Encostei meu vestido turquesa no disputado balcão de um bar no Rio Vermelho e consegui, sem muito esforço, que me servissem um daikiri. Foi quando me apresentaram à Capitu - bastante extrovertida e popular, ela era cumprimentada por todos que chegavam. Capitu quis estender a conversa além das formalidades de praxe, principalmente quando alguém disse que eu tocava bandolim num grupo de choro – fiz questão de corrigir, falar que isso fazia parte do meu passado, porém ela preferiu não escutar. Capitu gostou do meu nome, associou ao de uma cantora da Jovem Guarda que uma tia adorava, em troca evitei esboçar qualquer comentário sobre o seu, sabia que não soaria nada original (mas me contive quando descobri que ela morava no Barbalho e por pouco não cantarolei o primeiro verso do clássico “Tradição”, de Gilberto Gil). Acho que ela trabalhava com decoração de interiores, ou alguma coisa assim, e às quartas-feiras “arranhava no baixo” em uma daquelas bandas formada somente por garotas. Prometi ficar até ao final da sua apresentação, “para conversarmos melhor”, mas fui embora logo depois que elas começaram com toda aquela distorção gratuita. Com o drinque na mão, deixei que ela me visse saindo, durante uma versão hardcore para um sucesso da Madonna.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
domingo, 17 de julho de 2011
(...)
Pablo se irritava ao ser chamado de garçom, tecnicamente ele possuía outra função, algo afrancesado, ainda assim não compreendia como isso afetava seu ego. Apenas para chatear, nada mais, eu sacava um “garçom, por favor”, quando menos ele esperava, em troca eu recebia um simpático olhar de desprezo. Com o tempo ele parecia não se importar, mas fingia. Certa feita, Pablo quis saber o que eu tanto anotava: são meus riscos, respondi. Não satisfeito ou curioso, ele passou a recolher todos os meus tolos versos que ganhavam a lixeira – exercícios poéticos, no máximo. No entanto, só descobri essa coleta muito depois, na mesma época em que ele começou a implicar com os meus cigarros.
sábado, 16 de julho de 2011
(...)
Deixei de realizar minhas visitas ao asilo há mais de um mês, recebo algumas ligações da diretoria, mas não atendo. Não sei por que eles insistem, ele nunca sabia quem eu era mesmo - éramos apenas estranhos. Engraçado é que eu também passei a ter cada vez menos recordações, e o pouco que recordo parece que não me pertence, é como se fosse um filme que vi há muito tempo, algo que me contaram. São trechos desconexos, esmaecidos, lembranças em Super-8. Confesso que já não tinha paciência para todo aquele teatro, para brincar de recomeçar a cada encontro: antes era dolorido; agora, indiferente.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
(...)
Ultimamente, minha vida se resume aos bares que percorro pela noite e as tardes que passo no Café Terrasse – aprecio, principalmente, suas mesas de madeira, ainda vazias, ao entardecer. Não tenho todo tempo do mundo, como cantou uma alma inquieta, mas possuo mais tempo livre do que deveria. Costumo pedir sempre o mesmo expresso com canela, que deixo descansar enquanto molho meus lábios com água com gás ou tento misturar sua fumaça com a fumaça do meu Charm, mas elas fazem questão de se manterem heterogêneas, numa luta, numa dança. Antes que outras pessoas contaminem o ambiente, rabisco alguns poemas que geralmente vão parar no lixo. Procuro evitar verbos auxiliares, adjetivos, estrofes, títulos e letras maiúsculas, mais por implicância do que por estilo. Procuro evitar, também, amores que durem mais de uma estação, porém dificilmente consigo.
domingo, 10 de julho de 2011
domingo, 3 de julho de 2011
POEMA INÉDITO IV
sei dos meus cinismos
dos meus silêncios
dos meus enganos
sou tão leve quanto o inferno
pesado feito um anjo
Herculano Neto
sexta-feira, 1 de julho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
SAÚDE
Estou sempre espirrando. Não sei se é rinite alérgica ou qualquer outro modismo médico, só sei que estou sempre espirrando. São espirros estridentes, secos e sequenciais, geralmente entre oito e dez, que incomodam todos ao meu redor. Ultimamente, com a propagação de informações sobre surtos de gripes e viroses, espirrar em público tornou-se constrangedor. Já tentei todos os tratamentos existentes, máscaras, homeopatia, infusões, antialérgicos, nebulização e terapias: sem sucesso.
