quinta-feira, 4 de junho de 2009

GARAPA (2009)


O diretor de “Tropa de Elite”, José Padilha, filmou durante um mês o cotidiano de três famílias de regiões distintas do Ceará que convivem com a fome regularmente. E é sob o ponto de vista delas que caminha o documentário “Garapa” (que é o nome da água com açúcar com que as mães tentam enganar a fome dos filhos). Não há nada em “Garapa” que eu já não conheça e tenha visto de perto. Não sou do sertão. Sou de um bairro pobre do Recôncavo Baiano, porém durante a infância a miséria sempre espreitou a minha casa com seus olhos ameaçadores e invadiu sem cerimônias as casas dos meus amigos e vizinhos; ainda assim, ao assistir ao filme, foi impossível manter a indiferença. A sensação de culpa e o desconforto são quase inevitáveis. Não é a piedade que permeia a experiência e não existe a lágrima fácil – a lágrima, quando veio, foi oriunda do ódio, da impotência e da conivência. Como ótimo documentarista, premiado em “Ônibus 174”, José Padilha preserva a distância, que foi quebrada apenas ao dar analgésico a uma criança que sofria com dores de dente. O filme não faz uso de música ou qualquer outro tipo de manipulação de sentimentos, o silêncio é perturbador e incomoda (a trilha sonora é a sinfonia das moscas). A renda familiar resume-se aos cinquenta reais do Bolsa Família, com exceção de uma jovem mãe de onze filhos que não possui nenhum tipo de documentação. Aliás, o filme é sobre mulheres. Os homens, na condição patriarcal de provedores do lar, são ociosos – o que se acha o mais esperto, por ter nascido na capital Fortaleza, é um alcoólatra odiado pela comunidade que encontra refúgio na ingenuidade da esposa, que é insultada constantemente e fecha os olhos para os desvios que ele faz do pouco que têm. Ao final da sessão você não sai com os olhos marejados, sai com a garganta seca.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

“AQUI TUDO PARECE QUE É AINDA CONSTRUÇÃO E JÁ É RUÍNA”


O Palacete Aramaré era a residência dos Viscondes de Aramaré em Santo Amaro da Purificação (BA). Construído pelo italiano Rafael Pillar Baggi, aliado à família Gonçalves Martins pelo casamento com D. Ana Joaquina Martins Baggi, a quem o imóvel foi adquirido em 1859 por 50 contos de réis pelos irmãos Antonio da Costa Pinto e Manuel Lopes da Costa Pinto, futuros Conde de Sergimirim e Visconde de Aramaré, respectivamente, a fim de instalarem suas famílias quando da visita do Imperador Dom Pedro II à Santo Amaro. Em março de 1864 o então ainda Barão de Sergimirim, por ter sua esposa herdado, conforme a tradição, outro sobrado na cidade, vendeu sua parte por 25 contos de réis ao irmão Manuel. O palacete é exemplo do estilo neoclássico no Recôncavo, com um sabor da arquitetura italiana em suas arcadas, sua platibanda e seu terraço lateral.
Todas as lembranças que possuo já são do abandono. A imponência fantasmagórica nas noites na Rua do Imperador após as aulas na Filarmônica Filhos de Apolo.
Na última semana o que ainda restava do palacete tombou, melancolicamente, num dia triste e chuvoso. A evidente falta de interesse das autoridades marcou mais um gol.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

CALVIN E HAROLDO

Ainda não havia percebido, mas já possuo mais revistas e livros em quadrinhos do que discos, filmes e livros em não-quadrinhos (e, acredite, estes tenho bastante). Dos que brigam por espaço na minha estante Calvin talvez seja o que mais consegue me entusiasmar hoje (criado pelo americano Bill Watterson em 1985 e publicado em mais de 2000 jornais pelo mundo, Calvin é um garoto de 6 anos com uma visão muito peculiar do mundo, sempre acompanhado do seu tigre de pelúcia Haroldo – que funciona como uma espécie de parte racional de sua própria personalidade. A última tira foi publicada em 1995 e seu autor não cedeu à pressão dos editores que insistiam em comercializar seu trabalho, algo que ele acreditava que “diminuiria” sua tira, recusando propostas para estampar suas criações em produtos e não permitindo que fosse feita uma versão em desenho animado). As tiras abaixo foram retiradas do livro FELINO SELVAGEM PSICOPATA HOMICIDA – VOLUME 2, uma das raras pechinchas que encontrei na IX Bienal do Livro da Bahia – sugestão direta do amigo/escritor Lima Trindade, outro apaixonado por quadrinhos juntamente com Victor Mascarenhas.

