Costumo ler no ônibus, enquanto vou ao trabalho. Diferentemente dos meus colegas de viagem, que já embarcam temerosos, leio tranquilamente – sem me importar com o imprevisível. Durante duas dessas ocasiões comecei e terminei a leitura de “PATTY DIPHUSA”, do cineasta Pedro Almodóvar. Uma série de contos publicados originalmente na revista espanhola “La Luna” a partir de 1982 e copilados em livro em 1991 (ano em que filmou “De Salto Alto”). Impossível não imaginar aquelas histórias (e acredite que tentei) em película, provavelmente a trajetória da estrela pornográfica internacional Patty Diphusa por Madri não tivesse espaço no cinema de hoje (nem uma atriz como Victoria Abril como protagonista), talvez soasse demais como um Almodóvar de antigamente, o que já seria bem melhor do que suas últimas produções.sábado, 10 de outubro de 2009
PATTY DIPHUSA
Costumo ler no ônibus, enquanto vou ao trabalho. Diferentemente dos meus colegas de viagem, que já embarcam temerosos, leio tranquilamente – sem me importar com o imprevisível. Durante duas dessas ocasiões comecei e terminei a leitura de “PATTY DIPHUSA”, do cineasta Pedro Almodóvar. Uma série de contos publicados originalmente na revista espanhola “La Luna” a partir de 1982 e copilados em livro em 1991 (ano em que filmou “De Salto Alto”). Impossível não imaginar aquelas histórias (e acredite que tentei) em película, provavelmente a trajetória da estrela pornográfica internacional Patty Diphusa por Madri não tivesse espaço no cinema de hoje (nem uma atriz como Victoria Abril como protagonista), talvez soasse demais como um Almodóvar de antigamente, o que já seria bem melhor do que suas últimas produções.terça-feira, 6 de outubro de 2009
NOTAS DE UM POEMA
O primeiro poema que consegui escrever em Salvador foi “lembranças de donzelas do tempo do Imperador”, algum tempo depois de ter me mudado, tomando emprestado como título um verso de uma canção de 1941 de Dorival Caymmi, “Você Já Foi à Bahia” (recurso semelhante utilizado por Caetano Veloso em “Terra”). Na canção, Caymmi exalta uma Salvador idealizada, nostálgica, quase folclórica; um convite à uma cidade que só conheci em cartões-postais. Em 2008 o poema fez parte do livro “CINEMA”, Prêmio Braskem Cultura e Arte, recentemente alguém apontou um parentesco com o “Poema do Beco”, de 1933, de Manuel Bandeira, que se existe não foi intencional. Enquanto Bandeira se solidarizava com a gente humilde do Rio de Janeiro, meus versos apenas expressavam o descontentamento e a solitude.
“lembranças de donzelas
do tempo do Imperador”
Herculano Neto
da janela do meu apartamento
vejo outras janelas de apartamento
janelas fechadas
cortinas
um muro
aviões
da janela do meu apartamento
eu não vejo a Bahia.
“lembranças de donzelas
do tempo do Imperador”
Herculano Neto
da janela do meu apartamento
vejo outras janelas de apartamento
janelas fechadas
cortinas
um muro
aviões
da janela do meu apartamento
eu não vejo a Bahia.
