segunda-feira, 1 de novembro de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO IX

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Às vezes eu tenho a impressão que Caetano Veloso não possui fãs. Digo fãs dedicados mesmo, desses que colecionam bootlegs, conhecem particularidades da discografia e adoram lados Z. Uns chatos como Raul Seixas, Bob Dylan, e agora Belchior, têm. Não que isso faça alguma diferença, mas basta observar a exaltação do público em suas apresentações ao reconhecer músicas consagradas e dispersar quando executada alguma que fuja do pra-você-e-eu-e-todo-mundo-cantar-junto – sendo o ponto alto “Sozinho”, seu maior êxito comercial, emblematicamente uma música que não é da sua lavra – para constatar que alguma coisa está fora da ordem. Ainda assim ele continua produzindo uma obra consistente, sem amargar dessabores ou gravações que o desabone, angariando depreciações (“o vovô ta nervoso, o vovô”) por motivos que escapam do campo da arte. Seu último trabalho, “Meu Coco”, talvez seja seu mais bem-acabado conjunto de canções copiladas num álbum em muitos anos, o tempo deve alojá-lo, facilmente, em um top 5 de melhores discos do artista – se o denso algoritmo permitir. 

 


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

CONTÉM SPOILER IX

Aquela série que eu te falei

Em uma pequena cidade, daquelas em que todo mundo conhece todo mundo, uma detetive investiga um caso de desaparecimento enquanto tenta sobreviver às intempéries da sua vida pessoal. Falando assim parece apenas um enlatado policial genérico com cara de Supercine, Coca-Cola sem gás e pizza fria. Mas é o primeiro de tantos enganos que Mare of Easttown (minissérie da HBO) nos propicia. O roteiro nos convida para elucidar o mistério e sorrateiramente nos passa a perna com plots inusitados, mas orgânicos dentro da proposta, transformando nossos achismos, a cada esclarecimento, em irrelevantes deduções – ser ludibriado aqui é quase um prazer. A série só não nos engana quanto às suas reais intenções, desde o título está lá, Mare de Easttown é Marianne Sheehan: uma heroína pouco usual que não esconde seus defeitos, imperfeita como qualquer um de nós, uma pessoa tendo de lidar com questões íntimas que nem ela quer encarar, priorizando o trabalho à família e às relações amorosas, descuidando-se muitas vezes da aparência, acentuando rugas, cansaços. Uma personagem ranzinza e pessimista certamente não funcionaria se não fosse interpretada por uma atriz no seu auge como Kate Winslet, em um desempenho soberbo, tornando cativante uma protagonista que nas mãos erradas teria tudo para nos repelir. O texto e o elenco de apoio transcorrem perfeitamente, fazendo nos importar com os coadjuvantes de igual maneira, peças que ajudam a descortinar as camadas dessa mulher além do mero drama policial.

Descobrir quem é o culpado nunca foi tão desnecessário.
 
 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

VIRADA DE PÁGINA VIII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Passados mais de cem anos ainda desperta interesse (e por que não dizer fascínio?) o mistério do feminicida comumente conhecido como Jack, Estripador. Filmes, livros, teses, documentários… o assunto parece ser inesgotável. Entre tantas possíveis teorias ou da conspiração, a verdade é que a identidade do afamado assassino permanecerá oculta eternamente. Em seu trabalho mais ambicioso, Alan Moore acolhe um dos mais controversos suspeitos (sir William Gull, médico da Coroa Britânica e maçom do mais alto escalão) para dissecar a Londres da Era Vitoriana com impressionante detalhismo em Do Inferno (From Hell). Personalidades, acontecimentos e lugares reais, tudo se amalgama à narrativa com perfeição. Leitura cativante, mas longe de ser fácil, requerendo, muitas vezes, um nível de atenção maior do leitor, não sendo raro ter que retornar algumas páginas ao longo do percurso para se situar com exatidão. Para quem ainda minimiza a relevância dos quadrinhos na literatura, fatalmente se assustará com o que Do Inferno oferece.

