Quando minha irmã telefonou já era noite; havíamos acabado de jantar e eu estava lavando os pratos:
“Mamãe morreu!”, como se fosse a informação mais trivial possível, apenas respondi com um frio e convencional “ok”, enquanto continuava a enxaguar a louça, e desliguei. Na verdade aquela notícia era ansiada e recebê-la fora um alívio, confesso. Durante algum tempo, acreditei que era egoísmo da minha parte, que eu estava somente pensando na minha quietude e não no sofrimento dela. Em posteriores conversas com pessoas que vivenciaram experiências semelhantes, descobri que aquele era um sentimento absolutamente comum, mas pouco externado, uma espécie de silêncio comunitário.
***
Depois que enterrei minha mãe muitos pais de amigos também passaram a ser enterrados. E amigos dos meus pais e pais de vizinhos e conhecidos. Sempre que eu informava a morte de alguém, era retribuído com a notícia de uma outra morte. Ciclo natural diriam alguns; coincidência diriam outros. Um algorítimo macabro sacaneando, diria eu.

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