(CLIQUE NAS TIRAS PARA AUMENTAR.
NÃO É ANÚNCIO DE ACOMPANHANTE, MAS NÃO TERÁ DECEPÇÃO)

terça-feira, 12 de maio de 2009

CORRA LOLA, CORRA (1998)


O diretor e roteirista Tom Tykwer conseguiu produzir uma obra pulsante neste cult movie alemão que não cessa de ganhar admiradores. Há quem chame de videoclipe de luxo, mas CORRA LOLA, CORRA é bem mais que isso, e reduzi-lo a mero entretenimento pop é querer desmerecer suas qualidades. Partindo da simples premissa de que Lola, a ótima Franka Potente, tem apenas 20 minutos para salvar seu namorado, que esqueceu no metrô uma sacola com 100.000 marcos de uma quadrilha de contrabandistas, a ação passa a se desenvolver em três possibilidades, inclusive para todos que atravessam o caminho de Lola e sua corrida frenética pelas ruas de Berlim. Um filme curto e muito diferente do que preconceituosamente pode se esperar do cinema europeu, seu findar e recomeçar não cansa o espectador que é abduzido por sua edição vertiginosa, incluindo uma antológica seqüência em animação. Três diferentes finais - é só escolher um.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

COMO JÁ DIZIA FRANCISCO CARVALHO

 A poesia hoje é uma arte pouco valorizada, depreciada e desgastada. Está em extinção o verso perfeito, o verso sincero. O que há são apenas arremedos, ajuntamento de palavras e ajuntadores profissionais – que deveriam respeitar a poesia antes de saírem por aí autoproclamando-se poetas (a poesia não é a escolhida, como uma amante exigente é ela quem escolhe). Não gosto quando me chamam de poeta, além de não me sentir confortável sempre acho que é um elogio maledicente, se possível corrijo a alcunha – não quero ser colocado no mesmo balaio. Também nunca recito, faço apenas raras leituras. Reler publicamente o que escrevi é deveras doloroso, é sangue que somente eu vejo jorrar e que demora dias para estancar. Recitar virou um circo, é uma mise en scène afetada e constrangedora; cheia de caras, bocas e espalhafatos. “Grupos poéticos” com números orquestrados, figurinos e cenários transformam poemas em teatro amador, e ainda costumam cobrar couvert em eventos. Isso não torna a poesia popular, a torna caricata. Como diria o poeta (este sim) Francisco Carvalho: “a poesia não é um jogo irresponsável para divertimento de desocupados”.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

BOB ESPONJA NÃO É GAY!

          A busca por mensagens escondidas em desenhos animados não é novidade, começou “oficialmente” em 1954 com a publicação nos EUA do livro “A Sedução dos Inocentes”, do psicólogo Frederick Wertham, onde afirmava que os quadrinhos incentivam crimes e degeneração. Entre suas teorias estavam que a dupla dinâmica era um casal homossexual, que a Mulher Maravilha era lésbica e que as orelhas do Pernalonga eram dois pênis e que ao se levantarem nada mais era do que ereções. Pode parecer absurdo, mas o livro originou o famigerado código americano de censura dos quadrinhos.
            Quando eu assistia às reprises de A Caverna do Dragão, já sem a esperança de que os garotos escapassem daquele mundo, ouvia as mais diversas versões sobre o que teria acontecido. A mais popular dizia que eles teriam morrido num acidente no parque de diversões e que estariam na verdade no inferno (o Mestre dos Magos seria o diabo e pai do Vingador, Uni um demônio e o dragão Tiamate seria Deus). Associar as personagens infantis ao consumo de drogas também era muito comum: Gargamel seria um viciado em chá de cogumelos que em seus delírios persegue homenzinhos azuis; Salsicha um maconheiro paranóico que conversa com cães e vive na maior larica; além de Popeye, que seria o maior apologista de marijuana da história, inclusive ficando fraco em suas crises de abstinência. A sexualidade era outro viés exaustivamente explorado, não valendo nem a pena enumerar quem ficava ou deixava de ficar com quem. Essas teorias da conspiração não devem cessar facilmente, não faz muito tempo que sopraram nos meus ouvidos que A Turma da Tina seria a verdadeira Turma da Mônica Jovem. Já nos animes e nas grandes produções da Pixar, DreamWorks e Disney há quem jure haver imagens ocultas em segundo plano. Tudo que sei é que o Louco é uma projeção da mente inquieta do Cebolinha (feito Calvin e Haroldo) e que independentemente de ser ou não bipeniano Pernalonga é sarcástico e mordaz, assim como Garfield e Pica-Pau, e se Bob Esponja e Patrick não são gays (conforme informação de seu criador Stephen Hillenburg), certamente Lula Molusco é, mas não me pergunte porquê.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