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VIII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Março, 2021)


Observar e permitir ser observado faz parte do jogo nas mídias sociais. Mas como bons ilusionistas, acabamos chamando a atenção apenas para aquilo que queremos que seja visto, enquanto com a outra mão ocultamos o que convenientemente não consideramos interessante ser exposto. Quanto mais a gente olha, menos a gente vê. Assim, acompanhamos o início de um relacionamento amoroso como episódios de uma série na Netflix: as declarações, as viagens, os encontros, os tebetês. Uma curiosidade muitas vezes mórbida. Até que um dia a série é cancelada abruptamente, antes de concluir a temporada, restando a sensação de que perdemos algum episódio importante ou que dormimos durante a maratona. Sem espaço para lamentações, buscamos o próximo programa no catálogo. E a vida segue, pelo menos para alguns.

Sempre fui uma pessoa excessivamente discreta (admito sem nenhuma presunção), talvez por isso não me veja nessa vitrine virtual, além de ser um reles boomer ranzinza que inicia as frases com “no meu tempo” ou “antigamente”. Mas a verdade é que só de pensar em deletar todas as postagens, remover marcações, renomear perfil, cancelar curtidas, excluir comentários, alterar bio e deixar de seguir páginas e canais referentes ao casal me dá uma preguiça.





terça-feira, 5 de outubro de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO VIII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Dizem que quanto mais velho você fica mais afastado do palco durante os shows você se posiciona. Eu, que já me acotovelei na grade em festivais ou resisti sentado às botinadas no fosso da Concha Acústica do Teatro Castro Alves, só tendo a concordar. A ausência de algo muitas vezes se converte em resignado desinteresse, foi o que a pandemia e o isolamento social fizeram com minha vontade de frequentar lugares lotados. Acho que até antes desse inferno eu já mantinha estratégica distância de aglomerações nos eventos somada com uma localização confortável do bar. No entanto, gostaria de ainda assistir a uma apresentação dos Rolling Stones na pista, talvez eu até vibrasse com a multidão aos primeiros acordes do riff de “Satisfaction” (canção que dificilmente tocaria em alguma playlist minha) assim como vibrei com “Hey Jude” (outra canção que não toca no meu rádio) no show de Paul McCartney na Arena Fonte Nova.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

VIRADA DE PÁGINA VII

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Coincidentemente as três últimas HQs que li possuem algum tipo de “espera” no título: “NÃO ERA VOCÊ QUE EU ESPERAVA”, “A ESPERA” e “EI, ESPERA”. Além das designações (e as “esperas” em tons de azul nas capas) são trabalhos densos, reflexivos, humanos e absolutamente possíveis. Em “Não Era Você Que Eu Esperava”, do francês Fabien Toulmé, acompanhamos as dúvidas e temores de um pai (o próprio autor) de uma criança com Síndrome de Down. Sem apelar para sentimentalismos ou romantizar demais a questão, temos um relato honesto que vai do “luto” à aceitação. No manhwa “A Espera”, somos apresentados a uma mãe que anseia reencontrar o filho, separados na Guerra da Coreia, após setenta anos. Da premiada sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim – autora de “Grama” sobre as coreanas escravizadas pelo exército Imperial japonês para servirem de (desculpe o eufemismo canalha) “mulheres de conforto” durante a Segunda Grande Guerra. Já em “Ei, Espera”, do norueguês Jason, um evento trágico ainda na infância perseguirá o protagonista por toda sua vida. Apesar de utilizar personagens antropomórficos para ilustrar sua narrativa, a melancolia será um elemento presente em boa parte da publicação. Um soco no estômago é um clichê que não consegui evitar. Lamento pelos leitores, e não são poucos os que eu conheço, que consideram o formato em quadrinhos algo inferior ou até mesmo infantil. Estão se privando de uma experiência espetacular com essas três obras. 


