terça-feira, 16 de dezembro de 2014

MELHORES FILMES 2014

Esta talvez tenha sido uma das piores temporadas de cinema que já acompanhei, se antigamente havia dificuldade para listar os melhores filmes, este ano seguiu o caminho inverso: faltaram títulos para preencher uma simples relação. Muitos foram os finais de semana (que convenientemente agora começa na quinta) sem nenhuma estreia significativa, apenas comédias nacionais com cara de especial de TV e futuros distópicos com jovens tentando salvar o que ainda nos resta de mundo. Enquanto a raça humana não foi completamente exterminada, foi possível encontrar algumas opções: disfarçado de romance futurista, Spike Jonze cumpriu o que dele era esperado com ELA, assim como Wes Anderson e o seu delicioso O GRANDE HOTEL BUDAPESTE – decepção apenas com Lars von Trier em NINFOMANÍACA e Christopher Nolan em INTERESTELAR. Já Richard Linklater fez 2014 valer a pena com a sua obra-prima BOYHOOD, não tenho dúvida de que será lembrado, revisto e estudado durante muitas gerações. O cinema local produziu bons filmes, como O LOBO ATRÁS DA PORTA, O HOMEM DAS MULTIDÕES ou o belíssimo HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, o problema foi encontrá-los nos cinemas, ao contrário de uma produção xing ling que nem merece ser chamada de filme estrelada por Regina Casé, que ocupou quatrocentas e cinquenta salas de cinema no Brasil. Entre os nossos vizinhos destaque para o paraguaio 7 CAIXAS e o sensacional argentino RELATOS SELVAGENS. O francês O PASSADO, o romeno INSTINTO MATERNO e o japonês PAIS & FILHOS foram surpresas agradáveis para um ano cheio de expectativas frustradas. E a performance acachapante de Jake Gyllenhaal em O ABUTRE talvez tenha sido o último momento interessante da temporada. Agora, vou aproveitar o que ainda me resta de 2014 antes que o próximo filme com Leandro Hassum interpretando o mesmo personagem não sequestre a maior parte das salas de cinema disponíveis no país.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

EPÍGRAFE



Rosamund Pike
épigraphe

les épigraphes sont parlantes
ne se cachent pas

l’épigraphe c’est toi sous la plume de l’autre
c’est le vers en plein dans le but
la référence
la déférence
la bénédiction

les épigraphes sont traîtresses
décoratives
superflues

les épigraphes sont médisantes
prétentieuses
tendancieuses

les épigraphes sont autosuffisantes
les épigraphes sont des épitaphes


epígrafe
epígrafes dizem mais
não se escondem

a epígrafe é você na pena do outro
é o verso certeiro
a referência
a deferência
a bênção

epígrafes são traiçoeiras
decorativas
desnecessárias

epígrafes são maledicentes
pretensiosas
tendenciosas

epígrafes são autossuficientes
epígrafes são epitáfios


*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

 




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

PORMENORES

pormenores*
(Herculano Neto)

a infância foi uma manhã 

                                de sol

há tempos que sou
noite de rugas e cabelos brancos

a infância passou
sem nuvens

quase madrugada




*poema integrante de A CASA DA ÁRVORE

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

OS MISSIVISTAS

Um amigo escritor iniciou um papo contra as mídias digitais, alegou que tudo é muito veloz, fútil, desnecessário; que não se documenta mais nada, que tudo se perde no oceano da web; que se abandonar sua caixa de entrada por algum tempo tudo é excluído automaticamente; que muitas biografias se fundamentam, principalmente, pela correspondência trocada pelo biografado... Enfim, toda uma ladainha preambular para propor que trocássemos cartas nos moldes tradicionais: papel, caneta, envelope e selo. Argumentou que poderíamos expor, sem medo da censura do nosso tempo, todas as nossas mais reprimidas ideias e que talvez o futuro nos agraciasse com a publicação dessa correspondência, como Mário de Andrade e Carlos Drummond. Prosseguiu, entusiasmadamente, que Fulano e Beltrano, dois conhecidos escritores locais, já faziam isso há alguns anos. Com muito tato e elegância, declinei do convite. Ele pareceu não se importar com a minha recusa, confessou que tinha convidado, através do Feicebuque, uma jovem escritora ascendente, mas ela ainda não havia respondido.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SINOPSE