No último verão, uma curandeira da Chapada Diamantina me receitou uma mistura de ervas que, incrivelmente, fez cessar os espirros. No entanto, parecia que faltava algo em mim. Depois de dois dias parei de usar e voltei aos espirros.
No último verão, uma curandeira da Chapada Diamantina me receitou uma mistura de ervas que, incrivelmente, fez cessar os espirros. No entanto, parecia que faltava algo em mim. Depois de dois dias parei de usar e voltei aos espirros.
Espirrar, admito, é um prazer.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O DIA DOS NAMORADOS DE EDUARDO E MÔNICA
![]() |
| Cindy e Dean |
In Memoriam de Bartô,
o surdo-mudo mais falastrão que já conheci
O “Dia dos Namorados” é habilmente aproveitado, e manipulado, pelo mercado (como qualquer outro “dia de...”). Nenhuma novidade. Mas o que agora chamou minha atenção foi a equivocada estratégia de colocar “Blue Valentine” para representar os namorados nas salas dos cinemas em junho, talvez na falta de uma comédia romântica os distribuidores acreditaram que este “Namorados Para Sempre” (título que o filme recebeu por aqui) seria suficiente. No entanto, “para sempre” é tudo que não veremos.
“Blue Valentine” acompanha os últimos momentos do casamento de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams, que foi indicada ao Oscar de melhor atriz), um pintor de paredes sem emprego fixo e uma enfermeira que dividem a casa simples com a filha de seis anos e um cachorro. Quando o filme começa, nos deparamos com o casal quase no término do relacionamento, são raras as conversas, os poucos gestos de carinho são evitados por ela – que não sabemos, apenas imaginamos, os motivos. O premiado roteiro transita entre o início e o fim da relação, nos privando de conhecer o que aconteceu durante. Os flashbacks não revelam muito, e surgem aleatoriamente. A entrega dos atores permite bons improvisos, como na sequencia em que Ryan canta para Michelle dançar (ela sem saber que música escutaria e ele sem saber que ela realmente sabia sapatear). “Blue Valentine” é o título de uma canção, e de um disco, de Tom Waits, que narra a trajetória de um casal que se apaixona e se desapaixona. O filme é sobre isso. Não é, como nos acostumamos a ver, a descoberta do amor. É o final, ou a aceitação do final. Pode ser um programa depressivo, e reflexivo, para se fazer a dois, mas valerá a pena se a intenção for apreciar um filme sobre pessoas normais e dramas normais.
(Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica).
Acredito que nesse momento todo mundo já viu (ou já ouviu falar sobre) a campanha do dia dos namorados de uma empresa de telefonia móvel que transporta a canção de Renato Russo para os dias atuais, um mundo onde ninguém pode viver sem telefone celular. Nunca simpatizei muito com música com “historinha”, típica dos anos 80, e “Eduardo e Mônica” menos ainda, soava classe média demais para minha realidade, algo que se confirma ainda mais agora.
Eu tinha um amigo surdo-mudo que adorava Legião Urbana, gostava dos encartes dos LP's, gostava das letras das canções, mesmo sem nunca ter podido escutar a voz de Renato Russo. Ele não suportava ser tratado com piedade, além de ser genialmente irônico e mordaz, e odiava videoclipes (e ainda há quem diga que videoclipe é música para surdos). Certamente, ele também detestaria essa campanha. Quando alguém diz que não entendeu uma canção, provavelmente esperando que eu a explique, digo: veja o clipe.
Dean e Cindy não são Eduardo e Mônica, mas nada impede que os Eduardos e as Mônicas da vida real um dia se tornem “Blue Valentine”, num mundo onde as pessoas ainda podem viver sem telefone celular.
sábado, 4 de junho de 2011
PLÁSTICO BOLHA
Leio várias revistas todo mês, mas não sou assinante de nenhuma. Prefiro comprá-las na banca, gosto da expectativa, da surpresa, de perguntar ao jornaleiro se já chegou, de conferir as novidades juntamente com as manchetes da manhã.
A única vez que assinei uma revista, a finada SET, cancelei a assinatura com menos de um ano, não havia prazer nenhum naquela “praticidade”.
Penso de maneira parecida em relação à compra pela internet. Cultivo, ainda, o hábito de frequentar lojas físicas, mas nesse caso a concorrência é desleal: o mercado virtual tem melhores preços, produtos, variedades, raridades. Fui obrigado a me render. No entanto, quando minha compra chega, antes mesmo de conferir se tudo está em perfeito estado e conforme solicitei, passo a estourar o plástico bolha que envolve a mercadoria.