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

CONTÉM SPOILER VIII

Aquele filme que eu te falei

Sci-fi, filosofia, quadrinhos, animes, religião, artes marciais, mitologia, cyberpunk, distopia, tecnologia, sociedade, Lewis Carroll, cinema de Hong Kong... São diversos os temas abordados em Matrix (1999), – o que nos possibilita, sem exagero, atentar para novas camadas em qualquer reexibição. Não é difícil, inclusive, traçar paralelos com a nossa realidade (realidade?), manipulados por algoritmos e cada vez mais dependentes das máquinas (como também não é difícil conhecer alguém que acredita que vivemos em uma Matrix). Revendo tudo agora, o filme original e alguns episódios de Animatrix (2003) permanecem irrepreensíveis, já as continuações (Reloaded e Revolutions) absolutamente evitáveis. Lastimo apenas que os executivos conservadores da Warner tenham recusado a ideia de Switch, personagem interpretada pela australiana Belinda McClory, possuir gêneros diferentes dentro e fora da Matrix, uma alegoria clara sobre aceitação da própria identidade, creio que hoje ela seria tão referenciada pela cultura pop quanto o triunvirato formado por Neo, Trinity e Morpheus.

Siga o coelho vermelho! 


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VII

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Janeiro, 2021)

De repente alguém pressionou “continue” e o jogo prosseguiu, melancolicamente.
“Nothing changes on New Year's Day”.



(Fevereiro, 2021)

Amigo coach, lembro que você afirmou naquela laive que falta de tempo não é desculpa, que o tempo é a gente quem faz (mesmo que o tempo não exista) e que basta a gente querer (querer é realmente poder, amigo coach?), que é possível ser feliz (felicidade foi o tema de outra laive, eu sei), que é imprescindível ter hábitos saudáveis, sucesso profissional, praticar exercícios físicos com regularidade, manter uma boa alimentação, ser o amigão da vizinhança, participar de projetos sociais, conservar a casa organizada e a despensa em dia, viver seu relacionamento amoroso intensamente, viajar, frequentar lugares agradáveis, ser politicamente engajado, cuidar da família, levar o cachorro para passear, cultivar algum hobby, maratonar aquela série que estão todos comentando, ser bem informado e nem um pouco alienado, ter vida social, continuar estudando, ser vaidoso e não deixar de se amar, se preocupar com o outro e com a natureza, ler alguns capítulos daquele livro antes de dormir e, principalmente, se preservar mentalmente equilibrado, em paz consigo e com o mundo. 

Amigo coach, sinceramente, mas prefiro fazer escolhas e conviver bem com elas, sem obrigações ou esse sentimento de fracasso que você assegura que ocorrerá ao final do dia se eu não tiver riscado todas as atividades que listei na agenda no começo da manhã. A areia da ampulheta já é bastante cruel, amigo coach, não seja cruel também.

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

VIRADA DE PÁGINA VI

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Na era dos “cancelamentos”, da bem-vinda desmitificação dos ídolos, em que qualquer deslize ético, legal, moral ou até mesmo divergência ideológica é suficiente para ser banido das prateleiras, dos serviços de streaming, da memória afetiva, do feed do Instagram, uma figura controversa feito o Batman consegue sobreviver sendo um dos maiores símbolos da cultura pop, alvo constante de campanhas que acusam o playboy milionário de tentar resolver os seus  traumas violentamente, com métodos questionáveis, em sua desajustada galeria de vilões – tornando-se, muitas vezes, mais psicopata que o maior dos prisioneiros do Asilo Arkham. Mas o Cavaleiro das Trevas é mais do que isso. Em Batman: Ego (escrita e ilustrada por Darwin Cooke, certamente uma das melhores histórias do personagem), a batalha é travada longe de planos maquiavélicos, vilões megalomaníacos ou sobrenaturais, após um incidente que fará o Homem-Morcego questionar a necessidade de um vigilante mascarado no combate ao crime, teremos um duelo psicológico entre o id e o superego. Em apenas sessenta páginas os holofotes focarão apenas em Bruce e Batman, o debate entre essas duas personalidades distintas, quase como uma peça teatral, trará memórias, feridas, dores e medos à tona. Revelando, para quem ainda não tinha percebido, que o seu maior adversário em pouco mais de oitenta anos sempre foi ele mesmo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO VII

