quinta-feira, 17 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA IV


Suportei de Helena tudo quase: sua impaciência, seus desvios,
sua sede, sua esquizofrenia.
Só não fui conivente com a sua indiferença.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA III


Nunca descobri se era amor, comodismo ou qualquer outro inferno.
Também nunca soube se a conhecia bem ou se ela era muito previsível.

terça-feira, 15 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA II


Helena não se importava com prognósticos, com previsões do tempo,
com provisões de fundos, com a despensa.
Helena era uma mulher de acasos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EPITÁFIOS PARA HELENA I

Quando conheci Helena não houve um estalo, um arroubo, uma profusão de fogos artificiais, uma sonata de violinos ou uma cena em câmera lenta.
O tempo não parou para ver Helena passar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

INCOMPLETA

         Finalmente, começou a Copa do Mundo de Futebol. Na ausência de algo melhor para fazer, fico imaginando como não deve se sentir quem não compartilha da euforia nacional que impregna de verde e amarelo as cidades e os meios de comunicação -, provavelmente muito pior do que eu fico durante o carnaval morando em Salvador. Infelizmente, também sou um entusiasta do futebol (embora não pareça nem à primeira nem à segunda vista). Se eu pudesse voltar no tempo, e essa é o tipo de suposição boba que todo mundo em algum momento já fez, eu diria para mim, ainda moleque nas ruas de Santo Amaro, para não gostar de futebol; que só trará infelicidade, divergências; que é perda de tempo e os números da Mega-Sena. Mas como é de conhecimento de todos isso não é possível. Talvez eu pense assim porque torço por um time que não me dá alegrias, porque não me sinto representado pela seleção do meu país ou porque, após duas horas de uma partida monótona na TV, eu sempre reflita que poderia ter aproveitado para terminar de ler aquele livro, assistir a um filme, cozinhar, namorar ou apenas recuperar a noite mal dormida. No entanto, sei que na rodada seguinte, teimoso que sou, estarei novamente me aborrecendo na frente da TV (será que não é mesmo possível voltar no tempo?).
***
          Propositalmente, dei por completado meu álbum da Copa faltando uma figurinha. O charme do álbum é não completar. Assim é a vida: incompleta. Mas tinha que ser logo a figurinha do Felipe Melo?
***
          Hoje, um amigo me disse por telefone que a Panini lançou um encarte com os 23 jogadores convocados por Dunga, além das figurinhas dos nove brasileiros que não estão no álbum original (Gomes, Doni, Gilberto, Thiago Silva, Michel Bastos, Kleberson, Ramires, Júlio Batista e Grafite). Ainda não sei se vou colecionar esse refugo. Preferia que ele tivesse me dito que Felipe Melo não está mais no álbum.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

“A MINHA ALMA NUA”

Houve um tempo em que eu tinha desistido de mim, não sabia o que era a luz do dia nem alimento que não fosse bebido, injetado ou aspirado. Quis cair de boca na boca da noite e acabei caindo nos dentes da Boca do Rio. Era requisitado pelos playboys da Pituba, pois constava sempre a massa boa, "a de qualidade". Curtia a noite até a última ponta: suas dores; seus atalhos; seus clichês; suas miragens. Até conhecer Pérola, uma negra de porte altivo e cabelos de nylon, que realizava um trabalho social com as prostitutas e travestis afrodescendentes da orla. Eu era útil para ela porque sabia o ponto e o nome de todas, algumas até o nome de batismo. Cheia de revolta e ideais socialistas, me fascinou seu discurso caduco, suas vestes de princesa africana e sua idolatria por Omolu, "o que mata sem faca". (Pérola era o arco-íris de Madagascar). Seu conceito de igualdade pouco se chocou com meu desencanto humanitário. Foi minha pele parda, de mestiço do Recôncavo, que não combinava com a dela - que me considerava muito branco para o seu universo.


