quinta-feira, 22 de novembro de 2012

SALVADOR, A CAPITAL NOIR DE HERCULANO NETO

 (CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR)
Matéria publicada no jornal A TARDE, 
edição de 20 de novembro de 2012, 
pelo poeta e crítico de literatura Henrique Wagner.

Há um velho palhaço pançudo que circula pela praça do Campo Grande, muito bem caracterizado, vendendo brinquedos baratos, mas com um ar de enfado terrível. Volta e meia para num ou noutro poste e acende um cigarro. Um palhaço velho, cansado, fumando e vendendo brinquedos numa das mais importantes e populares praças da Bahia. Esse palhaço, que não sei se ainda vive nesse exato momento, representa muito bem uma cidade grande mutilada por seus governantes e pelo descaso com a cultura e a educação de nossas décadas. Esse palhaço é atual. Visão cruel, impiedosa, de algo originariamente engraçado.

O novo livro de Herculano Neto, SALVADOR ABAIXO DE ZERO, é esse palhaço, é essa cidade atual. É essa Bahia sem abadá, a pele de ébano que é a alma nua do baiano do bairro da Liberdade (cidade média, diria Herculano): é essa alegria trágica e essa piada sem graça. Herculano, em seu pequeno volume de contos curtos, é um ficcionista com mão suja de papel de jornal o mais barato. Seu livro, deliberadamente pulp, é marcado por uma deliciosa linguagem jornalística, ágil, fluente, e cada um dos pequenos textos parece uma notícia. E uma notícia chocante, sobretudo quando não choca.

Primeiro a registrar, em literatura, o termo “Pituaço”, essa ortoepia inventada pelo povo para evitar a rima, num dos contos do livro. Herculano Neto é atualíssimo e atualiza seus leitores, naturalmente. Pode-se dizer, sem embargo, que Herculano é um repórter, e quase estamos diante de um jornalismo literário, mais para Hunter Thompson do que para Thomas Wolfe. Essa marca humana faz com que o leitor se identifique de imediato com o texto, a ponto de seguir uma história não só pelo que há de bem engendrado em literatura, mas pelo que há de verossímil e de utilidade pública. Um escritor é, antes de qualquer coisa, um cronista de seu tempo. O que seria da Bahia dos anos 40 e 50 sem Jorge Amado? Uma Bahia registrada por historiadores; portanto, sem a arte e o estilo de um ficcionista. Aprender sobre a Bahia com Jorge Amado é muito mais prazeroso que aprendê-la com Theodoro Sampaio ou até mesmo com José Valladares, que tinha uma escrita saborosíssima.

Baiano sem nostalgias, urbano com vista para o Recôncavo, de onde viera, Herculano Neto inscreve Salvador no rol das grandes metrópoles literárias, ao lado do Rio de Janeiro de Rubem Fonseca (antecipado por um gênio do porte de Marques Rebelo, autor de Marafa e A Estrela Sobe, dentre outros livros, quase sempre ambientados no subúrbio carioca dos anos 30 e 40; vale ainda lembrar que a primeira edição de Marafa trazia uma espécie de dicionário de carioquês em suas últimas páginas) e da São Paulo de Marcos Rey. Seus contos são citadinos, mas de passagem, uma vez que é possível sentir o pincel do santo-amarense aqui e ali. E é russo por seguir os preceitos do conto tchecoviano, com seus finais dissimulados, silenciosos.

Sua primeira pessoa é devastadora. Insere subitamente o leitor na história, no livro, no bolso. Admirável habilidade para vestir personas, ser a pessoa do texto – e todo tipo de pessoa. Se a narrativa na primeira pessoa, de um modo geral, tem fácil capacidade para aumentar a identificação do homem de cidade grande com o texto e o herói do texto, no caso de Herculano essa capacidade é catapultada com tremenda força em função da matéria compacta de que dispõe, em seus contos curtos, e da linguagem despojada de todo e qualquer maneirismo ou pessoas outras – que seriam fantasmas, em verdade; talvez de Canterville, talvez dos sonos culpados de um Scrooge.