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

Passei cinco anos sem atualizar meu blogue, nesse período o que não me deixava esquecer que ele existia eram as notificações, que de quando em vez chegavam, com novos comentários, principalmente na postagem AS PIORES CANÇÕES DE RAUL SEIXAS, até hoje minha publicação mais acessada. Em sua maioria eram comentários bélicos, como é de praxe na internet, que nunca me incomodaram de verdade, achava até engraçado. Pela seleção das músicas e textos informativos, acreditava que estaria evidente que a postagem só poderia ter sido realizada por um conhecedor e admirador da obra de Raulzito, mas nem todo mundo possui capacidade interpretativa mínima. Outras pessoas insistiam para que eu fizesse um contraponto listando as melhores na minha opinião, talvez para comparar com o seu próprio gosto ou apenas apontar que estava faltando ou sobrando algo. Enfim, resolvi selecionar onze faixas, das que estão disponíveis nesse momento no Spotify. Teria incluído, certamente, “Trifocal”, gravada por Tony & Frankye em 1971, com produção e uma participação inusitada do próprio Raul na gravação; além de “O Príncipe Valente”, gravada pela carioca Luiza Maria no álbum “Eu Queria Ser Um Anjo”, de 1975, parceria com Paulo Coelho. 

 


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

CONTÉM SPOILER VII

Aquele filme que eu te falei

Devo ter assistido à Beleza Americana (American Beauty, 1999) no distante ano dois mil (ou talvez em dois mil e um) na solidão do meu antigo quarto em Santo Amaro da Purificação. É provável que aquele espectador imberbe não tivesse bagagem para perceber certos elementos apresentados, sendo mais fácil se deslumbrar com facilitações narrativas como uma sacola plástica levada pelo vento. Mas ao rever o filme agora, cerca de vinte anos depois, a forma como as mulheres são retratadas na película causou uma espécie de incômodo. A esposa neurótica e obsessiva que tenta escapar das suas frustrações profissionais em um caso extraconjugal, a adolescente desajustada e insatisfeita com o próprio corpo que cede ao assédio do vizinho esquisito, a Lolita sexy e ingênua idealizada pelo protagonista. Imagino que “Beleza Americana” não seja uma experiência tão confortável para a plateia feminina na atualidade, muito mais consciente do seu papel social, fazendo com que o filme não passe incólume pelo crivo do tempo.

 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

CONTÉM SPOILER VI

Aquele filme que eu te falei 

 

Um militar colecionador de armas, violento, intolerante, conservador, simpatizante do nazismo e homofóbico. Esse é o Coronel Fitts, pai de Ricky, o cinegrafista traficante de “Beleza Americana” (American Beauty, 1999). Se a figura do coronel me parecia à época excessivamente caricata, embora servisse bem ao propósito da obra, hoje assemelha-se assustadoramente com a realidade. A artificialidade do sonho americano, a narração sarcástica de Lester Burnham (Kevin Spacey inspiradíssimo), o humor cínico do texto… Diversas eram as lembranças mais marcantes. Agora, ao reencontrar o filme, perdido no catálogo de um desses serviços de streaming, me chamou a atenção o aviso de Ricky a Lester para nunca subestimar o poder da negação. E é exatamente essa negação que vai desencadear a atitude de um reprimido Coronel Fitts, fechando o arco do defunto autor que afirmou no início da exibição que em menos de um ano (ou quase duas horas depois) estaria morto.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO VI

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda


(Novembro, 2020)