REFERÊNCIAS

- O título do conto é um verso da canção ALEGRIA DA CIDADE (Lazzo/ Jorge Portugal), gravada pela cantora Margareth Menezes em 1988: “A minha pele de ébano é a minha alma nua”;- “Eu sou o arco-íris de Madagascar” é parte da canção MADAGASCAR OLODUM (Rey Zulu), emblemático sucesso da extinta Banda Reflexu’s em 1987;
- Omolu é um orixá africano cultuado nas religiões afrobrasileiras que o tem como o Senhor da Morte. “O que mata sem faca” é um epíteto utilizado pelo escritor João Ubaldo Ribeiro em VIVA O POVO BRASILEIRO, publicado em 1984;
- Boca do Rio e Pituba são bairros, aparentemente, da orla marítima de Salvador;
- O Recôncavo baiano é a região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos;
- Modelo da fotografia: não sei;
- Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança terá sido apenas semelhança.

terça-feira, 1 de junho de 2010

DENNIS HOPPER (1936-2010)


Não gosto de reverenciar ninguém depois de morto. Homenagem sincera, acredito, deve ser feita durante a vida, após sempre me parecerá oportunismo. No entanto, não posso deixar de dizer que no último sábado, perdi meu vilão cinematográfico preferido. Quando li as primeiras notícias sobre o falecimento de Dennis Hopper, agi com natural incredulidade (não poderia ser diferente). Depois, passei a relembrá-lo em APOCALYPSE NOW (1979), VELUDO AZUL (1986), JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) e, principalmente, ao lado de Peter Fonda pilotando livremente sua Harley Davidson, ao som de “Born To Be Wild”, do Steppenwolf, em EASY RIDER (1969) -, possivelmente, uma das imagens mais icônicas da história do cinema e da contracultura. Na verdade, em seus filmes, meu vilão preferido continuará vivo. Mesmo que ela morra no final.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O FIM DA PICADA


Há um mosquito insolente na minha perna. Acho que ele não se dá conta que um tapa é suficiente para o fim - mas não faço isso. Sei que não é apenas ele quem quer o meu sangue.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

PICOS IV

Daqui de cima, confirmo: a cidade é realmente pequena. Andando por suas ruas, reencontrando sempre as mesmas faces cansadas, eu já desconfiava.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

PICOS III

A enfermeira não consegue encontrar onde injetar o medicamento; parece nervosa, impaciente. Faço um esforço e olho para o meu braço extremamente branco: sou um mapa sem estradas. Não me levo a lugar algum.

terça-feira, 25 de maio de 2010

PICOS II


Eu costumava ter uma veia romântica – foi o que pensei quando eu não soube retribuir aquele carinho.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

PICOS I


Eu costumava ter uma veia cômica; mas, agora, não apenas me falta humor: me falta plateia.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

JUST LIKE HONEY



No filme ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in Translation, 2003), de Sofia Coppola, o ator Bob Harris (Bill Murray) se despede da jovem Charlotte (Scarlett Johansson) e lhe diz algo em seu ouvido que não sabemos exatamente o que é, embora sua expressão sugira para todos o que sente. Ao se afastar ele esboça não um sorriso de esperança, mas de inevitável resignação. Da janela do carro ele se despede, também, de uma Tóquio quase alienígena, enquanto ver surgir as primeiras luzes da metrópole. Paralelamente, escutamos os acordes iniciais de “Just Like Honey”, que se estenderá pelos créditos e dará ao público a mesma sensação de impotência e impossibilidade do protagonista. “Just Like Honey” é a faixa que abre PSYCHOCANDY, álbum de estreia da banda escocesa THE JESUS AND MARY CHAIN, lançado em novembro de 1985, e é mais uma da série melhores canções do MEU mundo. Quando me sinto com as mãos atadas é como se escutasse ao fundo essa canção, e ultimamente tenho a escutado bastante - esperando me encontrar ou ser encontrado, tal qual a Senhorita B. Mas tudo é desencontro.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