***
Poema do Beco
Manuel Bandeira
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
Poema do Beco
Manuel Bandeira
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FAÇO DO MEU BLOG PÁGINA DE DIÁRIO
Dizem por aí que ando sumido, que não telefono sequer para dizer que não vou – não sei, talvez seja verdade. Outro dia alguém perguntou como eu estava, meio intolerante respondi para ir ao meu blog. Fui deselegante não pela pergunta, aparentemente trivial, mas pelo tom maligno da voz, cheia de veneno e cinismo (impossíveis de reproduzir aqui). Resolvi então dar uma passada por meu blog para saber como eu estava, porém não encontrei nenhuma resposta fácil. Se a pessoa realmente seguiu meu conselho ficou ainda mais confusa. Já tive uma urgência muito grande, uma necessidade de transformar, de estar em todos os lugares, hoje não carrego mais utopias (meus herois morreram de overdose e meus sonhos na mesa do bar). Só quero cultivar minha paciência, regar meu bonsai toda manhã, adormecer escutando Céu no gramado do Dique do Tororó e vez ou outra pedir um conhaque de alcatrão com limão e mel pra aquecer a madrugada. “Sim, o que me importa nesse instante é esse não me importar constante” – como dizia um velho roqueiro baiano. Para quem interessar não estou longe, estou mais perto do que possam imaginar. O que eu busco não é a distância, é o encontro; mesmo que para isso eu precise hibernar.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
QUERIDA WENDY (DEAR WENDY)
Querida Wendy, Dinamarca 2005, tem direção de Thomas Vinterberg e roteiro de Lars von Trier (que abandonou a direção de Dear Wendy para se dedicar a Manderlay). No filme o jovem Dick compra por acaso um pequeno revólver e juntamente com outros “excluídos” funda um contraditório clube baseado no pacifismo e na posse de armas. Esteticamente lembra um pouco “Dogville”, principalmente a cidade Estherslope e seus peculiares habitantes, embora seja bem menos pretensioso e descontraído. Atenção especial para a excepcional trilha sonora, com clássicos do grupo inglês The Zombies. quinta-feira, 24 de setembro de 2009
GESTOS
GESTOS*
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)
E deixe a valsa, e deixe o samba,
E deixe aquela canção antiga que não me cansa,
Ouvindo-a posso sentir comigo seus vestígios,
Os seus domínios, os seus encantos.
E deixe o barco, e deixe a ilha,
E deixe uma lembrança bonita que não ansia,
Lembrando-a posso preencher com gestos meus vícios,
Os meus princípios, meus acalantos.
Não deixe a mágoa,
Não deixe a ira,
Não deixe a volta,
Não deixe a ida
Que eu deixo a vida seguir seu destino.
E deixe o sonho,
E deixe o instante,
Deixe o encontro,
Deixe o constante,
Que eu deixo a vida moldar o meu destino.
(Roberto Mendes/ Herculano Neto)
E deixe a valsa, e deixe o samba,
E deixe aquela canção antiga que não me cansa,
Ouvindo-a posso sentir comigo seus vestígios,
Os seus domínios, os seus encantos.
E deixe o barco, e deixe a ilha,
E deixe uma lembrança bonita que não ansia,
Lembrando-a posso preencher com gestos meus vícios,
Os meus princípios, meus acalantos.
Não deixe a mágoa,
Não deixe a ira,
Não deixe a volta,
Não deixe a ida
Que eu deixo a vida seguir seu destino.
E deixe o sonho,
E deixe o instante,
Deixe o encontro,
Deixe o constante,
Que eu deixo a vida moldar o meu destino.
*Faixa extraída do DVD
“Tempos Quase Modernos”
Gravado ao vivo no Teatro XVIII
Salvador, 2006
“Tempos Quase Modernos”
Gravado ao vivo no Teatro XVIII
Salvador, 2006
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
CINEMA
CINEMA
Herculano Neto
Herculano Neto
“Você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade”.
P. Leminsky
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade”.
P. Leminsky
cresci numa cidade
onde não havia mais cinemas
as cenas aconteciam nas ruas
nas gentes
projetadas a esmo
personagens felinianos
se sucediam
nas seqüências
da minha infância
cresci numa cidade
onde não havia muita coisa
apenas história pra contar
onde não havia mais cinemas
as cenas aconteciam nas ruas
nas gentes
projetadas a esmo
personagens felinianos
se sucediam
nas seqüências
da minha infância
cresci numa cidade
onde não havia muita coisa
apenas história pra contar
terça-feira, 15 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
DIRETAMENTE DA MESA DO BAR
Na próxima semana um grupo formado por críticos, cineastas e distribuidores divulgará oficialmente o nome do filme brasileiro que será candidato a candidato na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Assim como no último ano, quando Walter Salles se recusou a inscrever o ótimo “Linha de Passe”, a maior ausência agora é de “À Deriva”, de Heitor Dhalia (alguém pensou em Daniel Filho?). O último concorrente do país foi “Central do Brasil”, em 1998. Abaixo a lista dos concorrentes divulgada pelo Ministério da Cultura, segundo seus critérios nacionalistas:
"A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele
"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff
"Budapeste", de Walter Carvalho
"Feliz Natal", do ator Selton Mello
"Jean Charles", de Henrique Goldman
"O Contador de Histórias", de Luiz Villaça
"O Menino da Porteira", de Jeremias Moreira
"Salve Geral", de Sérgio Rezende
"Se Nada Mais der Certo", de Eduardo Belmonte
"Síndrome de Pinocchio - Refluxo", de Thiago Moyses.