“EU SOU CRIANÇA E NÃO CONHEÇO A VERDADE”

O que você vai ser quando crescer?
Pais, tios, padrastos e vizinhos violentam crianças. Outros tantos aliciam menores em praças, estradas, esquinas, chats – a pedofilia me enoja, pedofilia é crime. Madonna não consegue adotar uma menina de três anos no Malauí porque uma juíza decidiu que era melhor para a criança continuar num orfanato. Na Índia o pai da atriz de nove anos Rubina Ali, a Latika de “Quem Quer Ser Um Milionário?”, teria tentado vender a filha, que mora com a madrasta numa favela na periferia de Mumbai. Aqui a miséria enfeita a cidade: crianças subnutridas pedem pelas ruas, fazem malabarismos nos sinais, dormem nas calçadas, nas marquises; bebês nos braços das supostas mães servem de munição para o terrorismo emocional; meninos cometem pequenos furtos para sustentar o vício em drogas; meninas se prostituem para sustentar o vício em drogas. Manchetes que não vendem jornais.

sábado, 18 de abril de 2009

KELVIN PROFUNDO E A MULHER MODERNA

Caminhava pelo centro da cidade, à noite e meio apressado, quando uma mulher se aproximou e me ofereceu seus serviços de “Kelvin Profundo sem embalagem e sem arrependimento por vinte conto” – como se fosse uma dessas panfletistas que ocupam a calçada divulgando empréstimos, cursos e exames médicos. Despertada a curiosidade parei para perguntar sobre o que se tratava e didaticamente ela me explicou, acariciando meu ombro numa tentativa vã e desajeitada de sedução, que Kelvin Profundo nada mais era do que a prática requentada da outrora célebre Garganta Profunda, com direito a ejacular goela abaixo (daí o “sem embalagem” do comercial). Não demonstrando surpresa agradeci e recusei, o que ocasionou um muxoxo de criança mimada, e sem perder tempo renegociando comigo passou naturalmente para outro possível cliente. (Depois descobri que Kelvin é uma corruptela de “quer vim”, modismo no calçadão de Copacabana). Já em casa, durante o intervalo do futebol nosso de quarta-feira, me deparei com o canal GNT e o programa “Saia Justa”, onde Mônica Waldvogel, Betty Lago, Maitê Proença e Márcia Tiburi, representantes da mulher moderna e de um mundo perfeito sem clichês masculinos, devidamente acomodadas num sofá, dissertam descontraidamente sobre comportamento, tendências e atualidades. Tudo no seu lugar, embora tenha me incomodado que o patrocinador seja o Caldo Knorr, símbolo do arquétipo da dona de casa ideal – ao lado do Bombril e de qualquer anúncio de margarina. Num exercício desnecessário de imaginação tentei, com muito esforço, visualizar a mulher que encontrei na rua sorridente e de avental numa cozinha branca cheia de luz natural ou o Kelvin Profundo patrocinando o programa, com direito a filme ilustrativo e slogan com duplo sentido. Porém começou o 2º tempo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

9ª BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
(PRAÇA DE CORDEL E POESIA)

17 a 26 de abril
CENTRO DE CONVENÇÕES DA BAHIA

Dia 23 (quinta-feira)

20h 20min - POESIA
Elizeu Moreira Paranaguá
Vânia Melo
Herculano Neto

segunda-feira, 6 de abril de 2009

TUDO O QUE EU SEMPRE QUIS DIZER SOBRE CERVEJA

Gosto de cerveja. Cerveja escura, chopp de vinho, bock, flavorizadas. Gosto de beber sozinho, com aquela indiferença que aprendi a carregar nos olhos. No bar minha cerveja é no balcão, estilo copiado de filme americano: long neck, sem copo. Detesto copos. Nunca me deixo acompanhar à mesa, a garrafa de 600 ml no centro, gargalhadas, futebol, mulheres, samba - tudo previsivelmente ritualístico me repele. Recuso com destreza convites, um intelectualoide à mesa é pior que cerveja quente. Sempre acreditei que quem compartilha cerveja não gosta de cerveja, gosta de jogar conversa fora, e eu não desperdiço nada, sequer conversa. (Parafraseando Cazuza: quando eu estiver bebendo não se aproxime). Minha cerveja não desce redondo, redonda nem redondamente, ela fica no caminho, é um engano, um desvio de rota, um atraso, tráfego. Minha cerveja ignora a noite fria e reduz o meu domingo a um marasmo ainda maior. Minha cerveja não protagoniza o anúncio da tv, não enfeita o cartaz da gostosa fabricada na tela do designer, não patrocina a alegria com prazo de validade. Minha cerveja não tem happy hour, apenas dias de infelicidade. Sem moderação, sem interação, sem folia, sem slogans. Minha cerveja não é praia, é pub; não é celebridade, é Bukowski.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

