quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"SOLIDÃO COM VISTA PRO MAR"

 “E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa pra lembrar...”

                                                                                                          
 "Eu não sei dançar
Tão devagar
Pra te acompanhar..."

(EU NÃO SEI DANÇAR, Alvin L.)
 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

(NÃO) LEYA


          A editora portuguesa Leya, através da coleção “Clássicos Fantásticos”, colocou recentemente no mercado literário brasileiro uma série de volumes mash-ups (mash-up é um “gênero” americano que diz modernizar clássicos da literatura). Alguns desses inusitados volumes são: O ALIENISTA CAÇADOR DE MUTANTES; A ESCRAVA ISAURA E OS VAMPIROS; SENHORA, A BRUXA e, inacreditavelmente, DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES.
          Os autores dessas mixórdias se consideram, humildemente, parceiros dos escritores consagrados, no entanto os trechos que li são de fazer corar qualquer admirador da nossa literatura. Além da narrativa pobre, com inúmeros atentados à língua portuguesa, há momentos que soam cômicos, que inclui vampiros escravocratas, pepinos envenenados e as guelras mutantes de Simão Bacamarte. No texto de apresentação desses livros, os editores tentam se justificar perguntando: “Como seriam alguns dos nossos clássicos se tivessem sido escritos hoje?”. Porém, me recuso acreditar que Machado de Assis em 2010 seria um nerd roteirista de HQs fascinado por alienígenas e mutantes. Curiosamente, esses livros se esgotaram rapidamente das livrarias. Provavelmente, pela “Geração Crepúsculo”, que deve achar os originais monótonos, incompreensíveis, verossímeis demais. Não me surpreenderia se esses títulos fossem utilizados nas escolas, com o raso argumento de desenvolver o interesse dos jovens estudantes por literatura, mais ou menos como fazem os professores dos cursinhos pré-vestibulares com os seus violões. O escritor peruano Mario Vargas Llosa, durante uma palestra em Porto Alegre, pouco dias após ter sido anunciado como vencedor do Prêmio Nobel, demonstrou seu temor que o livro digital banalizasse a literatura, creio que ele ainda não se inteirou dessa novidade, muito mais aterrorizante.
          O sucesso dos mash-ups pelo mundo não é equação difícil de resolver. Na verdade, é muito simples: as editoras se apropriam de obras de domínio público e tiram proveito da notoriedade delas para desenvolver subprodutos supostamente palatáveis, tornando insignificantes os custos com direito autoral e publicidade. Apenas não entendi porque a editora portuguesa não fez o mesmo contra Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa – ou não seria interessante encontrar a gangue dos heterônimos reunida numa tabacaria no melhor estilo “Cães de Aluguel”? Felizmente eles ainda não deturparam as memórias de Brás Cubas, talvez porque o autor-defunto ou o defunto-autor já seja fantástico demais. De qualquer forma, aqui está minha dica de presente para o amigo oculto do final do ano – caso sorteie aquele colega chato da empresa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PORCAS BORBOLETAS


 
 Menos
(Porcas Borboletas)

Eu sei
eu sei que não era pra eu ser assim
que eu devia tomar as doses nas horas certas
eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
e que eu devia fumar menos 
escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços
e beber menos
e amar menos
eu devia parar
e pensar menos
eu sei que eu devia pensar menos
e falar menos
eu sei que eu devia falar menos
pra viver mais
eu sei que eu devia viver menos
mas eu não sei viver menos


De Uberlândia, Minas Gerais, “PORCAS BORBOLETAS” é uma das principais bandas do cenário independente brasileiro. Ao participar dos festivais realizados no país, chamou a atenção da crítica especializada e do público com um show extremamente performático. Compôs a música tema do filme NOME PRÓPRIO (de Murilo Salles) e tem parcerias com Arnaldo Antunes e Arrigo Barnabé. Com dois discos gravados (UM CARINHO COM OS DENTES em 2006 e A PASSEIO em 2009), não esconde suas influências de vanguarda paulistana, MPB setentista e rock Brasil. Com letra da escritora Clara Averbuck, “MENOS” foi uma das canções que mais escutei no último ano – e que me fez lembrar porque eu gostava do rock nacional dos anos 80.



quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ESSES ESSES


esses esses
(Herculano Neto)

esse gosto de já
na minha boca

esse cheiro de vá
na minha roupa

esse gosto de medo
em outras bocas

esse cheiro de perfume barato

Poema adolescente publicado originalmente num fanzine de poesia, em 1996 (o título citava uma gíria baiana da época). Na antologia OS OUTROS POEMAS DE QUE FALEI (Prêmio Banco Capital de Literatura, 2004) ganhou nova versão. Agora, ao revisitá-lo, torno a brincar com os versos. A atriz dinamarquesa, Anna Karina, musa da Nouvelle Vague, ilustra a postagem.

sábado, 9 de outubro de 2010

O ENTERRO DO CAPITÃO (OU COMO DESCONSTRUIR UM MITO)


Não sou crítico de cinema, nem tenho essa pretensão, mas se eu fosse um desses que procuram chifre em cabeça de unicórnio em jornais, revistas e “sites especializados”, certamente daria o número máximo de estrelas para TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO (embora eu acredite que sempre foi o mesmo).
      Traçar paralelos ou comparar com o primeiro filme, talvez seja inevitável, afinal trata-se de um fenômeno único na história do nosso cinema, vencedor do Urso de Ouro em Berlim em 2008, principal premiação recebida por um filme brasileiro depois de O PAGADOR DE PROMESSAS, que venceu em Cannes em 1962. O que torna ainda mais compreensível a expectativa criada para a continuação é o ícone pop que se tornou o Capitão Nascimento (num trabalho excepcional de Wagner Moura). Parodiado à exaustão e com seus bordões que já fazem parte do cotidiano.
        O anti-herói é uma figura fascinante, a literatura e o cinema têm inúmeros exemplos, mas não há como criar um ícone pop na prancheta, ele sintetiza os anseios de uma determinada época, é mais fruto do acaso do que dos roteiristas. Isso é provado no primeiro TROPA DE ELITE, que tem Mathias (André Ramiro) como protagonista. O novo filme é concebido realmente para o Tenente-Coronel Nascimento, mas uma mera mudança de patente ou de protagonismo não é suficiente para desconstruí-lo, para enterrá-lo. Ainda no filme anterior, o Capitão Nascimento estava em busca de alguém que o sucedesse. TROPA DE ELITE 2 não sinaliza o nascimento de um novo Capitão, reitera o Capitão de sempre. “Promovido” a subsecretário de segurança, e o BOPE rebaixado a coadjuvante, ele abandona o uniforme preto, embora embaixo do terno e gravata haja uma caveira.
        Agora, o holofote é focado em algo mais complexo: a gênese da violência no país, resultado do populismo e da exploração da miséria. O dedo deixa de ser apontado para a cara do playboy, para ser mirado para todos nós, o que aumenta a sensação de desconforto. A narração em off retorna de maneira mais incisiva e constante, às vezes num didatismo desnecessário (até porque, nem sempre é preciso explicar o que está sendo visto). Como não tem Papa, os novos bordões estão todos na conta do Capitão Fábio (Milhem Cortaz), que tenta equilibrar o filme com humor, o que não ameniza o ritmo e a tensão permanentes. O discurso simplista do professor/deputado Fraga, interpretado pelo sempre ótimo Iradhir Santos, um ativista dos Direitos Humanos que não simpatiza nem um pouco com os métodos utilizados pelo BOPE, se estenderá àqueles que adjetivam o trabalho do diretor José Padilha e companhia de fascista, oportunista e manipulador (o sistema é foda).
        Já no começo, nos deparamos com um aviso: "apesar das possíveis coincidências com a realidade, esta é uma obra de ficção". Mas lá está o Brasil corrupto, o Brasil canastrão dos noticiários sensacionalistas, o Brasil do dinheiro e do poder, o Brasil miserável, o Brasil conivente. Ao ver os políticos retratados no filme, quis imaginar que não desperdicei meu voto nas últimas eleições para o legislativo, já que “eleição é negócio e o voto é a mercadoria mais valiosa da favela”. Os créditos iniciais são lidos ao som da homônima canção da banda Tihuana, que faz uma ponte com o filme anterior, e finaliza com “O Calibre”, dos Paralamas do Sucesso, que tem versos questionadores: “Há quanto tempo você sente medo? Quantos amigos você já perdeu? Entrincheirado, vivendo em segredo, e ainda diz que não é problema seu.”.
        Se a ideia era reconstruir o personagem de Wagner Moura, ele continua intacto, mais vivo do que nunca. E acenando um pouco de esperança.
   