"A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele
"Besouro", de João Daniel Tikhomiroff
"Budapeste", de Walter Carvalho
"Feliz Natal", do ator Selton Mello
"Jean Charles", de Henrique Goldman
"O Contador de Histórias", de Luiz Villaça
"O Menino da Porteira", de Jeremias Moreira
"Salve Geral", de Sérgio Rezende
"Se Nada Mais der Certo", de Eduardo Belmonte
"Síndrome de Pinocchio - Refluxo", de Thiago Moyses.
***
A simples especulação da capital pernambucana ser incluída na turnê de Paul McCartney, em abril de 2010, entrou sem cerimônias no Top Five de POR QUE NÃO MORAR EM SALVADOR, ocupando o 5º lugar, posição que pertencia aos ensaios de verão. ***
Meus herois morreram de overdose; os de Pedro Bial são pseudocelebridades; os dos narradores esportivos são os que alcançarem o alto do pódio no final de semana; os do McDonalds nem precisam usar capa, basta ajudar a vender aquilo que eles chamam de comida; outros tantos estampam camisas. Uma família subsistir com menos de cem reais por mês é pôster no quarto de quem? ***
Não consigo entender quem organiza a própria festa de aniversário, deve ser algum tipo de carência ou medo de ser esquecido, se a festa for temática pior ainda. Consigo tolerar crianças fantasiadas soprando velinhas, mas não adultos (vergonha alheia é algo que não me abandona). Odeio “parabéns pra você” e outras cantigas supostamente engraçadinhas, todo aquele ritual me enoja. E desprezo quem esconde a própria idade atrás de subterfúgios e eufemismos infantis, como dizer que completou 4.7 feito um aparelho eletrônico de última geração. Desconheçam minha data de nascimento e se não for possível ignorem – é o melhor presente que posso receber. E não me convidem para festas de aniversário. ***
O filho de Érico Veríssimo atacou de professor de gramática em sua coluna nos jornais de domingo ao afirmar que o pré-sal deveria se chamar pós-sal, porque a perfuração ocorrerá de cima para baixo, havendo ali um evidente erro de semântica. Só que o mesmo artigo denomina-se, em letras garrafais, PEQUENOS DETALHES. Até onde eu saiba todo detalhe é pequeno, logo o título é bem mais do que um pleonasmo – é mera redundância. ***
Documentários musicais são a bola da vez do cinema brasileiro. Figuras como Caetano Veloso, Wilson Simonal, Titãs, Batatinha, Herbert Vianna, Cartola, Arnaldo Batista (e até Waldick Soriano) já encontraram seu lugar na tela grande. Espero somente não me deparar com nenhum cartaz de “Em Breve” com a imagem do Dj Marlboro ou de alguma cantora de música para dançar fabricada na Bahia. ***
Sem nunca ter escrito um livro o ex-presidente (clichê necessário) Fernando Collor de Melo foi eleito para a Academia Alagoana de Letras. Se tivesse escrito algum, o Prêmio Nobel seria pouco. ***
Ultimamente o substantivo inexpressivo “coisa” tem desnecessariamente me incomodado. Na suposta ausência de palavras ou por simples preguiça emprega-se “coisa” em quase tudo: “foi a melhor coisa que li este ano”; “que coisa linda”; “a única coisa que prestou naquele show”... Não respondo quando desconhecidos me abordam na rua chamando-me de “coisinho” e não gostaria jamais de escutar de quem amo algo como “você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”. Êta papo qualquer coisa.Traz a conta.