PROFISSÃO: ESCRITOR


          O apresentador Serginho Groisman, recentemente em seu programa, ao receber um livro de um convidado indagou:
           - E além de escrever você faz o quê?
           A pergunta não causou estranhamento, soou com naturalidade tanto para a plateia quanto para o entrevistado (que não se constrangeu ao dizer sua formação). No entanto foi o suficiente para afugentar o que ainda me restava de sono. Fiquei a pensar que a pergunta, apesar da aparência, não era corriqueira nem simplista. Era emblemática. Carregava uma série de preconceitos e descasos culturais históricos. Se o convidado fosse um filatelista, adestrador, exorcista, deputado, surfista, luthier, enxadrista, enófilo ou uma celebridade instantânea não haveria nenhum tipo de questionamento. Tudo por aqui é plausível, menos escrever. Num país onde quase não se lê escrever é encarado como um hobby, uma desocupação; é praticamente uma excentricidade. Lamentável que formadores de opinião também tenham essa opinião (melhor que o epíteto do programa fosse “vida conveniente na madrugada”). Escritor no Brasil não é profissão, eu sei - é qualidade.


(Publicado no jornal A TARDE, Salvador_Ba, edição nº 33.275, ano 98, de 16/05/2010)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

TIPOS BRASILEIROS

Tenho percebido ultimamente que o pseudointelectual, ou o intelectual de uma nota só, vem se tornando, gradativamente, um tipo brasileiro muito comum. Ele aparece quando menos se espera, principalmente em mesas de bar, em cafés e em coquetéis. Com seu ar blasé, de superior indiferença, o pseudointelectual escuta pacientemente o assunto em baila para, com a autoridade da última palavra, dar por encerrada a conversa utilizando sem pudor a tática do “antigamente era melhor”, que, com uma alteração aqui e outra ali serve para qualquer situação (“prefiro a formação original, gosto apenas dos primeiros livros, primeiros filmes, do primeiro disco”). E ainda por cima recebe em troca um uníssono “tem razão” (ou “com certeza”). Nesse ritmo, ele irá muito além do jardim.

(Carta publicada na REVISTA PIAUÍ nº 44, maio_2010)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

BATATA-QUENTE

BATATA-QUENTE*
(Herculano Neto)

Trago nos ombros o nome
que meu bisavô deu a meu avô
que meu avô deu a meu pai
que meu pai me deu
e que eu não tenho para quem dar.



*Poema do livro infantil, ainda inédito, A CASA DA ÁRVORE.

terça-feira, 4 de maio de 2010

TAJABONE

Uma mulher abandona Madri e segue rumo a Barcelona, instigada pelas anotações que o filho fez em um caderno intituladas “TUDO SOBRE MINHA MÃE”, no filme homônimo de Pedro Almodóvar. Ao vermos as primeiras imagens da cidade escutamos “Tajabone”, do cantor senegalês Ismäel Lo, cantada no dialeto Wolof. A canção simboliza mais do que a saudade, simboliza a ausência – que vai permear o restante da película -, e é mais uma das melhores canções do MEU mundo. Há algum tempo não moro com minha mãe, e sempre que retorno “Tajabone” acaba sendo não a trilha sonora ideal, mas a trilha sonora inevitável – principalmente quando adentro a cidade onde nasci e que não me reconhece mais. Acho que jamais saberei tudo sobre minha mãe (nem mesmo sei tudo sobre mim), melhor dessa maneira, o que me encanta é a surpresa, é a novidade a cada encontro. Também faço parte daquele grupo ranzinza que acredita que o dia das mães é todos os dias e que aquilo que tentam nos vender em maio não passa de estratégia de mercado. No entanto, não deixo de presenteá-la – por mais que ela repita todos os anos que não precisava.
Eu sei que precisava.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