CALYPSO E O NOBEL DA PAZ


Nunca entendi a utilidade, nem mesmo simbólica, do Prêmio Nobel da Paz. Sempre me soou excêntrico, distante, político e pouco prático – e irônico pelo fato de ser o inventor da dinamite o sueco Alfred Nobel. De acordo com as normas o prêmio deveria distinguir a pessoa ou organização que tivesse feito a maior/melhor ação pela fraternidade entre as nações, no entanto o Brasil trata a premiação como se fosse uma competição esportiva, assim como fez com a escolha do papa. Não faz muito tempo que o presidente Lula, Xuxa e Pelé desejaram conquistar o prêmio; agora o Comitê da Paz do Estado do Pará indicou o grupo Calypso “por seu relevante trabalho humanitário em prol dos carentes da região norte”. As batidas que costumo dar com minha cabeça na parede após as derrotas do Bahia devem ter causado algum dano ao meu cérebro, pois não me surpreendi nem um pouco. Deve ter sido porque sua vocalista foi eleita uma das mulheres mais sexy do país e seu parceiro um dos melhores músicos em atividade – opinião, inclusive, de Herbert Vianna. Não quero maliciosamente, e covardemente, comparar os paraenses a laureados como Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá ou Martin Luther King, não seria justo. No máximo colocá-los no mesmo balaio que Al Gore, Jimmy Carter, Kofi Annan e Mikhail Gorbachev – que já tiveram seu momento de representantes da paz mundial, porém com menos molejo. Mas se a dançarina Carla Perez e o seu constrangedor (adjetivo menos desrespeitoso que encontrei) “Cinderela Baiana”, tentou a candidatura brasileira à disputa do Oscar em 1998, então não há mal algum a Joelma e Chimbinha aspirarem ao Nobel.

quarta-feira, 25 de março de 2009

CINEMA DE SHOPPING


Definitivamente, quem vai ao cinema no shopping não vai ao cinema, vai ao shopping e passa pelo cinema como se passasse em mais uma loja. Ainda na fila é perceptível a desinformação e durante a sessão é evidente o desinteresse.

quinta-feira, 19 de março de 2009

THE DARK SIDE OF DENDÊ

Tenho o hábito de começar a leitura dos jornais a partir dos segundos cadernos, mesmo que as notícias culturais não mereçam ultimamente tanto privilégio, assim como leio as revistas semanais sempre do final para o início, quase como um mangá. Uma nota chamou minha atenção recentemente, antes até de ler a tira do Dilbert: TRIBUTO AO PINK FLOYD EM SALVADOR. Não nego meu entusiasmo ainda no título, afinal o Pink Floyd, ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath, formava a santíssima trindade da minha inquietude, seres acima do bem e do mal, que encerravam discussões. Porém, ao continuar a leitura meu entusiasmo se transformou em estupefação, que passou para incredulidade e culminou numa gargalhada de incomodar vizinhança quando descobri que o show seria com os vocalistas das bandas Eva, Asa de Águia, mais o repaginado Luiz Caldas. Não era primeiro de abril, homônimos nem brincadeira de programa de tv. Era show com hora e data marcadas, ingresso pago e divulgação. Ainda com o jornal nas mãos liguei para uma amiga e contei a novidade em tom de galhofa, apenas pra animar o domingo. Ela me repreendeu dizendo que eu estava sendo muito cruel, que eles poderiam ter o mesmo passado rocker que eu tive e que antes de conceber minha sentença definitiva deveria dar um pouco de crédito aos músicos baianos, o que me fez, glup, abaixar a cabeça e escantear o preconceito. Mas ao imaginar Durval Lelys, com a aba do boné virada para trás no melhor estilo Sérgio Mallandro, tentando cantar um clássico do calibre de “Wish You Were Here” com direito a “quero ver as mãozinhas galera” um riso sórdido inevitavelmente encontra um canto de boca.

quinta-feira, 5 de março de 2009

CADÊ A DALILA, MORAL?