Chiara Mastroianni
synopse

je suis fait d’hypothèses :

la plus probable est celle qui
me dément le mieux

la plus cruelle est celle qui m’explique
le mieux

je suis fait d’équivoques
contradictions
convictions
papillons

je suis une bougie allumée
dans la nuit des angoisses




sinopse

sou feito de hipóteses:

a mais provável é a que
melhor me desmente

a mais cruel é a que melhor
me explica

sou feito de equívocos
contradições
convicções
borboletas

sou vela acesa
na noite das angústias


*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

segunda-feira, 21 de julho de 2014

NA LIVRARIA CULTURA

Os livros de Herculano Neto, SALVADOR ABAIXO DE ZERO (contos) e A CASA DA ÁRVORE (poesia), podem ser encontrados no site da Livraria Cultura, link abaixo:



 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

PORMENORES


 
a infância foi uma manhã
                                de sol


há tempos que sou
noite de rugas e cabelos brancos


a infância passou
sem nuvens


quase madrugada 






*POEMA INTEGRANTE DE "A CASA DA ÁRVORE"

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O INFAME DA VILEZA

Escritores tendem a se achar semideuses, a única Pepsi-Cola do Jardim de Alah, o pote de ouro no final do arco-íris (muitas vezes se acham o próprio arco-íris) mesmo quando não publicaram nenhuma nota de rodapé, mas isso é o que menos importa, para um escritor é comum acreditar que um dia serão descobertos, compreendidos, cultuados; serão figurinhas fáceis em feiras literárias, terão trechos recitados por Tony Ramos no Fantástico, obras adaptadas para cinema e TV, darão opinião sobre-tudo-e-qualquer-coisa mais do que Caetano Veloso. E se a vida, essa pequenez divina, não os contemplar a tempo, restará a posteridade póstuma, quando serão estudados pelas melhores faculdades, pelas mais brilhantes cabeças pensantes do futuro. Outra característica do escritor é desmerecer o trabalho alheio: só ele escreve bem, o resto chafurda na mediocridade, e quando o colega é realmente bom não passa de um copiador barato, um repetidor de cânones consagrados. Resumindo, escritor no Brasil é um chato de galochas. Sempre que me acho melhor do que realmente sou, abandono minha Bic e vou secar a louça, repor a despensa, limpar os armários: genialidades de pessoas comuns.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