Cruel e engraçado como os palhaços de circo que fumam, ainda fantasiados, SALVADOR ABAIXO DE ZERO inventa uma Bahia hollywoodiana para desconstruí-la com a força com que Hollywood construiu e destruiu Marilyn Monroe. Uma Bahia existente, mas revelada em sua polpa pela escrita de um brutalista literário, termo usado por Alfredo Bosi para designar o estilo do mineiro Rubem Fonseca.

Eis um livro que orgulha o baiano que tem vergonha de ser baiano, em certas ocasiões e lugares, e reinaugura uma cidade cheia de um ritmo frenético e decadente, cheia de uma literatura úmida e soturna, contrária ao sol de uma cidade que ainda tenta ser apenas litorânea.        


SALVADOR ABAIXO DE ZERO / EDIÇÕES P55 - COLEÇÃO CARTAS BAHIANAS / 
R$ 15,00 (solicite seu exemplar diretamente com o autor) / 
OU NO SITE DA LIVRARIA CULTURA

15 comentários:

  1. Muito bom!

    Parabéns!

    Tô na tocaia pra saber como consigo o livro.

    Aquele abraço!

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    Respostas
    1. Véi, eu sou aquele soteropolitano perdido em terras lusas, esqueceu?

      Se tiver alguma forma de adquirir o livro aqui, me dá um toque.

      Abraçao!

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  2. Meu querido Amigo...Gosto da sua franqueza e coragem ...o que colocas é mais que verdade em olhos claras ou escuros . Até os queridos cegos..Podem ´perceber SALVADOR ABAIXO DE ZEROOOOOOO !!! NOTA ABAIXO DE ZERO...Pois o mal cheiro que exala em cada canto da cidade suja os fará saber que trata-se de uma cidade linda porem destruída...Podemos a muitos agradecer ...Mas não os encontramos em publico ...sabem o que aqui fizeram ...e escondidos estão...è muita covardia com um só povo ...É muita falta de coragem...Um grande Abraço Pedro Pugliese

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  3. Viu?? Não disse que você é um sucesso? rs...
    Delícia ler isso, né?


    Bom dia!

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  4. Parabéns pela repercussão, Herculano! Eu quero um com autógrafo. Como faço o pagamento? Abraço!

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  5. A crítica de HW é perfeita, sem excessos, diz tudo que o livro é.

    Em tempos de presentes, amigos ocultos e afins,
    taí uma ótima dica.

    O livro é maravilhoso, pena que seja curto, recomendo.

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  6. Que bacana!!
    Parabéns, Herculano :)
    Acho que hoje à tarde consigo fazer a minha compra.

    beijoss

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  7. Velho, mais uma vez, desculpa o elogio em forma de palavrão: Puta que pariu! Preciso ler esse livro e ver essa Bahia, essa Salvador noir, através dos teus apurados olhos!

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  8. E essa coleção é linda, tenho um livro dele..escrito por Maxim Malhada - poeta que admiro.
    Parabenizo-lhe mais uma vez!

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  9. Sensibilidade do crítico. Acho que conseguiu captar bem o escritor e a escrita. Doida pra ler. Viajo, mas na volta vou atrás. Na Cultura, né? Um pra mim, outro para presentear um jornalita amigo que vai adorar ler, tenho certeza, tudo a ver com a alma e sensibilidade dele. Aliás, ele fez uma divulgação legal do lançamento. Merece. E você merece todos os parabéns. Resistente, ímpar. lúcido, talentoso e santamarense; ISSO É MUITO! :-)
    Beijos

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  10. Muito bem! Parabéns Herculano, que você continue crescendo como um sucesso, um novo autor renomado para o Brasil!
    Beijos

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  11. Meu caro,

    só não compro agora em tua mão um exemplar do livro porque tô prestes a me mudar. mas vou dar uma olhada na Cultura ainda hoje.

    Abraço.

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  12. Tá bem na fita, hein?
    Está certo. Quem é talentoso tem que ser reconhecido.
    Como eu faço para comprar direto contigo?
    bjo

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