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ZUCKERMAN X BARTLEBY

Sempre preferi o factóide ao fato, a inverossimilhança à realidade, a fantasia ao documentário. Sempre fui o último no telefone sem fio, sempre fui ludibriado pelas aparências. Por isso, costumo me irritar quando ignoram meu mérito de ficcionista, quando confundem o criador com a criatura, o contista com o cronista – e, ultimamente, isso tem sido cada vez mais comum. Nem tudo que eu escrevo é fruto das minhas experiências, das minhas observações do mundo. Além do ocorrido, há o imaginado.
          Já perdi a conta de quantas vezes me perguntaram sobre situações e personagens, como se tivessem acontecido comigo, como se fossem eu. Sinto a decepção no olhar dessa parcela de leitores quando respondo contrariado que nunca fui preso, nunca fiz programa com travestis, nunca fui travesti, nunca sofri uma overdose, nunca trabalhei para o tráfico, nunca fraudei documentos para fugir do país, nunca testemunhei uma chacina, nunca morei nas ruas ou numa tribo indígena, nem sou jornalista, estudante de veterinária ou tive um cãozinho chamado Sabido. Uma explicação pouco convincente, talvez seja porque construo quase todos os meus contos em primeira pessoa, o que gera certa cumplicidade e aproxima mais a ação do leitor. No entanto, isso está distante de ser uma característica de estilo ou artimanha, é apenas resultado da minha inabilidade em desenvolver satisfatoriamente textos em terceira pessoa. Parece desnecessário dizer, mas a minha biografia não está nos meus livros.
          Algumas pessoas se aproximam de mim achando que sou “diferente”, “especial”, que o meu coloquialismo é poesia vinte e cinco horas por dia, que a minha vida é repleta de histórias absurdas e divertidas. Não sou nenhum super-homem, sou um humano que erra, chora, sonha, atrasa as contas, esquece, se arrepende, pede desculpas. Citando Lulu Santos: “não leve o personagem pra cama, pode acabar sendo fatal”. É possível que essas pessoas sofram da Síndrome de Zuckerman, que segundo Rubem Fonseca, em DIÁRIO DE UM FESCENINO, é um mal que acomete os leitores e os faz pensar que autor e personagem sejam uma coisa só. (Nathan Zuckerman é o protagonista de diversos livros do romancista norte-americano Philip Roth. Após publicar um livro, Zuckerman é perseguido pelos leitores, que acreditam que tudo que ele escreveu se refere aos seus amigos ou parentes). Melhor seria que fosse diagnosticada em mim, por uma equipe de questionáveis especialistas, a Síndrome de Bartleby, que é quando os autores deixam de produzir novas obras, e excluísse meu blog, me mudasse para uma ilha ou me isolasse definitivamente no meu apartamento.
          Somente agora, compreendo porque as telenovelas avisam ao final do capítulo que “essa é uma obra de ficção”. Poderia ter usado artifício similar desde o começo, em Santo Amaro. Hoje, seria reconhecido pelo que realmente sou. E seria mais infeliz.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DOMINGO ESMERALDA


No romance O Leopardo, do escritor italiano Giuseppe di Lampedusa, o Príncipe de Salina (imortalizado no cinema por Burt Lancaster no clássico de Luchino Visconti), expressa todo seu desencanto com a política na célebre frase: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”. Impossível não ser remetido à principal bandeira da atual campanha presidencial: o continuísmo. Ao contrário do Príncipe de Salina, acredito que às vezes é preciso mudar para que as coisas fiquem diferentes.

"De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que eu te vi
o dia em que me viste."
(Paulo Leminski)
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