sábado, 5 de setembro de 2009
BEIRUT EM SALVADOR II
Na noite de 04 de setembro, no Teatro Castro Alves, aconteceu o tão esperado show do grupo americano Beirut em Salvador, no 16º Panorama Percussivo Mundial – o Percpan. Ainda na entrada, observando aquela juventude de comercial de creme dental, me senti um pouco fora do ninho. Não sou nenhum entusiasta do sistema de cotas, mas era possível contar os negros presentes com os dedos da mão direita, cheguei a desconfiar que tinha atravessado um portal e que não estava mais na Bahia. Dentro do teatro, a cada atração que se apresentava capitaneada competentemente pelo músico Marcos Suzano, aumentava a ansiedade. Enquanto isso, parte do público parecia mais interessada em brincar com seus celulares e câmeras fotográficas, ignorando as advertências iniciais com seus braços estendidos deselegantemente, como se fosse bem mais interessante assistir ao show depois na tela do computador do que no calor do momento. Enfim, após longas três horas de expectativas, o Beirut entrou em cena demonstrando uma qualidade sonora rara no cenário da música atual. O que ninguém imaginaria era que seu vocalista e trompetista, Zack Condon, empunhando um cavaquinho e num português trôpego e visivelmente embriagado, quebraria todos os protocolos ao pedir que a platéia abandonasse seus assentos após a segunda canção e se aproximasse da banda, transformando o solene Teatro Castro Alves numa festiva Concha Acústica, prato cheio para a molecada presente, que inacreditavelmente não era pouca, deixando seus pais esperando pacientemente sentados, e que culminou numa invasão consentida ao palco e no furto de um microfone e um instrumento musical. A histeria juvenil era tamanha que por um instante pensei estar num show da Hannah Montana. Marmanjos choravam copiosamente durante a execução de “Elephant Gun”, espero que relembrando Capitus perdidas pelo caminho, e meninas se descabelavam como numa nova beatlemania, até o arcaico gestual de simular guitarras deu lugar a cômicos trompetes imaginários e solfejos. Se me senti um estranho no ninho na entrada pior me senti na saída, afinal já faz algum tempo que não tenho mais 15 anos. Tentando evitar uma confusão maior a produção convidou Zack Condon a encerrar sua apresentação durante o bis e ele, no seu português ébrio e sem nunca encarar o público proferiu melancolicamente a sentença:
- Eu não posso cantar mais, boa noite.
E ainda tive que suportar o descontentamento do taxista, que detesta fazer corridas curtas.
- Eu não posso cantar mais, boa noite.
E ainda tive que suportar o descontentamento do taxista, que detesta fazer corridas curtas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
O SILÊNCIO
– Prefiro o primeiro disco - foi a frase feita que ele disse, com aquele ar superior característico. Como se o disco de estréia dos Beatles, Raul Seixas, Titãs ou Los Hermanos tivesse sido sensacional. Experimentei perguntar sobre uma banda desconhecida de pós-punk-psicodélico do sul da Finlândia e ouvi uma resposta meio blasé:
– Já vi o clipe.
A MTV, assim como o Google, terminará nos fodendo – pensei.
– Qual som você curte? – ele perguntou numa inversão abrupta de papéis. Respondi que não gosto de muitas coisas. Não gosto de vídeo-clipe, principalmente vídeo-clipe com atores de novelas, por melhor que seja a canção aquelas imagens me ensurdecem. Não gosto de versões; releituras; show tributo; acústico; ao vivo; coletâneas; playback em programa de auditório; nova formação; parada de sucessos; flashback; o fenômeno do momento... Gosto apenas do silêncio. E silenciamos.
– Já vi o clipe.
A MTV, assim como o Google, terminará nos fodendo – pensei.