De quando em vez, reencontro algum conhecido que se perdeu no labirinto do tempo nesses desvios das chamadas redes sociais ou me deparo com alguém que admiro a espera de um simples clique para seguir. Termino não clicando. Meus perfis não possuem atividade, nada que posso oferecer em retribuição; também não costumo distribuir laiques ou comentários. Nem como voyeur eu sirvo. Tem dias que até sinto vontade de compartilhar qualquer coisa, nem que seja um efêmero “storie”, um trecho de livro que considerei pertinente, uma fotografia antiga da cidade das minhas infâncias, o sorriso do meu filho, uma canção… São tantas notícias ruins que se avolumam e se atropelam diariamente que publicar algo que não seja uma indignação vem carregado de um sentimento de culpa – a indiferença é praticamente um crime. Enquanto desisto de postar, um mero instante de tranquilidade sem aplausos, sem plateia, sem curtidas, sem julgamentos acontece no meu coração.



(Dezembro, 2020)

Nunca me despedi tanto de pessoas como nos últimos meses. O Brasil de Oswald de Andrade agora é mais do que uma simples frase de efeito, é realmente uma república federativa cheia de árvores (por enquanto) e gente dizendo adeus. 

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

VIRADA DE PÁGINA V

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Determinadas capas de revistas, principalmente dos anos de 1980, são extremamente afetivas para mim, me sensibilizo cada vez que as reencontro pelas avenidas e becos dessa cidade chamada internet. A maioria dessas edições chegavam às mãos da minha infância por meio de empréstimos, lia e relia o máximo que podia até o instante de devolvê-las – o que era sempre um momento doloroso. “Superaventuras Marvel”, “Disney Especial”, a minissérie “Guerras Secretas”, os diversos almanaques (minha preferência pelo custo-benefício), entre outras. No entanto, a que mais me marcou foi a edição nº 01 de Os Novos Titãs, publicada em formatinho pela Editora Abril em 1986; um mix que apresentava a origem do Cyborg e ainda trazia mais duas histórias do universo DC. Devo ter lido algumas dezenas de vezes – mesmo sendo frustrante chegar à última página e me deparar com um “não perca na próxima edição”, continuidade que desejava muito acompanhar, mas não consegui na época. Por algum desvio da memória, não consigo lembrar como obtive essa primeira publicação. Comprado ou ganhado são possibilidades remotas, o mais comum na época eram as permutas. Nenhuma revista tinha lugar cativo na coleção, a leitura de novos trabalhos era a prioridade. Apenas recentemente, voltei a ter contato com esse material através do ótimo encadernado “Lendas do Universo DC – Os Novos Titãs”. Porém o que eu queria realmente era aquela capa. 


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO VI

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

 

Em 1971 Erasmo Carlos dava um passo em sua carreira que não teria mais volta, entre o ídolo juvenil com “fama de mau” a maldito da MPB setentista a distância era mínima e o risco, inevitável. A balada existencialista “É Preciso dar um jeito, meu amigo”, do álbum Carlos, Erasmo, é uma síntese daquele conturbado período no país. Acompanhado de músicos como o guitarrista Lanny Gordin e os mutantes Sérgio Dias, Liminha e Dinho, Erasmo deixava os anos de ingenuidade da década passada, definitivamente, para trás. Observando o Brasil de hoje, não menos sombrio do que aquele de 1971, “É preciso dar um jeito, meu amigo” soa quase como um apelo.

 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

CONTÉM SPOILER V

Aquele filme que eu te falei

 

Ruben (Riz Ahmed) é baterista em um duo de noise metal em O Som do Silêncio (The Sound of Metal, 2019), primeiro longa de ficção do americano Darius Marder, que rapidamente começa a perder a audição. Na cena de abertura, somos apresentados a sua banda e toda a fúria do seu ofício em atividade. A solidão do baterista no fundo do palco, a visão ampla de tudo que ocorre a sua frente, o tranquilo domínio da situação. A jornada de Ruben até a emblemática sequência final é desconfortável, inquietante. Sem legendas nos momentos em que os personagens se comunicam através dos sinais, ficamos tão desorientados quanto o protagonista. O design de som é angustiante, mudez e ruídos se confundem. O silêncio aqui não é sinônimo de calmaria, o silêncio aqui é desesperador. No meio do filme, quando todas as cartas já estiverem na mesa, novamente teremos contato com o seu instrumento, sozinho em um motorhome Ruben ataca a bateria e assim como ele, não escutamos nada. Agora não é apenas a agressividade que o estilo musical necessita, é uma raiva genuína, resignação e revolta, uma exteriorização do som através do silêncio. 