COM DEFEITO DE FÁBRICA

      Nasci com saudade, meu defeito de fábrica. E de saudade estão contaminados os poemas de "A Casa da Árvore". Saudade, inclusive, do que não vivi.
      Sempre fiz poesia, ou deixei que a poesia me fizesse, que moldasse minha escrita, minha necessidade de exteriorizar sentimentos, uma inquietação juvenil que o tempo se encarregou de dizer o que é página de diário, letra de música, poesia ou incinerador. Muitas ideias ficaram pelo caminho, projetos que não foram adiante, poemas que envelheceram mal nas gavetas, que perderam o sentido, que não faziam sentido. O que sobreviveu virou CINEMA, minha primeira publicação solo e atrevimento poético. Naquela época, embora não fosse mais tão menino assim, cultivava algumas pretensões e ansiedades típicas de iniciante, um desejo de querer dizer tudo que eu acreditava ser essencial. Ali, a infância já era um tema que tingia de saudade quase todo o livro.
        Em A CASA DA ÁRVORE reencontro a infância. Só que dessa vez a observo de longe. Dividido em três partes ou três lares (Casa de Retalhos, Casa de Espelhos e A Casa da Árvore), reúne o que produzi de relevante, na minha caótica opinião, nos últimos anos. Pouco escrevo poesia, às vezes passo meses e mais meses sem nada escrever. Ao contrário da minha obra de ficção, que tenho o completo domínio do parar e iniciar, minha poesia é quem me comanda. Parece clichê, provavelmente até seja, mas poesia é de dentro pra fora. Sua feitura é diferente. É dolorosa. Na primeira parte, Casa de Retalhos, trago os poemas postados no meu blogue, com pontuais modificações nos títulos, palavras e até na inclusão, exclusão e ordem dos versos. Desde o início, o plural “retalhos” parecia ser a escolha mais óbvia para designar o capítulo, mas ao ver todos aqueles textos agrupados, notei que havia uma unidade, um desassossego, uma melancolia.  Na revisão final “retalhos” permaneceu. Percebi que na minha memória afetiva “retalhos” sempre foi singular. A segunda parte, Casa dos Espelhos, é a menor e a que mais me deu prazer em produzir, pois pude retomar, com um saudável distanciamento, poemas antigos através das traduções realizadas, e publicadas, pelo amigo Pedro Vianna na França (“Arrumando as Malas”, de OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI, 2004; “Os Outros”, de SOB PRESCRIÇÃO, 2006; “Malícias”, inédito; “Versos Excluídos”, “Sinopse”, “Ironia”, “Um Miserável a ver navios” e “Pano de Boca”, de CINEMA, 2007). A última parte também denomina o livro, A Casa da Árvore, e é uma reflexão sobre a infância, sobre como dói ser criança, sobre como é equivocada a urgência de crescer, embora só percebamos isso depois, muito depois. Nesse capítulo, a saudade inflama com mais intensidade, indo de uma solitária partida de futebol de botão, passando pela casa em que crescemos e que nunca nos abandonará a até um platônico amor infantil que encontrará seu fim nas rodas de um caminhão. O mundo era menos triste/ na casa da árvore. Inevitável sentença.
      A infância não é para inocentes, mas a poesia talvez seja. Então, quero que essa inocência impregne meus versos, quero resvalar na criança que eu fui, quero que ela encontre o adulto que eu me tornei, quero que ela tenha orgulho de mim.
         Nasci com saudade, meu defeito de fábrica. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

AMIGOS EM CASA

A sua palavra comprime tantos mundos que, ao menor gesto compreensivo da sensibilidade, ela "explode" em suas mãos, em seu olhar, em sua consciência. Poeta de versos curtos e emoção intensa, cada imagem nos arrebata, em ritmo que prende a respiração e nos faz soltar um grito.
Jorge Portugal

Temerário e malcriado, ele trafega na contramão, nunca estando onde se espera. E assim surpreende com momentos de veracidade e dor pungente. Sempre dilacerado, Herculano reúne coragem e velhacaria, prosódia barata ou complicada, conforme a conveniência, tudo de caso pensado, desorientando a seu bel prazer. Me espanta o desencanto humanitário desse mestiço do Recôncavo!
Edgard Navarro

Herculano tem chumbo no sangue e isso define sua poesia: tem peso. O mais simples verso carrega toneladas de sentido, "vocação para o abismo / para o abraço". Herculano tem chumbo no sangue e isso define sua alma tal qual o chumbo correndo pelas veias de sua Santo Amaro da Purificação.
 Katherine Funke

Não sei se a árvore da casa era "pé" de cajá, grumixama ou araçá... Só sei que o tempo de sonhar, de rir, de olhar pra trança da menina, de chutar as poças d’água foi quando a criança que morava na casa da árvore queria beijar a garotinha ruiva, navegar pra ilha de Robinson Crusoé e ter um badogue feito com forquilha de goiabeira pra derrubar o sariguê que queria comer os ovos do ninho de sofrê...
Boris Azevedo

Herculano é um fatalizado pelas setas da poesia As sombras do cotidiano assolam suas retinas, que, como negativos de filme, gravam o desaninhar das metáforas escondidas nas sombras do dia: “é tarde/ e todos os clichês estão no lugar”. É impossível sair ileso das veredas que constrói o poeta. 
Georgio Rios

A CASA DA ÁRVORE
Lançamento dia 05 de junho
ICBA - Salvador - BA
A partir das 18 horas
Entrada franca
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