A equipe médica se aproxima lentamente e cabisbaixa, antecipando para quem assistia àquele cortejo o resultado – há um quê de teatral naquilo tudo que me incomoda. A informação é passada apenas por um deles, os demais evitam nos encarar, talvez temendo manifestações mais efusivas (que não vieram); logo após eles se retiram da mesma forma que apareceram, alternando entre braços cruzados e braços para trás. Observo os jalecos desaparecendo ao longo do corredor, provavelmente estou evitando participar da tragédia que se instaurou na sala, nunca soube consolar e sei que ali nenhum abraço ou palavra seria suficiente. Todo mundo que chega repete variações de “Como é possível!? Ele era tão jovem”. Jovem é a palavra que mais escutarei até o funeral.
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O protocolo de morte cerebral é demorado e desgastante, sempre imaginei que fosse um simples desligar de botões. Um tio negacionista, ao presenciar a respiração artificial, acha que pode fazê-lo despertar dos mortos aos gritos de passagens bíblicas. A assistente social tenta negociar o máximo de órgãos para doação. A psicóloga oferece mais água do que conforto.
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O séquito segue sob uma inesperada chuva torrencial rumo ao crematório, um clichê meteorológico que jamais ousaria utilizar em meus roteiros. Todos acompanham. Eu permaneço.

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