domingo, 11 de setembro de 2011

MISTÉRIOS DA RUA ONZE

 UMA FICÇÃO

Desde que meus pais vieram do interior, vivemos na Rua 11 de Setembro, no subúrbio ferroviário de Salvador. Todas as ruas próximas, sem exceção, possuem uma data como nome (Rua 13 de Maio, 21 de Abril, 8 de Dezembro, etc), a maioria é conhecida, geralmente feriados, datas cívicas. Sempre me disseram que a que eu moro era uma homenagem a Juscelino Kubitschek, mas na lan house do Zidane, na Rua 2 de Fevereiro, pesquisando para um trabalho escolar, descobri no Wikipedia que Juscelino nasceu no dia 12 de setembro de 1902. A partir de então, fiquei sem saber se a rua ganhou realmente esse nome por causa do ex-presidente. Talvez o responsável pela nomeação estivesse mal intencionado, ou mal informado, e tenha se  aproveitado da ignorância e distração dos seus superiores para se auto-homenagear (desse modo, 11 de setembro poderia ser qualquer coisa, do nascimento do seu filho ao aniversário de casamento), ou quem sabe foi somente um deslize de quem confeccionou a placa - e que na solenidade de inauguração passou despercebidamente, com todos mais preocupados com as fotografias e as congratulações. Não sei, era, portanto, um mistério.
         Depois dos atentados de 2001, os moradores da rua começaram a ser importunados com a piada pronta: não faltava engraçadinho, se achando original, para nos chamar de terroristas, para dizer que era ali que Bin Laden se escondia, etc. Uma bobagem, mas que foi se tornando um verdadeiro inconveniente, incomodando muitas pessoas, sobretudo as mais velhas e aquelas com pouco senso de humor. Até que em 2004, antes da campanha eleitoral, um vereador do bairro candidato à reeleição conseguiu, com o auxílio de um abaixo-assinado, renomear o logradouro para Hildebrando Fonseca, em memória ao pai de um deputado federal, recém-falecido. Só que a mudança também não agradou, além de ter descaracterizado a principal peculiaridade do local.
         Com o tempo, passamos, espontaneamente, a nos referir à rua simplesmente como “Onze” (eu moro na Onze, fica perto da Onze, a padaria da Onze), inclusive a correspondência chegava com esse endereço. Mesmo assim, resolvemos fazer um novo abaixo-assinado requerendo a  denominação original, no entanto sem o apoio das autoridades, que não viam nenhum favorecimento político no ato, conseguimos apenas protocolizar uma petição na Câmara Municipal – e que ainda aguarda resposta.
         Misteriosamente, a pomposa placa de mármore com o nome do falecido Hildebrando desapareceu do muro da antiga escola, mas ninguém pareceu ter se incomodado. Uma semana depois, pichei no lugar: RUA ONZE. Os grafites ainda estão lá.

27 comentários:

  1. Nossa, eu moro no subúrbio também :o
    Será que nos conhecemos??

    Acho bobagem também liga o nome da rua com os atentados..
    Sorte! :)

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  2. Quando cheguei ao final do texto e vi que você o caracterizou como conto me atrapalhei um pouco. Ao longo dele fui caracterizando como uma crônica, kk. Quando vi a atualização pensei que você fosse falar dos atentados de uma forma mais incisiva, fiquei chateado sem nem mesmo ler o texto. Pensei que hoje ia ter um monte de gente falando sobre, mas não há. Já ouvi casos de ruas e até cidades que mudaram de nomes. Uma das escolas que eu estudei mudou de nome. Mas continua sendo chamada pelo primeiro nome. Há coisas que se caracterizam demais com o tempo e pra gente vão ter sempre os mesmos nomes.

    Abraço!

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  3. É aí que digo, que quando nada é legitimado pela própria população - no caso da rua onze -, quem realmente importa no que diz respeito a esse assunto, de nada adianta muita firula, porque no final até as placas são roubadas. Será que a placa valia mais do que a história dada e vivenciada pela própria população?

    Grnd Abrç!

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  4. Aqui na minha cidade- Ibicuí-Ba, interior- também tem várias ruas cujo o nome são datas. Rua 12, Rua 15 de novembro...

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  5. Lendo o seu texto, fiquei pensando o quanto somos pequenos. Como gastamos energia pra nada. Aposto que a rua onze e/ou a minha, por exemplo, precisa ou precisam de melhor manutenção pelos órgãos competentes.
    Um abrço
    P.S. De repente Juscelino Kubitschek foi registrado um dia depois, e quem o homenageou estava certo. Vai saber? rs rs

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  6. Desde já
    o texto mais original
    sobre o 11 de setembro
    que li ou lerei hoje.

    Delicioso!!!

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  7. O que começou como uma pichação se torna ao final em um grafite, assim é a vida.


    E acho que tem um aviso no inicio do texto alertando que se trata de uma ficção, mas tudo bem.

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  8. A sutileza é também uma arma poderosa, e tens de sobra!