SO LONG, MARIANNE

São as canções que me movem, nada mais. Não há o que eu não faça escutando-as (e não é exagero). “So Long, Marianne” talvez não esteja em nenhuma lista de melhores canções de todos os tempos ou maiores canções do mundo, mas certamente é uma das maiores canções do MEU mundo. A faixa faz parte do clássico álbum SONGS OF LEONARD COHEN de 1968, estreia do poeta canadense, e a versão acima foi gravada em Lisboa em 2009. Recentemente na estrada escutava “So Long, Marianne” no último volume, permitindo-me o vento frio no rosto e vislumbrando as nuvens negras que se formavam atrás dos montes, e era como se Deus falasse comigo, embora acredite que Ele tenha voz de mulher.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O SORRISO DO GATO DE ALICE


Demoro a desembarcar dos meus sonhos, mesmo após acordado ainda pareço estar em outro tempo, em outra realidade. Talvez por isso eu acredite em bem mais que seis coisas impossíveis antes do café da manhã (que certamente não são lagartas azuis nem coelhos elegantes). Acreditava, por exemplo, que não haveria ninguém que pudesse recriar o universo psicodélico de Lewis Carroll no cinema atual, e suas infinitas possibilidades, além de Tim Burton. No entanto, minha credulidade encontrou um produto muito estético e pouco consistente – quase gratuito. Por isso não estranhei quando, ao final de uma jornada sem clímax e sem propósito, recebi como recompensa um constrangedor passo maluco. Acho que, ingenuamente, esperava algo mais sombrio, menos infantil, mais Tim Burton. Melhor continuar com os livros e a adaptação clássica.
Cortem-lhe a cabeça!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

OFÁ

ofá
Herculano Neto

invado a noite da cidade
ninguém me contesta
me olha nos olhos
ou levanta a voz

(sou o chefe da casa
o rei da floresta)

meu legado é a palavra



(POEMA INÉDITO)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

CHOVER, TRANSITIVO DIRETO

Santo Amaro da Purificação (BA), 14 de abril de 2010

A chuva é meu fetiche, meu feitiço, minha poesia (é o atalho preferido da minha caneta). A chuva me alegra, me acalenta, me acolhe. Gosto do prenúncio da tarde nublada, da garoa, da gota pesada que despenca da árvore, da poça que prolonga o caminho. Gosto das madrugadas chuvosas, dos pingos que escapam pelas frestas das telhas e encontram meu rosto, a página do meu livro. Ignoro previsões do tempo (o tempo é mágico, é imprevisível). Ignoro, também, guarda-chuvas (enfeia a cidade, atravanca a calçada e depois de usado se torna um estorvo; já o guarda-chuva fechado simboliza o pessimismo, é para quem acha que pode chover, quem está na chuva e não quer se molhar - há quem chame de precaução, mas para mim o precavido não passa de um pessimista). Gosto de permitir que a chuva me alague, me naufrague. Gosto do banho de chuva, do banho de infância, do “vem pra dentro menino”. Gosto da chuva fina, mais insolente. Gosto das tempestades, as mais furiosas. Gosto do abraço e do beijo sob a chuva. Gosto da chuva que molha a praça, os cabelos da morena, mas não termina a festa. Gosto do meu licor forte e com chuva. Gosto de chover e sempre chove em mim, mesmo quando não chove. No entanto, nunca espero que o pluvial e o fluvial, no seu eterno espetáculo de amor e ódio, invadam o dia das pessoas com arrogância, com descaso, de mãos dadas – e que o desespero e a aflição sejam as cenas de todos os capítulos. Quando a água alcança o meu peito, o quadro da minha sala, a parede da minha alma, não é mais o poeta quem chove. As águas de março fecham o verão, mas são as de abril que saúdam o inverno. Sem nenhuma promessa.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

“NUM DESSES ENCONTROS CASUAIS”

