domingo, 13 de dezembro de 2015

DIA DE FEIRA

- Gostaríamos de convidá-lo para participar da nossa próxima feira literária, falar um pouco sobre você, sobre sua obra...

- Obrigado, mas não me interessa, creio que ainda me falta história para me expor nesse tipo de evento.

- Não seja modesto, rapaz; basta falar sobre seu processo criativo, responder algumas perguntas, ler trechos dos livros, coisa básica.

- Poderia até coletar meia dúzia de anedotas e freses de efeito para a diversão da claque, além de aproveitar para conhecer sua cidade, mas não me interessa.

- O cachê é de cinco mil. Vai dispensar?

- Não me interessa.





sábado, 5 de dezembro de 2015

ENFIM, INFINITIVOS



Escrever sempre se evidenciou como a solução mais prática, inevitável de tão óbvia. Exprimir sentimentos enclausurados deveria ser o mais eficaz antidepressivo – o medicamento melhor indicado para tanta angústia sufocada querendo gritar –, embora, corresse o risco de arregimentar outros corações incautos identificados com aquela dor pelo caminho.

E assim foi.

Mas, de repente, a manhã nasceu azul, sem instrumentos, canções, silêncios, fatalidades, solitude, aflições... Agora, prefiro amar, ignorar, esquecer, permitir, correr, gargalhar, plantar, colher, desfrutar, conhecer, relevar, resignar, distrair, libertar...

Descobri, tardiamente, que eu tenho uma porção de infinitivos para conquistar e eu não posso ficar aqui parado.





sábado, 28 de novembro de 2015

VENDO



Um futuro distópico para colorir, sem glúten ou lactose, 
com vista para o Beco do Bandeira.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

ESCREVER PARA DIZER QUE NÃO VOU ESCREVER: MEU ÚLTIMO E INEVITÁVEL PARADOXO



Tenho pensado seriamente em pendurar as chuteiras, abandonar as canetas, deixar o gramado literário sob os apupos da torcida adversária. Aposentar-me, não tenho dúvidas, seria minha decisão mais sensata em anos. 

Meu desinteresse é cada vez mais crescente. Ando sem paciência para o mercado, para editoras que se proliferam e livrarias que fecham as portas. Sem paciência para o Do It Yourself dos que querem publicar, mas não querem escrever; dos que querem escrever, mas não querem ler. Sem paciência para noite de autógrafos com uma claque de escritores (os mesmos escritores) que necessitam ser lembrados. Sem paciência para troca de gentilezas em suplementos culturais. Sem paciência para mesas literárias abarrotadas de egos que não economizam na frase feita. Sem paciência para a pose da foto e o release cabotino do marketing pessoal. 

Possuo uma prateleira apenas com obras que ainda não foram lidas, dedicarei minha aposentadoria a ela. Num cenário onde faltam leitores e sobram escritores, talvez seja esse o meu melhor lugar: na plateia. 

Quem sabe, numa dessas recaídas provocadas por um verso que teima em habitar o papel, eu escreva um poema e envie por Whatsapp... Para um contato que não existe mais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

SAVEIROS DE PAPEL

Paulo Leminski já nos eximiu de certo ranço hermético ao nos apresentar uma poesia simples e não simplista; coloquial e não menos inquietante. Mostrou que é possível provocar com versos curtos, que é possível mergulhar na superfície, ir além da pedra. Ser moderno não é modismo, é uma consequência natural do seu tempo, é aceitar, sem receios, a areia que se esvai em sua ampulheta, é decidir entre querer ser ou parecer e não tentar soar feito algo que não lhe pertence (Allen, meu velho, meia-noite não é apenas em Paris). Deixar a emoção em primeiro plano requer coragem, trazer o coração nas mãos, a cara pra bater, não é para qualquer ajuntador de estrofes. Ecos da poesia marginal pululam aqui e ali, seja na forma, no humor, na verve irônica e absolutamente refinada, no verso certeiro, objetivo, que golpeia, que te põe desnorteado, que te obriga desesperadamente a um clinch. A poesia de Dado Ribeiro Pedreira é para ser consumida sem moderação. Sua poética é para ser vivida, degustada, curtida até a última ponta, até a última dose.

Texto produzido para outros fins, mas que se tornou a orelha da belíssima estreia literária do comparsa Dado Ribeiro Pedreira.

SAVEIROS DE PAPEL pode ser adquirido AQUI
 
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