    Falar do 11 de setembro, sem cair no lugar comum, não é fácil, e no entanto, cá estás falando de um episódio que, queiramos ou não, mudou a cara do mundo; e de uma forma que não é cansativa, e nem acentuada, priorizando isto ou aquilo; condenando, endeusando, ou idealizando, mas dando a liberdade de interpretação e inferência, o que também é uma característica da sua escrita. Muito bem articulado, e enredado.
    A propósito disto, viste o documentário, 11 de Setembro? Onze curtas-metragens, com a duração de 11 minutos, 11 diretores, do mundo inteiro, onde cada um dava a sua abordagem ao episódio? Eu gostei especialmente destes: da diretora iraniana Samira Makhmalbaf, naquela sala de aula paupérrima, miserável, muito semelhante às muitas salas de aulas dos interiores do nordeste, as crianças sentadas no chão, sem nenhuma estrutura, e professora falando do 11 de setembro, que para aquelas crianças, não dizia nada, mas sim que naquele dia, o avô de um deles, havia falecido, há um ano atrás; e mostrava o tamanho da miséria daquele lado do mundo, e das crianças afegãs;

    da indiana Mira Nair, sobre o equívoco em torno do jovem, cuja origem paquistanesa, morando dos U.S.A, Mohammed Salman Hamdani - morto nos destroços, e o identificaram como terrorista e muito depois, o reconheceram herói, em virtude de ter salvo muitas pessoas numa das torres;

    a poética do Sean Penn, com a impecável interpretação do Ernest Borgnine, e a mudança psicológica sofrida, sem a sombra das torres, no seu ritual de homenagem e recordação da esposa;

    a "fábula", do japonês, Shohei Imamura, sobre o velho soldado, na II Guerra Mundial, e seu grau de loucura, o fazia pensar e agir "como uma serpente", mostrando no gran finale, a frase, "nenhuma guerra é santa";

    e finalmente, Ken Loach, que conta a história de um exilado chileno, vivendo em Londres, narrando "a trágica coincidência de datas", o golpe de estado, sofrido por Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, culminando na sua morte - uma história que todos sabemos, né? - e de "pelo menos 30.000 civis nos anos que se seguiram, durante o governo do general Augusto Pinochet". Contando a maneira bruta de como os aliados estadunidenses, e os comandados de Pinochet, agiam, especialmente com relação às mulheres, introduzindo ratazanas na vagina delas; obrigando-as a copularem com cães; e outras barbaridades mais, coisas que não são divulgadas, enfim... Se viste, vale a pena rever, se não, vale a pena assistir.

    E você, Herculano, qual o seu 11 de setembro?

    ;)

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  9. Na cidade onde moro, tem uma rua chamada de rua 12, é referência
    dita, ela tem outro nome,
    mas ninguém conhece se falar,rs.
    É melhor deixar como está,certas
    coisas se complicam se mudar.


    Um abraço!

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  10. Herculano!

    Ótimo texto! Esse número um dia vai ser cabalístico. Impressionante como as pessoas se ligam em números para inventar estórias. Coitados, e conheço muita gente que nasceu neste dia. Esses não devem nem dizer a data do nascimento.

    Beijos

    Mirze

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  11. A 11 de Setembro de 1973 foi assassinado Salvador Allende.

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  12. Não será uma coincidência o nome
    da sua rua com qualquer outro facto?
    Vá lá saber-se...
    Um abraço

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  13. Meu querido, sempre ótimos escritos...

    Usei-te como inspiração literária no Idéias Compartilhadas...

    http://soniaconsult-portal.blogspot.com/2011/09/2-semana-criando-poemas.html

    Deixo um beijo carinhoso ♥

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  14. Por isso gosto de vir aqui! Por que demoro tanto?

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  15. Esta rua tem sua alma e seu nome, e não adianta querer mudar sua essência!
    Muito bom!

    Bjos!

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  16. A placa sumiu e os grafites ficaram. Isso diz tudo.

    Gostei tanto desse texto, achei simpático.

    Um beijo.

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  17. ...entao parabens a ele que levou a fama...rs.

    "Hoje é o dia mais feliz da minha vida. O Congresso acaba de aprovar o projeto
    para a construção de Brasília. Sabe por que o projeto foi aprovado ? Eles
    pensam que não vou conseguir executá-lo." [ Juscelino Kubitschek de Oliveira ]

    beijo

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  18. Muito interessante este blog, irei ler com calma depois. Ótima semana
    http://in-conditional.blogspot.com

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  19. Olá Herculano!
    Sou um Autor parceiro do Clube dos Novos Autores (http://drisph.blogspot.com) e gostaria de agradecer muito pela força e incentivo ao Clube.
    Quero também convidá-lo, para visitar o blog da Milena Liebe (http://melissaliebe.blogspot.com ). Este blog é uma nova experiência e requer uma boa dose de imaginação e a colaboração de todos vocês para que dê certo.
    Abraços.
    Denir.

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  20. Carmaba! Que postagem interessante! Repito o que o amigo disse aqui em cima: #MEDO

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  21. Verdade amigo, Adele merecia muito mais, ela é uma super mulher!!
    Concordo com a amiga de cima, é muito bonita a história, bem criativo, parabéns pelo texto! abraço

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  22. Parabéns, meu caro: excelente crônica! Quase um daqueles adoráveis curta-metragens nacionais da década de 80... Também falei sob uma outra óptica do 11 de setembro - no caso, o dos chilenos, esquecido pela mídia americanizada... Um abraço!

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  23. A placa sumiu e os grafites ficaram. Isso diz tudo. [2]

    Desculpe a ausência, estive viajando ...

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  24. Você me fez lembrar que aqui em São Paulo quando MJ morreu, teve vereador querendo mudar o nome do parque do Ibirapeura para MJ. Fiquei me perguntando "qual é a desse cara?" Primeiro. São Paulo nada tem a ver com o rei da música pop. Segundo. Ibirapuera é um nome comum ao parque, afinal, traduz a história do lugar (pau podre porque a região era um verdadeiro pântano e foi feito todo um trabalho para transformar o lugar). Agora vem um doido e pronto: resolve mudar o nome do parque. E teve coragem de dizer que era uma homenagem. Disse isso ao vivo, em cores para quem quisesse ouvir.
    Só tinha uma conclusão "coisas de pessoas que não tem mais o que fazer" Como no caso da Rua Onze... rs

    bacio

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