A única vez que assinei uma revista, a finada SET, cancelei a assinatura com menos de um ano, não havia prazer nenhum naquela “praticidade”.
Penso de maneira parecida em relação à compra pela internet. Cultivo, ainda, o hábito de frequentar lojas físicas, mas nesse caso a concorrência é desleal: o mercado virtual tem melhores preços, produtos, variedades, raridades. Fui obrigado a me render. No entanto, quando minha compra chega, antes mesmo de conferir se tudo está em perfeito estado e conforme solicitei, passo a estourar o plástico bolha que envolve a mercadoria.
Muitos se irritam com aqueles estalos, mas para mim eles têm uma função tranquilizante. São quase melódicos.
Faço isso desde criança, depois que chegou a velha geladeira. Fazia pausas entre um espocar e outro, estourava dois seguidos, três, eram minhas canções.
Faço isso desde criança, depois que chegou a velha geladeira. Fazia pausas entre um espocar e outro, estourava dois seguidos, três, eram minhas canções.
Sei que estilistas já utilizam as bolhinhas de ar em suas criações, que celebridades exibem por aí seus biquínis, seus vestidos. Sei, também, que há calendários e outros souvenires e que existem chaveiros que reproduzem infinitamente o “plec, plec”, mas não dá pra comparar com a ansiosa busca pela bolha que restou intacta.
Alguns hábitos não se perdem.
Alguns hábitos não se perdem.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
A MORENA DE MARCELO CAMELO
(...)
No trabalho de estreia do compositor Marcelo Camelo, com a banda Los Hermanos em 1999, o termo que amiúde norteava suas composições era um indefinido “outro alguém”, mesmo já sinalizando nesse primeiro momento um namoro com o cancioneiro nacional mais antigo, fosse na forma poética de canções como AZEDUME (sei que um dia a rosa da amargura/ fenecerá em razão de um sorriso teu) ou nos arlequins e colombinas de PIERROT. Depois, num rápido e surpreendente amadurecimento musical, um diálogo que aparentava adquirir força se insinuou com a gíria “cara”, que foi “valente”, foi “estranho”, foi tranquilo (de onde vem a calma/ daquele cara?) mas que logo se desanuviou. No entanto, foi a “moça” de ALÉM DO QUE SE VÊ que saltou aos ouvidos em seu terceiro e mais representativo trabalho, VENTURA, em 2003. O uso da palavra “moça”, ainda que carregue uma suposta ingenuidade, um bucolismo, em oposição à “morena”, que é muito mais lasciva, provocativa, e que poderia muito bem dar lugar a esta, não afetando significativamente a linha melódica ou o sentido da canção (Moça, olha só o que eu te escrevi), era algo muito diferente do que vinha sendo feito no machista mundo do rock até então. Não era uma garota, uma menina, uma “gata” ou uma mulher, era simplesmente uma “moça”, que soava inusitado e, ao mesmo tempo, natural - mais tarde, essa “moça” reapareceria nas faixas TUDO PASSA e MENINA BORDADA, do seu début solo (SOU/ NÓS), em 2008.
Apenas no quarto e derradeiro disco da banda, em 2005, a “morena” surgiria realmente, não faceira como outrora, mas melancólica, introspectiva, decorativa.
É possível que a “morena” que habita o imaginário de Marcelo Camelo não seja assim tão folclórica, tão arraigada de simbolismos. É possível que a sua “morena” vá além da cor da pele, que não seja como as cabrochas das canções do Luiz Gonzaga, que seja uma companheira silente, que nem saiba sambar, que nem seja morena (...)
No trabalho de estreia do compositor Marcelo Camelo, com a banda Los Hermanos em 1999, o termo que amiúde norteava suas composições era um indefinido “outro alguém”, mesmo já sinalizando nesse primeiro momento um namoro com o cancioneiro nacional mais antigo, fosse na forma poética de canções como AZEDUME (sei que um dia a rosa da amargura/ fenecerá em razão de um sorriso teu) ou nos arlequins e colombinas de PIERROT. Depois, num rápido e surpreendente amadurecimento musical, um diálogo que aparentava adquirir força se insinuou com a gíria “cara”, que foi “valente”, foi “estranho”, foi tranquilo (de onde vem a calma/ daquele cara?) mas que logo se desanuviou. No entanto, foi a “moça” de ALÉM DO QUE SE VÊ que saltou aos ouvidos em seu terceiro e mais representativo trabalho, VENTURA, em 2003. O uso da palavra “moça”, ainda que carregue uma suposta ingenuidade, um bucolismo, em oposição à “morena”, que é muito mais lasciva, provocativa, e que poderia muito bem dar lugar a esta, não afetando significativamente a linha melódica ou o sentido da canção (Moça, olha só o que eu te escrevi), era algo muito diferente do que vinha sendo feito no machista mundo do rock até então. Não era uma garota, uma menina, uma “gata” ou uma mulher, era simplesmente uma “moça”, que soava inusitado e, ao mesmo tempo, natural - mais tarde, essa “moça” reapareceria nas faixas TUDO PASSA e MENINA BORDADA, do seu début solo (SOU/ NÓS), em 2008.