quinta-feira, 22 de julho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO V

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 

(Setembro, 2020)

Costumo travar diálogos imaginários que não acontecerão tão cedo. Temas polêmicos, filosóficos, amenidades, o trending topic mais quente de todos os tempos da última hora com velhos amigos, conhecidos, colegas de estrada, amigos dos amigos que o acaso coloca lado a lado numa mesa de bar. Mas tudo que resta é a solitude. E um silêncio constrangedor.



(Outubro, 2020)

Era questão de tempo para oficializar minha aposentadoria, precoce dirão alguns, da literatura. Na verdade já tinha parado e não percebi. Meu blogue há tempos não era atualizado, não existia nenhum projeto na gaveta, na cabeça ou vontade de iniciar algo do zero. Longe da superficialidade e glamourização do universo literário, encontrei um alívio que ingenuamente buscava na escrita. Às vezes a rota contrária é o melhor caminho. Escrever é um ato doloroso, exige coragem, determinação e um pouco de teimosia. Meu único entusiasmo agora é ter bons livros para ler.

 

 

domingo, 18 de julho de 2021

VIRADA DE PÁGINA IV

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf

Wathcmen é uma daquelas unanimidades difíceis de refutar. Sua importância aumenta a cada geração de apreciadores da nona arte – e os antigos leitores, sempre que possível, revisitam a obra e encontram elementos que passaram despercebidos. Definitivamente não é um mero acumulador de poeira na estante. O trabalho realizado por Alan Moore e Dave Gibbons em 1986 é irrepreensível. Personagens como Rorschach, Comediante, Doutor Manhattan, Justiça Encapuzada e Ozymandias são referenciados por motivos diversos. No entanto, se me perguntassem quem eu gostaria de ler ou assistir a uma série própria responderia sem vacilar: Silhouette. Herdeira de uma família aristocrata judia na Áustria, fora obrigada a abandonar seu país depois dele ser tomado pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra. Vivendo nos Estados Unidos em 1939 desbaratou uma rede de pornografia infantil e ganhou as manchetes dos jornais, o que lhe rendeu uma vaga no recém-formado grupo de vigilantes Minutemen. Em 1946 a imprensa revelou que ela mantinha uma relação com outra mulher, um escândalo para a época, o que bastou para Silhouette ser expulsa do grupo e logo depois ser assassinada ao lado da sua esposa por um antigo inimigo. Alguém pensou em HBO?

terça-feira, 13 de julho de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO V

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha

  

“A vida não é filme/ você não entendeu”, mas gosto de imaginá-la com música: seja em um mero caminhar no final da tarde ou uma trivial ida ao supermercado. Cada simples ato do meu cotidiano acompanhado de uma trilha sonora. Buzinas, vozes e ruídos na minha estrada substituídos por canções. Quentin Tarantino me daria razão.  



quinta-feira, 1 de julho de 2021

CONTÉM SPOILER IV

Aquele filme que eu te falei


Confundir locais, pessoas, eventos. Oscilação de humor. Apresentar uma personalidade completamente diferente. Agressividade... Quem já conviveu com alguém que sofra de doenças neurodegenerativas dificilmente não irá se identificar com “Meu Pai” (The Father), produção que vai muito além dos clichês do gênero. Anthony Hopkins aos 83 anos de idade, premiado com o Oscar de melhor ator pelo trabalho, realizou o que certamente é sua melhor interpretação. Muito se falou da sequência final, que é arrebatadora – sem dúvidas. Mas vê-lo fingir que não esqueceu, tentando entender e se adequar a um universo particular cada vez mais caótico, me atingiu de uma maneira que eu não imaginava. 


segunda-feira, 21 de junho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO IV

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

(Julho, 2020)

Sempre busquei a inquietude, o desassossego. Acostumar-se me parecia uma sentença fatal, era algo a ser evitado. Mas de alguma maneira fomos todos obrigados a nos acostumar com a presença inevitável dessa pandemia. Quando entendi isso, gradativamente todos os sintomas começaram a cessar e aos poucos pude retomar o prazer da leitura, da música, dos filmes... A vida voltava a fazer um pouco de sentido.