– Qual som você curte? – ele perguntou numa inversão abrupta de papéis. Respondi que não gosto de muitas coisas. Não gosto de vídeo-clipe, principalmente vídeo-clipe com atores de novelas, por melhor que seja a canção aquelas imagens me ensurdecem. Não gosto de versões; releituras; show tributo; acústico; ao vivo; coletâneas; playback em programa de auditório; nova formação; parada de sucessos; flashback; o fenômeno do momento... Gosto apenas do silêncio. E silenciamos.
Mas já era tarde.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
PARA NINAR O MEU AMOR*
PARA NINAR O MEU AMOR*
Herculano Neto
ando farto do quase
do meio-termo
das boas maneiras
do mais ou menos
e do pode ser dito de
canto de boca
(do talvez não quero saber)
ando farto de lugares-comuns
e olhares esquivos
das cartas marcadas
e do disse-me-disse
das galerias
ando farto de
finais felizes
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
Herculano Neto
ando farto do quase
do meio-termo
das boas maneiras
do mais ou menos
e do pode ser dito de
canto de boca
(do talvez não quero saber)
ando farto de lugares-comuns
e olhares esquivos
das cartas marcadas
e do disse-me-disse
das galerias
ando farto de
finais felizes
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
SE VOCÊ VIER ME PERGUNTAR POR ONDE ANDEI
Há exatamente quatro anos estive num show do Belchior (no dia 27 de agosto de 2005, no Teatro ACBEU em Salvador). Acompanhado por apenas dois violonistas ele exibiu suas canções, e algumas surpresas, descontraidamente. Ao final o cumprimentei e ofereci dois discos para serem autografados. Se o seu “desaparecimento” é mero marketing ou se realmente ele se cansou de tudo e foi viver na natureza selvagem para mim pouco importa. Amar e mudar as coisas me interessam mais.
sábado, 15 de agosto de 2009
NA NATUREZA SELVAGEM
terça-feira, 11 de agosto de 2009
NÃO TENHO TWITTER!
Resumir trivialidades em no máximo 140 caracteres, infestadas de abreviações e abreviaturas ininteligíveis, talvez seja o modismo mais desnecessário que a Internet produziu até agora (e olhe que a concorrência não é pequena). Isso não é síntese, concisão. É ruído. José Saramago declarou recentemente que o Twitter é mais uma evidência que o ser humano caminha para o grunhido, assim como o escritor português, que certamente não troca você por vc nem pronuncia cê, não tenho Twitter nem participo de qualquer tipo de rede de relacionamento virtual. Quem quiser saber como estou pode telefonar quando quiser ou bater à minha porta. Também aceito cartas.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
A NOITE
A NOITE*
Herculano Neto
passo noites inteiras
admirando os quadros
pintura abstrata
auto-retrato
passo noites inteiras vagando
de um lado ao outro da casa
olhando as paredes desbotadas
contando as gotas na vidraça
passo as noites
procurando pelos cantos
um resto de alguém
que a vassoura não levou
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
Herculano Neto
passo noites inteiras
admirando os quadros
pintura abstrata
auto-retrato
passo noites inteiras vagando
de um lado ao outro da casa
olhando as paredes desbotadas
contando as gotas na vidraça
passo as noites
procurando pelos cantos
um resto de alguém
que a vassoura não levou
*(do livro “CINEMA”, Prêmio Brakem Cultura e Arte 2007)
terça-feira, 4 de agosto de 2009
TRANCELIM DOS INCRÉDULOS