Apenas no quarto e derradeiro disco da banda, em 2005, a “morena” surgiria realmente, não faceira como outrora, mas melancólica, introspectiva, decorativa.
É possível que a “morena” que habita o imaginário de Marcelo Camelo não seja assim tão folclórica, tão arraigada de simbolismos. É possível que a sua “morena” vá além da cor da pele, que não seja como as cabrochas das canções do Luiz Gonzaga, que seja uma companheira silente, que nem saiba sambar, que nem seja morena (...)
sexta-feira, 20 de maio de 2011
32 DENTES
Não confio em quem posta “!!!Bom Dia!!!” no Twitter ainda se espreguiçando, quem diz “bom dia” para a Ana Maria Braga ou quem retribui o “boa noite” do William Bonner, mas é incapaz de ser gentil com aqueles que fazem parte do seu cotidiano.
Não confio em quem não se atrasa, em quem não pede desculpas, em quem não se arrepende de nada. Não confio em quem não dá o braço a torcer.
Não confio em quem diz “adeus” e telefona no dia seguinte.
Não confio em quem diz que adorou a biografia do Lobão, mas nunca escutou os seus discos; em quem diz que está lendo a biografia do Keith Richards, mas prefere os Beatles aos Rolling Stones. Não confio em quem lê biografias.
Não confio em promessas de amor, promessas de governantes, em juras que começam com “nunca mais”. Não confio em quem “ama” e “adora” tudo e todos. Não confio em quem diz “odeio”, em quem diz “jamais”. Não confio em quem sofre calado, em quem diz que diz o pensa.
Não confio em críticos de arte, em “campeões de bilheteria”, “campeões de audiência”, nos campeões do UFC. Não confio em comentaristas nem em dirigentes de futebol.
Não confio em placas que sinalizam “proibido”, em previsões do tempo, em conselhos moralistas.
Não confio em “amigos” de pessoas influentes , em oportunistas, em conquistadores baratos. Não confio em quem está sempre disposto a ajudar.
Não confio em taxistas que perguntam qual caminho eu prefiro, em sindicatos, no bom mocismo do Bono Vox.
Não confio em torcidas organizadas, em organizações não governamentais. Não confio nos Estados Unidos da América.
Não confio em ninguém com mais de trinta anos, não confio em ninguém com mais de trinta cruzeiros, não confio em ninguém com trinta e dois dentes.
Desconfio de mim quando me pego fazendo algo que normalmente não faria.
Não confio em quem desconfia de tudo.
Não confio em quem não se atrasa, em quem não pede desculpas, em quem não se arrepende de nada. Não confio em quem não dá o braço a torcer.
Não confio em quem diz “adeus” e telefona no dia seguinte.
Não confio em quem diz que adorou a biografia do Lobão, mas nunca escutou os seus discos; em quem diz que está lendo a biografia do Keith Richards, mas prefere os Beatles aos Rolling Stones. Não confio em quem lê biografias.
Não confio em promessas de amor, promessas de governantes, em juras que começam com “nunca mais”. Não confio em quem “ama” e “adora” tudo e todos. Não confio em quem diz “odeio”, em quem diz “jamais”. Não confio em quem sofre calado, em quem diz que diz o pensa.
Não confio em críticos de arte, em “campeões de bilheteria”, “campeões de audiência”, nos campeões do UFC. Não confio em comentaristas nem em dirigentes de futebol.
Não confio em placas que sinalizam “proibido”, em previsões do tempo, em conselhos moralistas.
Não confio em “amigos” de pessoas influentes , em oportunistas, em conquistadores baratos. Não confio em quem está sempre disposto a ajudar.
Não confio em taxistas que perguntam qual caminho eu prefiro, em sindicatos, no bom mocismo do Bono Vox.
