X

Aquela lembrança que não emoldurei 

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante na Velha Bahia, quando era possível alugar filmes em lojas especializadas, conhecidas como videolocadoras, eu costumava admirar as capas das fitas nas estantes ou os posteres das produções nas vitrines no caminho para a escola. Nem sempre/quase nunca sobrava dinheiro para locação, além dos lançamentos serem disputadíssimos, com direito à fila de espera que se estendia por meses. Não pretendo soar saudosista (streaming é vida) apenas concluo que alguns hábitos não se perdem, muitas vezes se transformam. Percebi isso ao me dar conta que possuo um perfil no Instagram para catalogar os cartazes dos filmes que assisto (não, não vou postar o linque). As pessoas ficam ansiosas por trailer ou teaser, mas eu gosto mesmo é da imagem de divulgação. Sou aquele que comemora em silêncio quando a cena do poster surge na tela, bem mais do que quando o título da produção é proferido por algum personagem. Já tive as paredes do quarto, e com mais discrição as da sala, repletas de cartazes de filmes, ainda guardo alguns. Deve existir uma espécie de Oscar para os criadores dessas artes, poderia ser categoria na premiação principal. 


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

VIRADA DE PÁGINA IX

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Não é nenhum segredo que eu não gosto de aniversários, principalmente o meu – já odiei, hoje apenas respondo que não gosto em uma indisfarçável indiferença e ânsia de mudar o rumo da prosa. Por isso nem consigo dimensionar o que viveu Lourenço Mutarelli em 1988 ao ser vítima de um falso sequestro, que incluía uma arma na cabeça, ofensas e ameaças diversas, mas que na verdade se tratava de uma festa surpresa. Meus parabéns para o mentor intelectual dessa idéia. Esse evento desencadeou uma crise depressiva crônica no autor, que só começou a superar o trauma alguns anos depois através dos quadrinhos. O primeiro álbum dessa fase, intitulado “Transubstanciação”, provavelmente seja o que mais dialoga comigo. Nele um poeta angustiado busca a liberdade através da morte, certamente não é o tipo de pessoa que comemore aniversários.


segunda-feira, 8 de novembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO IX

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Abril, 2021)

Há mais de cinco anos eu não atualizava meu blogue, apenas as esporádicas notificações de comentários em postagens antigas me faziam lembrar que ele ainda existia. No entanto, entendi que durante o isolamento social ele poderia ser uma boa companhia, mais seguro que jantarzinho nos apartamentos dos amigos, mais barato que terapia e menos constrangedor que chamada de vídeo em grupo de WhatsApp: simplesmente eu perdido nos meus ingratos pensamentos. Inicialmente, priorizei somente quatro tópicos, como se fossem quatro blogues diferentes dentro da mesma plataforma, abordando aquilo com o que mais tenho me relacionado nos últimos meses: cinema, quadrinhos e música, além de relatos diversos em forma de diário, retomando uma espécie de intensão dos blogues em sua gênese. Com os respectivos títulos de CONTÉM SPOILER, VIRADA DE PÁGINA, NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO e SOCIAL DISTANCIMENTO vou publicando descompromissadamente, redigindo poucos minutos antes de postar, sem muito apuro ou pesquisa, a buscar uma espontaneidade esquecida no tempo, diferenciando os itens unicamente por algarismos romanos. Se me perguntarem, não sei se vou continuar quando a vida retomar sua antiga normalidade. Nem sei se quero retomar essa antiga normalidade. Acho que o distanciamento social até que me cai bem.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO IX

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Às vezes eu tenho a impressão que Caetano Veloso não possui fãs. Digo fãs dedicados mesmo, desses que colecionam bootlegs, conhecem particularidades da discografia e adoram lados Z. Uns chatos como Raul Seixas, Bob Dylan, e agora Belchior, têm. Não que isso faça alguma diferença, mas basta observar a exaltação do público em suas apresentações ao reconhecer músicas consagradas e dispersar quando executada alguma que fuja do pra-você-e-eu-e-todo-mundo-cantar-junto – sendo o ponto alto “Sozinho”, seu maior êxito comercial, emblematicamente uma música que não é da sua lavra – para constatar que alguma coisa está fora da ordem. Ainda assim ele continua produzindo uma obra consistente, sem amargar dessabores ou gravações que o desabone, angariando depreciações (“o vovô ta nervoso, o vovô”) por motivos que escapam do campo da arte. Seu último trabalho, “Meu Coco”, talvez seja seu mais bem-acabado conjunto de canções copiladas num álbum em muitos anos, o tempo deve alojá-lo, facilmente, em um top 5 de melhores discos do artista – se o denso algoritmo permitir. 

 


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