Tive a honra e a felicidade de debutar em livro ao lado de Miguel Carneiro, em 2004 na antologia OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI. Juntamente com o escritor conheci a pessoa e desde então minha admiração por ambos se mantém crescente. Homem de valores raros, tento, sem muito sucesso, absorver um pouco. Uma queixa recorrente que Miguel amiúde faz é que pouco nos encontramos, mesmo habitando a mesma cidade média - talvez em decorrência de minha personalidade arredia, não sei. Numa dessas oportunidades ele me presenteou com seu livro TRANCELIM DOS INCRÉDULOS (Ed. Virtual Books), um conjunto de “apenas” três contos (Trancelim dos Incrédulos, Galo de Ouro e Naquele Dia eu vi o Diabo de Perto). Se posso reclamar de algo é que a publicação é demasiadamente curta, tende-se a querer ler tudo num só fôlego e o desejo de mais não se evapora com facilidade ao transpor suas 56 páginas. Com sua prosa rica Miguel nos conquista com suas expressões populares e personagens carismáticos que são ótimos contadores de história, valorizando sempre a oralidade do nosso povo. Fica a vontade de ver um dia, dignamente reunidas, a poesia, ficção e dramaturgia de Miguel Carneiro num merecido tomo de obras completas. sexta-feira, 31 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
ERASMO CARLOS: 50 ANOS DE MÚSICA
Erasmo Carlos lançou recentemente um disco intitulado ROCK ‘N’ ROLL – título mais do que auto-explicativo. É seu primeiro trabalho de inéditas (e sem nenhuma suposta parceria com Roberto Carlos) desde 2004 e tem o mérito de não soar retrô entre baladas, blues rock e country. É um disco surpreendentemente contemporâneo, agradável, bem humorado e bem executado. Canções como "Cover de Mim" e "Olhar de Mangá" são, certamente, bem mais interessantes que qualquer exagero requentado. Erasmo também completou 50 anos de música, não houve apresentações festivas pelo país nem programas de tv, talvez alguma menção no suplemento cultural dos jornais. Imagino apenas o Tremendão de preto empunhando sua guitarra e um repertório pouco óbvio no show Elas Cantam Erasmo com Ângela Rorô, Pitty, Rita Lee, Mallu Magalhães, Elza Soares, Céu, Marina Lima... Ao invés de brincar com sua própria caricatura emulando emoções ele cantaria languidamente "não leve a mal se eu lhe disser: a guitarra é uma mulher".
sábado, 25 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
SÓ
sexta-feira, 17 de julho de 2009
“FOTOGRAFEI VOCÊ NA MINHA ROLLEYFLEX”
Quem é o parceiro de Tom Jobim em “Desafinado”?
Essa típica pergunta de programa de auditório tem como resposta Newton Mendonça. Pianista e compositor carioca, conheceu Tom Jobim ainda na juventude, na histórica Rua Nascimento Silva, no Rio de Janeiro, juntos tocavam em boates noturnas na década de 50 e fizeram poucas, mas memoráveis canções (como “Discussão”, “Samba de uma nota só”, “Incerteza” e “Meditação”). “Foi a Noite”, gravada por Silvinha Telles em 1956, é considerada por alguns especialistas como o marco inicial da bossa nova – logo o tão alardeado 50 Anos de Bossa Nova deveria ter acontecido dois anos antes ou ter se chamado 52 Anos de Bossa. Newton Mendonça foi um dos mais importantes compositores surgidos no Brasil, porém sua personalidade arredia, o descaso e as omissões fizeram com que ele se tornasse desconhecido, além da disseminação do mito de que ele era “somente” letrista. Com Tom Jobim música e letra eram feitas juntamente, revezando-se os dois entre o piano e o caderno. Segundo Marcelo Câmara, autor da biografia sobre Newton Mendonça, “Tom só é vanguarda com Newton. Sem ele é apenas samba canção”. Se com o primeiro parceiro Tom compôs “Só saudade, foi o pouco que ficou”, com Vinicius de Moraes decretava: “Chega de Saudade” – era um novo momento. Newton Mendonça gravou o disco EM CADA AMOR UMA CANÇÃO e considerava-se incompreendido pelo público e parceiros. Morreu aos 33 anos, em 1960, vítima de ataque cardíaco enquanto se apresentava numa boate no beco do Joga a Chave. Tom Jobim pouco falava sobre o parceiro obscuro, se redimiu apenas em 1993, numa entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Apaixonado por fotografia, Newton Mendonça brigou para incluir na letra de “Desafinado” o bem humorado e profético verso: “Fotografei você na minha Rolleyflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”.