Foi só por um instante, mínimo; talvez menos de um segundo. Mas o suficiente para que seus olhos se encontrassem na interseção do acaso. Ela estava parada, aguardando o sinal fechar para poder atravessar a faixa de pedestres. Ele caminhava na calçada em sua direção. Ela corrigiu a postura, passou com discrição a mão pelos cabelos, umidificou os lábios. Sabia que aquele encontro fortuito poderia ser constrangedor, afinal já havia se passado alguns meses. Pensou, então, no que diria: começaria com um “oi”, um “olá”. Após a surpresa inicial trocariam no rosto beijos cordiais. Seguiriam-se os inevitáveis “como vai?”, “você por aqui”, “há quanto tempo”, “pois é, há quanto tempo”. Depois o silêncio falaria por eles, como no enredo de uma comédia romântica – ou entabulariam um diálogo ansioso antes que o sinal fechasse, tal qual Paulinho da Viola. Mas quem garantiria que ele não estivesse apressado ou não quisesse realmente conversar? Nesse caso bastaria um leve aceno de mãos ou de cabeça ou de sobrancelhas, nada mais. Quando se cruzaram, finalmente, ela respirou fundo, iria esboçar um sorriso, mas não houve tempo. Ele fingiu que não viu e seguiu em frente, sem olhar para trás. Ela atravessou a rua, mas não estava triste nem decepcionada. Gostaria apenas que alguém dissesse a ele que fingir que não viu não é somente indelicado, é inútil.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

DEU SAUDADE

Deu Saudade
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)

Eu vou embora eu aqui num fico mais
(Eu vou embora eu aqui num fico mais)
Porque deu saudade, ai ai
(Porque deu saudade, ai ai)

Que dor minha mãe
Que dor minha mãe
Que dor minha mãe, que dor...
(É porque deu saudade)

Eu vou embora, minha mãe eu vou
Eu vou embora, vou rever o meu amor

Eu vou embora
Nem que seja de bonde
Nem que seja de barco
Nem que seja a pé
(Porque deu saudade).

Eu vou minha mãe
Eu vou minha mãe
Eu vou minha mãe (eu vou)

Quer ir mais eu vâmo
Quer ir mais eu vombora
(Porque deu saudade, ai ai)


Outro dos meus trabalhos musicais. Agora é Alcione que interpreta essa canção ao lado do baiano Roberto Mendes, uma composição que mais parece um pout-pourri devido às suas muitas possibilidades de refrão. Lançada em 2008 no disco CIDADE E RIO, pela gravadora Biscoito Fino, e regravada em 2009 pelo cantor pernambucano Gonzaga Leal.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

HOMENS QUE MENSTRUAM


São feitos de sutilezas. Tudo neles está à mão e distante; sublimado e exposto. Para eles não há diferença entre comédia e tragédia, eles sabem que a vida é teatro. Armam cenas, cerram cortinas, esperam, afagam, afastam. Querem solidão suas madrugadas, querem atenção suas impaciências. Gritam, mas apenas pelo prazer do silêncio. Despetalam a flor da pele, as lágrimas dos cadernos, os livros das estantes. Nem sempre estão em ponto de bala, prontos para o combate; muitas vezes são alvos fáceis. São dóceis, indefesos, furiosos, indomesticáveis. Colocam as cartas na mesa, viram a mesa, viram o jogo; perdem por muito, vencem por pouco. Sabem de cor muitas mentiras, mas o que importa são as verdades: as mais duras, as mais inconfessáveis – todas passíveis de arrependimentos. Têm sempre certeza, certeza de tudo, embora achem que ninguém os entendam. Brigam, se desculpam, admitem a culpa, colocam a culpa no outro. Abraçam forte e longamente, acolhem em seus braços todas as possibilidades, todos os afetos. Querem amor e exigem amar, querem amar e exigem amor. Insistem em demonstrar força, porém são inseguros, frágeis. São meninos brincando de ser homens. Não sentem cólicas, sentem muito. Sentem ciúmes, se arriscam, pedem provas, se entregam, contradizem. Exibem suas cicatrizes com orgulho, cultivam algumas feridas como plantas. Choram trancados no banheiro, enxugam o rosto no lado mais frio da cama, buscam no escuro o calor do acaso. Suas noites são intermináveis, dolorosas e reconfortantes. Mas não há ambivalência em suas manhãs.