Não sou um misantropo que assiste à vida e à banda passar, mas é quase impossível manter-se indiferente (com dificuldade apenas a pose) ao carnaval. Moro em Salvador praticamente no intitulado “circuito da folia” e se pela tv é um belo espetáculo é porque não há cheiros nem insegurança. Pouco me convence aqueles que dizem que vão para a avenida em busca de bocas ansiosas ou as teorias apaixonadas e antropofágicas do senhor Caetano Veloso. Carnaval para mim não passa de mais um feriado. Durante os festejos ouvi à revelia, e sem reclamar, Ivete Sangalo e sua Dalila incessantemente, e não adianta argumentar que música de carnaval é somente mera diversão no melhor estilo “eu me remexo muito” de Madasgacar - meu bom senso não costuma requebrar. No entanto o carnaval já terminou e continuo ouvindo Dalila por todo lado: de nome de recém-nascido a batismo de virose. Um amigo me disse numa conversa de bar que Dalila era gíria para droga e que “vá buscar Dalila ligeiro” nada mais era do que o sujeito na bruxa mandando alguém fazer um avião. Sei que conversa de bar não se leva pra casa, porém na última semana ao ouvir no ônibus um indivíduo mais do que mal encarado perguntar para outro idem “cadê a dalila, moral?” já não estou bem certo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

MICKEY ROURKE

Sei que a Academia de Hollywood adora premiar filmes sobre superação, redenção, expiação, etc... Talvez por isso, mas não só por isso, acreditei que Mickey Rourke ficaria com a estatueta de melhor ator – o que me deixou dez reais mais pobre devido a uma aposta perdida. Transitando sem excessos entre o real e a ficção, sua interpretação contida em “O Lutador” me convenceu mais do que os trejeitos histriônicos de Sean Pean (apesar de ser um excepcional ator seu Harvey Milk me diz menos do que Heath Ledger em Brokeback Mountain). Para quem cresceu vendo Mickey Rourke nas sessões da madrugada em clássicos instantâneos como “Coração Satânico” e, principalmente, “O Selvagem da Motocicleta” fica difícil manter a indiferença ao vê-lo agora: esquivando-se de um clichê aqui e outro ali e divertindo-se sem culpa ao som de um bom e descompromissado metal farofa. Se ele merecia o Oscar ® ou não pouco importa (fica a discussão apenas para a mesa do bar). E ainda havia a belíssima canção de Bruce Springsteen, “The Wrestler”, que premiada com o Globo de Ouro foi completamente ignorada pela Academia – que adora musicais da Disney e afins.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

BORA BAÊA!

           Time se escolhe.
           Mas a nítida sensação é que eu já nasci tricolor, muitos torcedores dirão igualmente, e não é apenas frase de efeito: é realidade. Se me perguntarem jamais conseguirei determinar exatamente quando passei a torcer – só sei que torcia.
           Na tarde de 19 de fevereiro de 1989, aos dez anos, aguardava ansioso pela transmissão da final do campeonato brasileiro do ano anterior (entre Internacional de Porto Alegre e Bahia da Bahia mesmo). A espera era solitária. Meus amigos e meu irmão eram mais jovens do que eu e da bola só queriam o baba; meu pai, torcedor do Vitória, pertencia ao grupo dos descontentes e naquela tarde, antes de sair pra trabalhar, me incumbiu de colocar a areia que estava na rua desde a manhã passada para o quintal. Deixei a tarefa para ser cumprida após a partida – a construção não tinha pressa.
           Pouco antes de começar o jogo meu tio Rui, rubro negro fanático, chegou discretamente em sua cadeira de rodas e se ajeitou do lado de fora, de onde podia assistir sem incomodar ou ser incomodado – ficou em silêncio e assim foi embora.
           Bahia campeão. A imagem do goleiro Ronaldo agradecendo aos céus e minha mãe desligando a televisão:
           - Vai fazer o que teu pai mandou!
           Ok, manda quem pode e, embora não pareça, nunca me faltou juízo.
           Enquanto carregava um balde caindo aos pedaços, cheio de areia, acompanhava o espocar dos fogos e os gritos de euforia dos torcedores que não paravam de multiplicar. Num momento de distração feri meu punho no alumínio do balde e ainda tive de ouvir de minha mãe alguns impropérios antes dela isolar o ferimento com uma faixa feita de tiras de pano.
            Ainda trago a cicatriz.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CINE-TEATRO SÃO PEDRO