Não confio em torcidas organizadas, em organizações não governamentais. Não confio nos Estados Unidos da América.
Não confio em ninguém com mais de trinta anos, não confio em ninguém com mais de trinta cruzeiros, não confio em ninguém com trinta e dois dentes.
Desconfio de mim quando me pego fazendo algo que normalmente não faria.
Não confio em quem desconfia de tudo.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
QUINZE ANOS
Acho que demorei uma eternidade até completar quinze anos. Minha infância parecia não ter fim e lembranças dela não me faltam. Outras pessoas me dizem o contrário, para elas a infância foi curta como um sonho bom - talvez eu tenha vivido meus primeiros anos acordado ou simplesmente me permiti ser criança o máximo que podia. Ser adulto nunca me seduziu, para isso não tive pressa.Meu sobrinho mais velho completará quarta-feira quinze anos, dizer que “parece que foi ontem” não é um lugar-comum inevitável, melhor seria afirmar que “parece que foi há poucos anos”. A impressão que tenho é que o tempo que ele levou para completar quinze eu levei para completar cinco.
Na letra de “Quinze Anos (Vivendo e não Aprendendo)”, da banda paulistana IRA!, Edgard Scandurra fala sobre um homem “que se diz maduro”, “que se diz seguro”, mas quando “se apanha chorando” é como se ele voltasse a ter quinze anos, onde poderá recomeçar sorrindo. Quinze anos é o meio do caminho. Nem adulto nem criança. Certamente é quando nos sentimos mais fortes, mesmo sendo tão frágeis. É quando se abre em nossa frente um frenético leque de possibilidades, de caminhos, de escolhas, de novidades. Irônico é notarmos, muito depois, que poderíamos ter aproveitado melhor aquilo que já tínhamos aproveitado até ao final.
Apenas após ultrapassar os quinze anos, percebi como o tempo é voraz. Agora "envelheço na cidade".
segunda-feira, 2 de maio de 2011
NÃO SEI
Vira e mexe aparece alguém no meu caminho dizendo que sabe tudo, sabe de tudo, sabe sobre tudo (principalmente, concordâncias). Sabe desde variação cambial, ciclo das marés, obscuridades do rock europeu, o que vai passar na TV hoje à noite, passando pelo melhor lugar para comer em POA ou beber em BH.
Não simpatizo com quem diz saber tudo, me incomoda essa pose - saber tudo, para mim, é nada saber -, lembra informação de almanaque: rasa e desnecessária.
Simpatizo com quem tá por fora, quem não finge que conhece nem faz questão de conhecer, quem é ignorante em algum assunto, em vários assuntos.
Simpatizo com quem sabe muito sobre determinado tema, admiro essa fidelidade. Gosto de ligar para o Duda, por exemplo, e perguntar algo sobre a Geração Beat, acho mais bacana que pesquisar no Google – pesquisar no Google é chato pra cacete.
Quem sabe tudo já viu todos os filmes, já leu todos os livros. Quem acha que não sabe ainda tem muitos filmes para ver e muitos livros para ler.
Quem sabe tudo nunca tem dúvidas, nunca erra, nunca desconfia, nunca pede informação, nunca se perde. Quem pensa que sabe tudo é autossuficiente, se sente melhor que qualquer outra pessoa. Tem um troço mais chato? A incerteza é tão fascinante, tão humana. Se enganar, voltar atrás, trocar os pés pelas mãos, pegar a estrada errada para o litoral, assinalar a alternativa errada na prova, se apaixonar pela pessoa errada. Qual o problema?
Quem acredita que sabe tudo não se permite, se tranca no seu mundo. Quem acha que não sabe nada, ou acha não saber tudo que deveria, tem o mundo inteiro pela frente. Verdade? Não sei.
Não simpatizo com quem diz saber tudo, me incomoda essa pose - saber tudo, para mim, é nada saber -, lembra informação de almanaque: rasa e desnecessária.
Simpatizo com quem tá por fora, quem não finge que conhece nem faz questão de conhecer, quem é ignorante em algum assunto, em vários assuntos.
Simpatizo com quem sabe muito sobre determinado tema, admiro essa fidelidade. Gosto de ligar para o Duda, por exemplo, e perguntar algo sobre a Geração Beat, acho mais bacana que pesquisar no Google – pesquisar no Google é chato pra cacete.
Quem sabe tudo já viu todos os filmes, já leu todos os livros. Quem acha que não sabe ainda tem muitos filmes para ver e muitos livros para ler.