segunda-feira, 29 de março de 2010

PONTO CEGO

ponto cego*
Herculano Neto

cansei dos olhos
do brilho falso dos olhos
dos cabelos tingidos dos olhos

cansei

cansei do olhar
do desvio do olhar
do branco vestido do olhar
de me cansar



*Um poema ingenuamente dramático esquecido na gaveta da adolescência entre fotos e outros papéis. Ilustrado com os olhos de Zooey Deschanel e um novo título.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A VINGANÇA DOS INTITULADORES

          Quem acompanha cinema conhece os filmes antes deles serem lançados no Brasil, por isso é comum escutar algum cinéfilo, não por esnobismo, pronunciar o título na língua original. Este ano alguns filmes que concorriam ao Oscar® me chamaram a atenção não pela obra, mas pela denominação que ganharam por aqui. Fiquei impressionado com a criatividade dos departamentos de marketing das distribuidoras brasileiras, que conseguiram transformar “The Blind Side” em UM SONHO POSSÍVEL, “Up in The Air” em AMOR SEM ESCALAS e, acredite, “A Single Man” no novelesco DIREITO DE AMAR. Sei que filme é um produto e que deve ser vendido da melhor forma, mas não precisa tripudiar a inteligência do espectador com inusitadas criações – que confundem mais do que explicam e até afugenta e engana parte do público. Não estou a fazer campanha para o uso dos títulos originais nem para a tradução literal, mesmo porque alguns são de difícil pronúncia e outros são intraduzíveis ou ininteligíveis, apenas queria que houvesse um pouco de bom senso e tentassem ao máximo preservar seu sentido. Na maioria das vezes os funcionários desses departamentos sequer assistem aos filmes, apenas se valem da sinopse e palavras chave. Termos como: do barulho, da pesada, confusão, em apuros, fatal, uma família, segredo, vingança, surpresa, atrapalhada, loucura, mortal, entre outros, estão sempre na mesa. Parece até que as palavras são sorteadas e o resultado é o nome do filme. Não me surpreenderia se eu encontrasse numa prateleira de locadora algo como UMA VINGANÇA DA PESADA ou LOUCURA MORTAL (se é que já não existem). Expressões populares também fazem a alegria desses profissionais, daí “The Heartbreak Kid” transfigurar-se em ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO, “Knocked Up” virar LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS e “Uncle Buck”, QUEM VÊ CARA NÃO VÊ CORAÇÃO. Experimente observar o título original do próximo filme a que assistir e é quase certo que encontrará algo inacreditável, vide “Shane” (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), “Bonnie and Clyde” (UMA RAJADA DE BALAS), “The Graduate” (A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM) “The Giant” (ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE), “West Side Story” (AMOR, SUBLIME AMOR) ou “Total Recall” (O VINGADOR DO FUTURO). Se o tempo tornou aceitável esses o que dizer de “Fly me to the Moon” (OS MOSCONAUTAS NO MUNDO DA LUA), “Zack and Miri Make a Porno” (PAGANDO BEM QUE MAL TEM) e “The Hangover” (SE BEBER, NÃO CASE)? Além dos casos de “Down by Law” que foi abrasileirado para DAUNBAILÓ e “Taxi Driver” que ganhou e perdeu o epíteto MOTORISTA DE TAXI. Já “Ocean’s Eleven” se tornou ONZE HOMENS E UM SEGREDO, pior foi em Portugal que o rebatizaram como FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS (“Vertigo”, um dos muitos clássicos do mestre Hitchcock, que aqui é UM CORPO QUE CAI virou A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES para os portugueses).
           Os professores de gramática poderiam utilizar esses títulos em suas aulas, um exemplo de paradoxo seria MEU PRIMEIRO AMOR 2, de pleonasmo O PEQUENO STUART LITTLE e de cacófato FÉ DEMAIS NÃO CHEIRA BEM. É raro, mas há vezes em que a versão brasileira é melhor que a original, como “The Shawshank Redemption” (UM SONHO DE LIBERDADE), o oscarizado “Million Dollar Baby” (MENINA DE OURO) ou o filme de 1986 com Anthony Hopkins e Anne Bancroft sobre a longa correspondência entre dois desconhecidos, cujo título original é o endereço de uma livraria (“84, Charing Cross Road”) que no Brasil gerou o suspirante NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI.
           Por brincadeira resolvi submeter a denominação do meu blog, POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?, ao departamento de marketing de uma famosa distribuidora, juntamente com as palavras chave POESIA, CINEMA e INTERSECÇÕES, alegando que eu era um produtor e pretendia divulgar por aqui essa nova comédia argentina. Surpreendentemente, duas semanas depois, recebi a inspirada sugestão: DEU A LOUCA NA POESIA.