Inaugurado em 12 de agosto de 1865 em Santo Amaro (BA), e considerado o segundo principal teatro da Bahia, o Teatro São Pedro era uma cópia fiel do Teatro São João, na capital do estado. Situado na Praça do Rosário (onde hoje se encontra o hospital), o São Pedro pertencia a um grupo de intelectuais santamarenses, idealistas que conseguiram arrecadar dezesseis mil réis e ergueu um dos mais belos monumentos arquitetônicos já existentes em Santo Amaro. O Teatro São Pedro tinha 60 palmos de largura por 140 de comprimento, o seu pano de boca representava a alegoria “O Florestamento do Brasil” e seu palco media 44 palmos de fundo por 34 de largura. A platéia continha cerca de 200 cadeiras de palhinha bem cômodas. No primeiro pavimento havia 20 camarotes e no segundo uma bela varanda que acomodava 210 pessoas, além de um grande salão de recreio e um saguão de entrada que tinha de cada lado salas que vendiam lanches e bebidas. Sua iluminação era a gás carbônico. Grandes companhias líricas, dramáticas e operetas se exibiram com sucesso porque satisfaziam as exigências de uma platéia culta e refinada. Após passar por uma enorme reforma o Teatro São Pedro tornou-se Cine-Teatro (novidade absoluta na época) e reabriu suas grandes portas envidraçadas ao público, inaugurando suas novas instalações com o filme “Bombeiros Improvisados” na noite de 02 de outubro de 1910, um domingo. Mas por uma fatalidade, ou cruel ironia, o teatro foi tomado pelas chamas e destruído em poucas horas, transformando seus espectadores em verdadeiros bombeiros improvisados. Desaparecendo, dessa forma, o imponente Teatro São Pedro em uma data trágica para a cultura de Santo Amaro. Nas décadas seguintes, conforme se observa nos antigos periódicos santamarenses, tentou-se sem êxito a restauração do teatro, bem como a construção de uma nova casa de espetáculos na cidade.

TEATRO SÃO JOÃO (SALVADOR)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

CASA DE TAIPA

Na antiga vila em que meus avós moravam havia um compromisso tácito, um tipo de acordo comunitário, onde todos se ajudavam – uma organização social sonhada por teóricos, mas praticada por indivíduos simples. Na construção das casas de taipa, por exemplo, homens e mulheres tinham funções distintas, enquanto as pessoas mais velhas pisavam o barro entoando cantos, ditando o ritmo do trabalho, as mulheres passavam aos homens os montes de massa para ser socado entre as estacas, tudo regado com muito samba e alegria. Numa época de costumes rígidos e recato a entrega do barro possuía um simbolismo próprio, uma espécie de rito de passagem: para quem a mulher entregasse mais barro era como se ela também se ofertasse, como se ela dissesse que estava pronta, era um momento disputado, quando ela escolhia seu parceiro. Meus avós, que cresceram juntos, decidiram que seriam um do outro na construção da casa de uma tia-avó que não conheci, surpreendendo muitos.
Vivi meus primeiros anos numa casa de taipa bem pequena, embora sempre a recordo maior do que foi. Da parede perto da minha cama, certa feita, caiu um pouco de barro e surgiu uma fenda, que se transformou num buraco – era a minha janela. Do buraco observava o terreno baldio onde brincavam os cães. Numa manhã chuvosa, improvisando com plástico preto, meu pai fechou o buraco. Não há um único dia, ao apertar o número 6 do elevador, que eu não lembre da casinha de taipa e da janela dos cães.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON


Benjamin nasceu velho. Um bebê idoso que vai progressivamente rejuvenescendo – no ritmo contrário da vida, mas não da morte. (Emula um pouco o mito de Obaluaê ao ser abandonado pelo pai e se tornar um Brad Pitt no esplendor de sua beleza na idade adulta). Também conheço pessoas que nasceram velhas, ou que parecem ter nascido velhas. Com suas ideias caducas são avessos às mudanças e à novidade. Num conservadorismo puritano empunham bandeiras gastas como a da “moral e dos bons costumes”, posando de baluartes da sociedade. Igualmente conheço pessoas que, diferentemente de Benjamin, parecem retroceder a cada dia, sempre mais imaturas e infantis, que não valem sequer uma simples conversa, além de outras que vivem numa eterna adolescência. Acho triste quando vejo uma criança travestida de adulto em algum programa de TV, e não me importo se é “prodígio” ou “madura demais para a idade”, para mim é apenas uma criança. E ainda há aquelas pessoas que tentam desesperadamente evitar o inevitável, com laser, peeling, botox, cremes, fórmulas mágicas de clínicas estéticas e cirurgiões de anúncios classificados. Alguém precisa dizer para elas que para manter o espírito jovem não é necessário academia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

