Suportei de Helena tudo quase: sua impaciência, seus desvios,
sua sede, sua esquizofrenia.
Só não fui conivente com a sua indiferença.
Finalmente, começou a Copa do Mundo de Futebol. Na ausência de algo melhor para fazer, fico imaginando como não deve se sentir quem não compartilha da euforia nacional que impregna de verde e amarelo as cidades e os meios de comunicação -, provavelmente muito pior do que eu fico durante o carnaval morando em Salvador. Infelizmente, também sou um entusiasta do futebol (embora não pareça nem à primeira nem à segunda vista). Se eu pudesse voltar no tempo, e essa é o tipo de suposição boba que todo mundo em algum momento já fez, eu diria para mim, ainda moleque nas ruas de Santo Amaro, para não gostar de futebol; que só trará infelicidade, divergências; que é perda de tempo e os números da Mega-Sena. Mas como é de conhecimento de todos isso não é possível. Talvez eu pense assim porque torço por um time que não me dá alegrias, porque não me sinto representado pela seleção do meu país ou porque, após duas horas de uma partida monótona na TV, eu sempre reflita que poderia ter aproveitado para terminar de ler aquele livro, assistir a um filme, cozinhar, namorar ou apenas recuperar a noite mal dormida. No entanto, sei que na rodada seguinte, teimoso que sou, estarei novamente me aborrecendo na frente da TV (será que não é mesmo possível voltar no tempo?).
Tenho percebido ultimamente que o pseudointelectual, ou o intelectual de uma nota só, vem se tornando, gradativamente, um tipo brasileiro muito comum. Ele aparece quando menos se espera, principalmente em mesas de bar, em cafés e em coquetéis. Com seu ar blasé, de superior indiferença, o pseudointelectual escuta pacientemente o assunto em baila para, com a autoridade da última palavra, dar por encerrada a conversa utilizando sem pudor a tática do “antigamente era melhor”, que, com uma alteração aqui e outra ali serve para qualquer situação (“prefiro a formação original, gosto apenas dos primeiros livros, primeiros filmes, do primeiro disco”). E ainda por cima recebe em troca um uníssono “tem razão” (ou “com certeza”). Nesse ritmo, ele irá muito além do jardim.
Foi só por um instante, mínimo; talvez menos de um segundo. Mas o suficiente para que seus olhos se encontrassem na interseção do acaso. Ela estava parada, aguardando o sinal fechar para poder atravessar a faixa de pedestres. Ele caminhava na calçada em sua direção. Ela corrigiu a postura, passou com discrição a mão pelos cabelos, umidificou os lábios. Sabia que aquele encontro fortuito poderia ser constrangedor, afinal já havia se passado alguns meses. Pensou, então, no que diria: começaria com um “oi”, um “olá”. Após a surpresa inicial trocariam no rosto beijos cordiais. Seguiriam-se os inevitáveis “como vai?”, “você por aqui”, “há quanto tempo”, “pois é, há quanto tempo”. Depois o silêncio falaria por eles, como no enredo de uma comédia romântica – ou entabulariam um diálogo ansioso antes que o sinal fechasse, tal qual Paulinho da Viola. Mas quem garantiria que ele não estivesse apressado ou não quisesse realmente conversar? Nesse caso bastaria um leve aceno de mãos ou de cabeça ou de sobrancelhas, nada mais. Quando se cruzaram, finalmente, ela respirou fundo, iria esboçar um sorriso, mas não houve tempo. Ele fingiu que não viu e seguiu em frente, sem olhar para trás. Ela atravessou a rua, mas não estava triste nem decepcionada. Gostaria apenas que alguém dissesse a ele que fingir que não viu não é somente indelicado, é inútil.
hos musicais. Agora é Alcione que interpreta essa canção ao lado do baiano Roberto Mendes, uma composição que mais parece um pout-pourri devido às suas muitas possibilidades de refrão. Lançada em 2008 no disco CIDADE E RIO, pela gravadora Biscoito Fino, e regravada em 2009 pelo cantor pernambucano Gonzaga Leal.
Quem acompanha cinema conhece os filmes antes deles serem lançados no Brasil, por isso é comum escutar algum cinéfilo, não por esnobismo, pronunciar o título na língua original. Este ano alguns filmes que concorriam ao Oscar® me chamaram a atenção não pela obra, mas pela denominação que ganharam por aqui. Fiquei impressionado com a criatividade dos departamentos de marketing das distribuidoras brasileiras, que conseguiram transformar “The Blind Side” em UM SONHO POSSÍVEL, “Up in The Air” em AMOR SEM ESCALAS e, acredite, “A Single Man” no novelesco DIREITO DE AMAR. Sei que filme é um produto e que deve ser vendido da melhor forma, mas não precisa tripudiar a inteligência do espectador com inusitadas criações – que confundem mais do que explicam e até afugenta e engana parte do público. Não estou a fazer campanha para o uso dos títulos originais nem para a tradução literal, mesmo porque alguns são de difícil pronúncia e outros são intraduzíveis ou ininteligíveis, apenas queria que houvesse um pouco de bom senso e tentassem ao máximo preservar seu sentido. Na maioria das vezes os funcionários desses departamentos sequer assistem aos filmes, apenas se valem da sinopse e palavras chave. Termos como: do barulho, da pesada, confusão, em apuros, fatal, uma família, segredo, vingança, surpresa, atrapalhada, loucura, mortal, entre outros, estão sempre na mesa. Parece até que as palavras são sorteadas e o resultado é o nome do filme. Não me surpreenderia se eu encontrasse numa prateleira de locadora algo como UMA VINGANÇA DA PESADA ou LOUCURA MORTAL (se é que já não existem). Expressões populares também fazem a alegria desses profissionais, daí “The Heartbreak Kid” transfigurar-se em ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO, “Knocked Up” virar LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS e “Uncle Buck”, QUEM VÊ CARA NÃO VÊ CORAÇÃO. Experimente observar o título original do próximo filme a que assistir e é quase certo que encontrará algo inacreditável, vide “Shane” (OS BRUTOS TAMBÉM AMAM), “Bonnie and Clyde” (UMA RAJADA DE BALAS), “The Graduate” (A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM) “The Giant” (ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE), “West Side Story” (AMOR, SUBLIME AMOR) ou “Total Recall” (O VINGADOR DO FUTURO). Se o tempo tornou aceitável esses o que dizer de “Fly me to the Moon” (OS MOSCONAUTAS NO MUNDO DA LUA), “Zack and Miri Make a Porno” (PAGANDO BEM QUE MAL TEM) e “The Hangover” (SE BEBER, NÃO CASE)? Além dos casos de “Down by Law” que foi abrasileirado para DAUNBAILÓ e “Taxi Driver” que ganhou e perdeu o epíteto MOTORISTA DE TAXI. Já “Ocean’s Eleven” se tornou ONZE HOMENS E UM SEGREDO, pior foi em Portugal que o rebatizaram como FAÇAM AS VOSSAS APOSTAS (“Vertigo”, um dos muitos clássicos do mestre Hitchcock, que aqui é UM CORPO QUE CAI virou A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES para os portugueses).