sexta-feira, 19 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

A COR DO MENINO



A COR DO MENINO 
(Milton Primo/ Herculano Neto)
 

Se é negro, branco ou índio
O que importa a cor do menino?

Se é mulato ou se é pardo
O que importa se for misturado?

Se é verde, amarelo ou vermelho
O que importa o que diz o espelho?

Se é ruivo ou se é loiro
O que importa a cor do seu olho?

Se ele é branco ou não
Se ele é negro ou não
O importante é o seu coração
(O importante é que ele é meu amigo).


Canção infantil que faz parte do disco/livro PAPOS D’VERSOS, que será distribuído este ano na rede municipal de ensino de Salvador (BA)

segunda-feira, 8 de março de 2010

MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA

           Domingo é dia de futebol (até quem não gosta do esporte bretão sabe disso). No domingo são disputados os grandes jogos, as grandes batalhas. Domingo é dia de ir ao estádio, de estender a bandeira na janela, de lavar o carro escutando o hino do seu time. Domingo é dia de remarcar compromissos, de não marcar compromissos, de bater ponto na frente do televisor, de sintonizar o radinho na resenha esportiva. Domingo é dia de torcer, se enfurecer, se decepcionar, xingar a mãe alheia. Mas, principalmente, é dia de festa, de êxtase, de epifania (domingo também é dia de ir à igreja, mas só é sagrado por causa do futebol).
           Caderno de esportes, campeonatos europeus, jogos ao vivo, mesa redonda, gols da rodada, artilheiro pedindo música... É tanta bola no domingo que chega a ser insuficiente suas vinte e quatro horas, talvez por isso o futebol avance sem pudores pela manhã de segunda-feira – que começa no cumprimento do porteiro; passa pelo papo informal na padaria; pelas manchetes dos jornais nas bancas de revista; pela diversidade colorida dos uniformes dos clubes ostentados com orgulho pelas ruas; pela conversa animada na barbearia; pelos pontos de ônibus, praças, escritórios, construção. O grito do gol de ontem ecoa sem cessar, para a alegria sem fim de uns e dor de cabeça de outros. Aliás, para quem perde, a manhã de segunda-feira é assustadoramente longa - e chuvosa mesmo com sol. O cafezinho na repartição é mais amargo, não se folheia jornais nem se assiste à tv, ouve-se calado o gracejo vingativo do colega e conta-se os minutos para que o dia termine ou que logo chegue a próxima segunda. O certo é que a segunda-feira é dia de comemorar, dia de deixar o riso fácil ganhar o rosto; dia de rememorar, de tirar sarro do adversário; dia de estender o horário do almoço até o final do último programa esportivo só para rever os melhores momentos como se fosse a primeira vez – com direito a nova reclamação da arbitragem. Na segunda não há mais tensão, apenas alívio e certezas.
           Enfim, o futebol pode ser casado com o domingo e dormir fora na quarta, mas a manhã de segunda-feira ainda é sua melhor amante.

terça-feira, 2 de março de 2010

O SEU RETRATO


o seu retrato
Herculano Neto

o seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai


Escute o poema recitado
pelo autor no PALCO MP3.



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