DESCONSTRUINDO RUBEM FONSECA

(Fragmentos desordenados do conto Pierrô da Caverna, 1979)


Um vento forte soprava do mar;
eram cinco horas da tarde
de uma sexta-feira da paixão. Só isso



“Existem pessoas que não se entregam à paixão, sua apatia as leva a escolher uma vida de rotina, onde vegetam como ‘abacaxis numa estufa’, como dizia meu pai. Quanto a mim, o que me mantém vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes, amor, ódio, gozo, misericórdia. Perguntou se eu estava escrevendo alguma coisa. Essa é uma pergunta que vivem nos fazendo, a nós escritores, como se não parássemos nunca de escrever; nós paramos, e às vezes damos um tiro na cabeça por causa disso. Eu nunca seria capaz de escrever sobre acontecimentos reais da minha vida, não só porque ela, como aliás a de quase todos os escritores, nada tem de extraordinário ou interessante, mas também porque eu me sinto mal só de pensar que alguém possa conhecer a minha intimidade. É claro que eu poderia camuflar os fatos com uma aparência de ficção, passando da primeira para a terceira pessoa, acrescentando um pouco de drama e comédia inventados etc. É isso o que muitos escritores fazem e talvez seja a razão pela qual a literatura deles é tão fastidiosa. Querer produzir as belas letras é tão ruim quanto querer ser coerente. Eu sou diferente a cada semana, a cada dia, sou contraditório, bruto e delicado, cruel e generoso, compreensivo e impiedoso. Para falar a verdade eu não sou um cínico, não sei ser irônico, sarcástico, sou tímido e orgulhoso, mas meu orgulho não tem arrogância nem ostentação, apenas auto-estima”.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

ANOS INCRÍVEIS (1989/1993)

Fui uma criança “estranha”, que gostava do silêncio e de brincar com fantasmas (todos devidamente nomeados). "Sonso" foi a alcunha que mais escutei, embora louco e os seus sinônimos fizessem sombra; mais tarde passaram a me chamar de "cínico", de "metido", mas na verdade sou e sempre fui extremamente tímido. A timidez foi uma boa companheira, nada deixei de fazer por sua causa, se bem que, sem ela, suponho, poderia ter sido comido por mais mulheres. Escrevo isso porque ganhei recentemente de Sérgio Damião, amigo de Santo Amaro, todas as temporadas de ANOS INCRÍVEIS, o que me fez voltar, a contragosto, para a adolescência. A série retratava o cotidiano de uma típica família da classe média americana entre os anos 60 e 70, com todos os conflitos da época. Lembro de cada desventura, de cada desencontro, de cada canção. Cresci com aquelas personagens e me reconhecia mais nelas do que nos colegas do colégio, infelizmente. Enxergava o mundo à maneira de Kevin Arnold, com seu periscópio a observar tudo ao seu redor – só não me identificava com sua presunção. Sem muita nostalgia continuo assistindo aos episódios todas as noites, quase como um ritual, e trago a sensação de que pouco em mim mudou. Devo ser o mesmo menino sonso de Santo Amaro.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ONDE MORA A SAUDADE

Santo Amaro (BA) é uma cidade de passado, de história. É uma cidade bucólica que vive da nostalgia dos seus moradores, do orgulho massapezeiro, do bairrismo por vezes exagerado. Uma cidade de energia, de magia. Santo Amaro é uma cidade aprazível, de uma tranquilidade quase modorrenta, onde o tempo corre com graça e com mais vagar, sem pressa de chegar. É uma cidade boa de descanso, de guarida, lugar pra apear e fincar raiz. Santo Amaro também é a terra do já teve, a terra do já foi – aforismo repetido com humor por gerações. É mãe de filhos ilustres, mas em Santo Amaro quem mora é a saudade. O visitante desavisado, num primeiro momento, pode ficar decepcionado. Afinal, em Santo Amaro não há muito que fazer, que se vê. Mas em Santo Amaro o seu melhor não é tangível, apenas se sente, e quando se sente é difícil viver sem. No entanto, a violência oriunda do narcotráfico, germe que já contaminou os grandes centros urbanos, invadiu suas ruas, seus becos, seus jovens; eliminando a paz e a calma do lugar. As autoridades competentes fecham os olhos e as pessoas as suas portas, não há mais a cadeira na calçada no final da tarde, somente a desconfiança.
Em Santo Amaro vive o medo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

METEORANGO KID (1969)