(Agosto, 2020)

Curiosamente, na minha infância não havia festas de aniversário, nem minhas nem de amigos. Não consigo lembrar de ter ido a nenhuma (desconheço a existência de registros fotográficos em alguma festinha dos anos de 1980 que possam me contradizer). Em minha casa nunca teve, era apenas mais um dia comum. O que era falta de opção, quando adulto, se tornou opção – e mesmo contrariando o desejo de pessoas queridas, e avesso a surpresas, nunca permiti que algum aniversário meu fosse comemorado. No entanto, hoje tudo o que eu queria era a companhia dos meus amigos, familiares e abraços de parabéns. 


terça-feira, 15 de junho de 2021

NO TOCA-FITAS DO MEU CARRO IV

Porque sou o meu próprio Mariozinho Rocha 

 

Tem dias que a vontade de desistir me afaga; em outros, a persistência prevalece e a noite me convida para dançar ao som do sueco Albin Lee Meldau. E seguimos. 


quarta-feira, 9 de junho de 2021

VIRADA DE PÁGINA III

Papel jornal, couché, off-set, polén, reciclado, kindle ou pdf
 
 
Segundo pesquisas realizadas no Japão, um em cada quatro homens solteiros no país nunca teve relações sexuais – número que só vem aumentando. Esse fenômeno é muito bem exposto no mangá-documentário VIRGEM DEPOIS DOS 30 (Editora Pipoca e Nanquim, 2019). Se o início chega a ser cômico os tipos apresentados, extremamente grotescos, aos poucos o riso fácil vai dando lugar à reflexão. Os sentimentos aos oito homens documentados variam entre a piedade e a indignação, mas jamais à indiferença. Em uma sociedade tão competitiva quanto a japonesa sobreviver sendo uma pessoa abaixo dos padrões estéticos e intelectuais impostos não é tão simples como acreditamos que poderia ser. 
 
 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

SOCIAL DISTANCIAMENTO III

Diários da pandemia ou notas perdidas nas páginas ociosas de uma velha agenda

 
 
 

(Maio, 2020)

A dormência e os formigamentos agora têm a companhia de suores, vertigem, palpitações, tremores na face, indigestão, sensação iminente da morte e sufocamento. Em um mês utilizo o plano de saúde mais do que nos últimos vinte anos: cardiologista, neurologista, alergologista, gastroenterologista, urologista, oftalmologista, angiologista, oncologista e mais uma bateria de exames sem resultados anormais. 
 
Stress, depressão, transtorno de ansiedade social, síndrome de Burnout, do pânico, do impostor, fobia social. “Quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito”


(Junho, 2020)

“É São João, e eu aqui tão só”


quarta-feira, 2 de junho de 2021

CONTÉM SPOILER III

Aquele filme que eu te falei
 

Aprendi com um grande músico que não importa que o show tenha sido morno, o final deve ser arrebatador (“pra você e eu e todo mundo cantar junto”). Acredito que o mesmo não se aplica ao cinema, uma boa conclusão jamais substituirá uma jornada “morna”, apenas dará ao espectador a convicção de que realmente tinha tudo para ser melhor. No entanto, quando um bom final encontra um bom filme a experiência é completa. No dinamarquês “Druk – Mais Uma Rodada”, temos um desses momentos. O último frame é perfeito, um voo congelado, sem rumo, um “vamos nos permitir”. E eu que sempre considerei bobagem aplaudir uma sessão de cinema, creio que dessa vez não resistiria.

 

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