Quem sabe tudo nunca tem dúvidas, nunca erra, nunca desconfia, nunca pede informação, nunca se perde. Quem pensa que sabe tudo é autossuficiente, se sente melhor que qualquer outra pessoa. Tem um troço mais chato? A incerteza é tão fascinante, tão humana. Se enganar, voltar atrás, trocar os pés pelas mãos, pegar a estrada errada para o litoral, assinalar a alternativa errada na prova, se apaixonar pela pessoa errada. Qual o problema?
Quem acredita que sabe tudo não se permite, se tranca no seu mundo. Quem acha que não sabe nada, ou acha não saber tudo que deveria, tem o mundo inteiro pela frente. Verdade? Não sei.
terça-feira, 26 de abril de 2011
POEMA INÉDITO III
não
tenho medo de ser simples
tenho
medo de ser raso
de
ser vago
não
tenho medo do esquecimento
tenho
medo da lembrança feita de mágoa
da
saudade
não
tenho medo da rotina
da
crise de meia-idade
da
constância dos funerais
das
mesmas conversas
dos
mesmos amigos
do
verão
tenho
medo dos caminhos que não segui
das
escolhas que não fiz
dos
desencontros
Herculano Neto
quinta-feira, 21 de abril de 2011
ZÉ DO CAROÇO
Não preciso nem escrever nada,
a canção, e a sua autora, já explicam tudo.
LECI BRANDÃO, primeira mulher a entrar para a ala dos compositores da Mangueira, na capa do LP lançado em em 1985, onde apresenta, além de "Zé do Caroço", a faixa "Isso é Fundo de Quintal", de sua autoria em parceria com Zé Maurício, depois de ter ficado alguns anos sem gravar por ter brigado com sua antiga gravadora, Polygram.
E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
sábado, 16 de abril de 2011
SAUDADES DA VELHA GAL
Apesar de não ter vivido os anos sessenta e setenta, tenho saudades da velha Gal.
Apesar de surgir a cada ano um punhado de cantoras interessantes, ainda me interesso pela velha Gal.
Apesar de Caetano Veloso produzir, ao lado de Kassin e do filho Moreno, o tão aguardado novo disco de Gal, ainda considero novos os velhos LPs da velha Gal.
Apesar dela ser acompanhada no disco pela Banda Cê e pelo grupo experimental Rabotnik, ainda prefiro mesmo é a velha guitarra de Lanny Gordin.
Apesar de Caetano compor canções exclusivamente para ela, ainda prefiro suas velhas composições na voz da velha Gal.
Apesar da velha Gal parecer cada vez mais distante, ainda acredito que ela ressurgirá a qualquer momento. E eu não saberei mais o que é saudade.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
ANTIBIOGRAFIA
Gosto das minhas cicatrizes, de quem não me entende, de quem acha que me entende. Gosto do meu passado, até quando ele me condena. Gosto de quem me intimida, de descer do salto, de andar descalço, de saudar o inverno. Gosto dos mitos, dos boatos, dos rumores.
Quem me vê por fora nem imagina o quanto sou profundo. Quem me vê por dentro sequer desconfia o quanto sou raso. Gosto da dúvida, da contradição.
Eu não sou nada, eu não sou ninguém, essa constatação me permite ser tudo, ser todos. Sem máscaras, apenas sendo eu mesmo, em meu melhor papel.
Alguém me disse, recentemente, que o que mais o atrai no local onde mora são os carimbos, os rótulos. Os epítetos que se distribuem em qualquer cidade do interior e que são carregados com desvelado orgulho, algo como “Não Sei Quem do Bar da Esquina”, “Fulano, mecânico”, “Beltrano de Dona Zizinha”. Alguns, é verdade, nem tão lisonjeiros assim, mas omito os exemplos. Esse tipo de identificação nunca me seduziu, e se me orgulho é por ser, exatamente, inclassificável.
Gosto do silêncio das capitais, de ser mais um na multidão, mais um retalho na colcha.
Gosto dos versos que começam com “sou”, mas que pouco explicam – e na maioria das vezes confundem. Gosto das reticências...
sexta-feira, 8 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
NADA PESSOAL
O cinema é a minha igreja. Acho que por isso eu não frequente as salas de cinema dos shopping centers (onde muitas pessoas entram na fila para comprar o ingresso sem sequer saber o que está sendo exibido, onde vendem gigantescos combos de pipoca e refrigerante, onde tagarelam livremente, com seus cúmplices ou nos famigerados telefones celulares). O cinema é a minha igreja, e eu sou fiel e carola.