Essa típica pergunta de programa de auditório tem como resposta Newton Mendonça. Pianista e compositor carioca, conheceu Tom Jobim ainda na juventude, na histórica Rua Nascimento Silva, no Rio de Janeiro, juntos tocavam em boates noturnas na década de 50 e fizeram poucas, mas memoráveis canções (como “Discussão”, “Samba de uma nota só”, “Incerteza” e “Meditação”). “Foi a Noite”, gravada por Silvinha Telles em 1956, é considerada por alguns especialistas como o marco inicial da bossa nova – logo o tão alardeado 50 Anos de Bossa Nova deveria ter acontecido dois anos antes ou ter se chamado 52 Anos de Bossa. Newton Mendonça foi um dos mais importantes compositores surgidos no Brasil, porém sua personalidade arredia, o descaso e as omissões fizeram com que ele se tornasse desconhecido, além da disseminação do mito de que ele era “somente” letrista. Com Tom Jobim música e letra eram feitas juntamente, revezando-se os dois entre o piano e o caderno. Segundo Marcelo Câmara, autor da biografia sobre Newton Mendonça, “Tom só é vanguarda com Newton. Sem ele é apenas samba canção”. Se com o primeiro parceiro Tom compôs “Só saudade, foi o pouco que ficou”, com Vinicius de Moraes decretava: “Chega de Saudade” – era um novo momento. Newton Mendonça gravou o disco EM CADA AMOR UMA CANÇÃO e considerava-se incompreendido pelo público e parceiros. Morreu aos 33 anos, em 1960, vítima de ataque cardíaco enquanto se apresentava numa boate no beco do Joga a Chave. Tom Jobim pouco falava sobre o parceiro obscuro, se redimiu apenas em 1993, numa entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura. Apaixonado por fotografia, Newton Mendonça brigou para incluir na letra de “Desafinado” o bem humorado e profético verso: “Fotografei você na minha Rolleyflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”.
terça-feira, 14 de julho de 2009
EU QUERO SER O SULTÃO NO LUGAR DO SULTÃO
sexta-feira, 10 de julho de 2009
GUY RITCHIE
Guy Ritchie certamente é bem mais que o ex de uma cantora pop e merece ser reconhecido sem definições preguiçosas e pouco inspiradas como “o novo Tarantino” ou “o Tarantino da Inglaterra”. Jovem diretor egresso da publicidade e do mundo dos videoclipes se tornou um dos mais inventivos cineastas da década passada. Roteirista brilhante, produz diálogos incríveis em sua fórmula aparentemente requentada, porém perfeita, de tramas paralelas, corte temporal e inúmeras figuras antológicas que se cruzam sem gratuidade ou desperdício de idéias. Sua linguagem visual estilizada combina edição ágil e movimentos lentos em planos inusitados, além das ótimas trilhas sonoras e personagens que já parecem nascer cults. Enfim, seu cinema consegue o que parece impossível hoje em dia: entreter sem imbecilizar (como tem insistido em fazer o cinemão americano). Com uma filmografia curta, quem ainda não viu, vale procurar por qualquer título listado abaixo – ou todos.
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES (1998)
SNATCH – PORCOS E DIAMANTES (2000)
REVOLVER (2005)
ROCKNROLLA – A GRANDE ROUBADA (2008)
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES (1998)
SNATCH – PORCOS E DIAMANTES (2000)
REVOLVER (2005)
ROCKNROLLA – A GRANDE ROUBADA (2008)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
POEMA INÉDITO
quarta-feira, 1 de julho de 2009
RAIMUNDO FAGNER - “FAZ DE CONTA” (TEMA DA NOVELA COMO UMA ONDA)
Em 2004, após uma sucessão de acasos, Fagner desejou gravar a canção “Faz de Conta”, parceria minha com o amigo e conterrâneo Roberto Mendes, no disco DONOS DO BRASIL – seu trabalho mais poético, segundo a crítica, em muitos anos. Pouco depois a faixa ganhava a programação das rádios brasileiras e era incluída na trilha da novela da Rede Globo COMO UMA ONDA. Acima, vídeo da canção com cenas da novela.
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