Meteorango Kid, de André Luis Oliveira, é um clássico absoluto do cinema underground brasileiro, com trilha sonora dos Novos Baianos e intervenções sonoras mais do que bem vindas de Gil e Caetano, apresenta a trajetória desenfreada do protagonista Lula por uma Salvador ainda mais provinciana e tediosa. Interpretado magistralmente por Antonio Luiz Martins, Lula vive num universo extremamente particular, onde fantasia e realidade se confundem. O filme tem uma ação descontínua, num emaranhado de situações escatológicas e ao mesmo tempo irônicas em seqüências que parodiam o cinema comercial americano. Os personagens que acompanham esse herói intergaláctico são igualmente provocadores, como o homem vampiro que surge isoladamente em sua busca cômica por pescoços femininos nas vielas soteropolitanas e o amigo Caveira e sua “aula” de enrolar baseado. Teatro marginal, cinema de vanguarda, nouvelle vague, HQ, neo-realismo, tropicalismo, tudo condensado em 85 minutos de um caleidoscópio psicodélico e contestador.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

DOCE ESPERANÇA (1992)

ROBERTO MENDES E CAETANO VELOSO, 1992

DOCE ESPERANÇA faz parte de MATRIZ (1992), segundo disco do cantor e compositor santamarense Roberto Mendes e conta com a participação especial de Caetano Veloso, inédito em CD.

DOCE ESPERANÇA
(Roberto Mendes/ J. Velloso)


Estou aqui pra viver
A procura de amor por onde for
Ouvindo Ora yêyê
Quero pertencer a uma filha d’Oxum
Oh! Olorum
Me diz o que fazer pra encontrar esse amor
Que seja doce prazer
Que cheire a Jasmim ou a Macassá
Que cace em mim meu querer
Com a mesma constância das ondas do mar
Oh! Olorum
Eu sempre vou crer que vou encontrar
Uma gueixa formosa
Loura cor-de-rosa
Ou uma preta quase azul
Que goste de Itapoan
E vai se arrepiar
Nas festas do Gantois
Oh! Olorum
Como é bom saber que vai me ajudar
Vou aguardar
Oh! Olorum
Numa noite de luar
Rival de Iansã
Paixão de Xangô
Oh! Minha filha d’Oxum.



quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CAPITU (2008)

Já faz algum tempo que desisti da tv, não foi uma decisão taxativa, aconteceu gradativamente. Hoje só me permito os jogos da quarta-feira à noite e o telejornal local, há dias que nem a ligo, fica ali morta na sala acumulando poeira e silêncio, a servir de pedestal para o troféu de terceiro colocado do II Torneio de Futebol de Mesa de Santo Amaro – 1996, num canto que quase não incomoda o tráfego, juntamente com velhos quadros, lembranças de viagens e capas de LP’s – que vira e mexe recebem observações sem muito valor das visitas. Ao saber por acaso, escutando uma conversa que não me pertencia, que a rede globo produziria um especial de final de ano baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, resolvi arriscar - o que eu poderia perder? Afinal, esse é o único, até agora, livro que li mais de duas vezes (descontando, inclusive, a obrigatoriedade da 8ª série). Após a exibição do primeiro capítulo, mesmo não nutrindo muitas expectativas, não me decepcionei, confesso – apesar do clima excessivamente teatral que parece querer exorcizar da televisão brasileira alguma culpa. Pretensamente emulando a idéia da diretora Sofia Coppola em MARIA ANTONIETA (2006), onde enchia de referências contemporâneas uma personagem histórica, a adaptação me ganhou, não apenas por isso, principalmente pela fidelidade ao delicioso texto original embalado por uma trilha pop. Mesmo assim pouco mudou: o título da obra para Capitu, que muitos entendem ser bem mais apropriado; a re-organização dos micro-capítulos para uma melhor narrativa televisiva e uma coisinha aqui e outra ali – nada demais. Os puristas devem franzir a testa e fazer saltar aos olhos aquela veia de descontentamento, os noveleiros mudarão de canal sem muita paciência e irão dizer na repartição ou no ponto de ônibus no dia seguinte que odiaram, talvez chato seja o adjetivo mais utilizado. Já eu descobri com a série que preciso de um lugar para esconder minhas velharias, como o troféu do II Torneio de Futebol de Mesa, para não servirem de papo furado aos que me visitam de quando em vez.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

isabela boscov não viu o meu documentário


faço poses
para uma vitrine de tarjas pretas

(recolho a barriga
observo de soslaio)

o reflexo tosco
me diz sem escrúpulos
que tenho prazo de validade
e hora marcada para ser feliz

queria discordar
mas não há argumentos


(Herculano Neto, by Cinema 2008)
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