Cinema é um espaço público, mas alguém sentar ao seu lado e roubar sua atenção com conversas ou “namorando” ou roncando ou colocando os pés na cadeira ou mastigando é muito mais que deselegante. Sei que a venda de guloseimas é responsável por parte significativa dos lucros de um cinema, mas não consigo imaginar alguém comendo pipoca ao assistir BIUTIFUL, EM UM MUNDO MELHOR ou INCÊNDIOS, apenas para citar produções recentes e que foram indicadas ao Oscar de filme estrangeiro – ou o apetite iria embora ou a indigestão seria certa. Quero sempre acreditar no bom senso alheio, na sensibilidade e educação, sem ter que apelar para medidas radicais, como fazem algumas salas que não permitem o acesso às áreas de exibição portando alimentos de qualquer natureza. Mas nem sempre é possível.
Quem vai ao cinema no shopping center não gosta de cinema, gosta de shopping center. E eu odeio shopping center – embora, eu saiba, que há pessoas sérias que frequentam estes cinemas por falta de opção.
Cinema não é teatro (alguém já disse), mas deveria ser respeitado igualmente.
Com o constante fechamento das salas do circuito de arte nas grandes cidades, está cada vez mais complicado usufruir de uma boa sessão, sem inconvenientes. Não quero baixar meus lançamentos preferidos e me isolar em casa (como fazem alguns), quero apenas que haja espaço para todos.
Portanto, não se ofendam, nem me desejem mal, o casal apaixonado ou os garotos falastrões do Sartre Coc, que se sentaram ao meu lado no cinema e foram, gentilmente, convidados a se retirar. Nada pessoal.
Cinema é um espaço público, mas alguém sentar ao seu lado e roubar sua atenção com conversas ou “namorando” ou roncando ou colocando os pés na cadeira ou mastigando é muito mais que deselegante. Sei que a venda de guloseimas é responsável por parte significativa dos lucros de um cinema, mas não consigo imaginar alguém comendo pipoca ao assistir BIUTIFUL, EM UM MUNDO MELHOR ou INCÊNDIOS, apenas para citar produções recentes e que foram indicadas ao Oscar de filme estrangeiro – ou o apetite iria embora ou a indigestão seria certa. Quero sempre acreditar no bom senso alheio, na sensibilidade e educação, sem ter que apelar para medidas radicais, como fazem algumas salas que não permitem o acesso às áreas de exibição portando alimentos de qualquer natureza. Mas nem sempre é possível.
Quem vai ao cinema no shopping center não gosta de cinema, gosta de shopping center. E eu odeio shopping center – embora, eu saiba, que há pessoas sérias que frequentam estes cinemas por falta de opção.
Cinema não é teatro (alguém já disse), mas deveria ser respeitado igualmente.
Com o constante fechamento das salas do circuito de arte nas grandes cidades, está cada vez mais complicado usufruir de uma boa sessão, sem inconvenientes. Não quero baixar meus lançamentos preferidos e me isolar em casa (como fazem alguns), quero apenas que haja espaço para todos.
Portanto, não se ofendam, nem me desejem mal, o casal apaixonado ou os garotos falastrões do Sartre Coc, que se sentaram ao meu lado no cinema e foram, gentilmente, convidados a se retirar. Nada pessoal.
NADA PESSOAL II
Cinema é a bola da vez, definitivamente. Muitos têm pressa para emitir suas opiniões, mas pouco tempo para ver, realmente, bons filmes. Blogs voltados para as produções cinematográficas se proliferam em espantosa velocidade, parece que o cinema nunca esteve tão em voga ou nunca soou tão cool o adjetivo “cinéfilo”. Poderia até ser um fenômeno admirável, caso as obras analisadas não se restringissem, simplesmente, aos filmes em cartaz – como se fossem, esses novos críticos, redatores dos suplementos culturais dos jornais. Pior, ainda, é a superficialidade da abordagem da maioria desses blogs, quase uma extensão dos comentários infelizes que se ouve na saída do cinema.
Curiosamente, após fazer a leitura da resenha do mesmo filme em vários blogs diferentes, ficou evidente a repetição do tom, da forma, da percepção, como se todos tivessem entendido, e sentido, o filme de igual maneira. Impossível? Não seria se muitas frases utilizadas não fossem idênticas, com alguma inversão e troca de sinônimos aqui e ali, muitas vezes reproduzindo o conteúdo dos sites especializados – exclusivo, apenas, o criativo título da postagem (quando querem soar originais, as postagens se tornam sinopses estendidas recheadas de spoilers). Outra característica é a preferência pelas produções americanas, enquanto o bom cinema independente é solenemente desprezado, tal qual as produções latinas, asiáticas e europeias, sem mencionar os clássicos – provavelmente porque elas não são exibidas nas modernosas salas do shopping center. De quando em vez, o cinema nacional é lembrado, geralmente com algum exemplar do momento, um legítimo made in Globo Filmes. Nada tenho contra as produções dos EUA, sei que lá estão grandes profissionais, de toda parte do mundo, e os grandes investimentos, mas se esses blogueiros conhecessem, ao menos, diretores norte-americanos em atividade como Hal Hartley ou Todd Solondz... Sei, também, que há meia dúzia de cinco blogs interessantes do gênero, mas correm o risco de se perder no meio de tanta inutilidade.
Portanto, não se ofendam, nem me desejem mal, devoradores de pipoca anônimos, adoradores de blockbusters, hollywood-maníacos e hypes em geral. Nada pessoal.
segunda-feira, 28 de março de 2011
POEMA INÉDITO II
sem
bússolas
sem
mapas
sem
rotas
pouco
importa saber onde estou
o
meu dia é feito de encruzilhadas
de
tamburellos
de
labirintos
desvios
nenhum
acaso me guia
Herculano Neto
quarta-feira, 23 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
NÃO É DA SUA CONTA
“Como Vai Você?”, de Mário Marcos e Antônio Marcos, é uma canção que sempre me incomodou. Gravada desde os anos 70 por diversos artistas da música brasileira, de Roberto Carlos a Daniela Mercury, de Nelson Gonçalves a Cauby Peixoto, vem, frequentemente, embalando os mais diversos romances e fossas. Mas ao contrário do que aparenta, não se trata necessariamente de uma “canção de amor”: sua melodia adocicada é acompanhada por uma letra extremamente egocêntrica, onde a primeira pessoa conduz e é a razão de ser do discurso. A pergunta do título, seguidamente repetida, não demonstra preocupação no bem estar alheio, é apenas uma possessiva curiosidade, típica de quem não aceita o fim do relacionamento, num tom contraditório e autoritário, a exigir satisfações:
como vai você?
EU PRECISO saber da sua vida
EU PRECISO saber da sua vida
Sem ter satisfeito seu desejo individualista, o narrador apela para outras artimanhas, como sugerir um portador para a informação requerida:
peça a alguém PRA ME CONTAR sobre o seu dia
Anoiteceu, e EU PRECISO SÓ SABER
E ao acrescentar o advérbio “só” à frase EU PRECISO SABER, tenta esboçar alguma fragilidade, mas não convence:
Até quando resolve qualificar o outro, o uso do pronome possessivo é recorrente, não estranharia se eles tivessem escrito um verso como o melhor de você sou eu:
razão de MINHA PAZ já esquecida
que já modificou A MINHA VIDA
que já modificou A MINHA VIDA
É quase cômica a falsa dúvida levantada, praticamente uma declaração de amor:
nem sei se gosto MAIS DE MIM ou de você
Os argumentos para a reconciliação são ainda mais egoístas. Não há em nenhum momento interesse no conjunto. A felicidade do casal não existe, é tudo muito unilateral. Chego a imaginar que a musa da canção tenha sido uma boneca inflável:
Vem, que a sede de te amar ME FAZ MELHOR
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ
EU QUERO amanhecer ao seu redor
PRECISO TANTO ME FAZER FELIZ
“Como Vai Você?” não é uma canção para ser ouvida a dois, ela é opressora, mesquinha, masturbatória. Produto da vaidade de alguém que não sabe o que é amar, e nem o que é sofrer.
quinta-feira, 3 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
PORQUE NÃO POSSO SER AMIGO DO MÁGICO
Não posso ser amigo do mágico, conheço seus truques, suas cartas marcadas, seus textos ensaiados, seus aparatos, até suas novidades. Não posso ser amigo do mágico, minha presença na plateia não o alegra, apenas o constrange, incomoda. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não gosta de amigos, gosta de aplausos e da expressão de surpresa quase infantil. Não posso ser amigo do mágico, o mágico não me ludibria, não aguça minha curiosidade.
(Há muitos “mágicos”, em outras áreas, que dispensam minha amizade).
A vida é mágica, mágica é imprevisibilidade, mas o mágico é óbvio.
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