sábado, 9 de outubro de 2010

O ENTERRO DO CAPITÃO (OU COMO DESCONSTRUIR UM MITO)


Não sou crítico de cinema, nem tenho essa pretensão, mas se eu fosse um desses que procuram chifre em cabeça de unicórnio em jornais, revistas e “sites especializados”, certamente daria o número máximo de estrelas para TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO (embora eu acredite que sempre foi o mesmo).
      Traçar paralelos ou comparar com o primeiro filme, talvez seja inevitável, afinal trata-se de um fenômeno único na história do nosso cinema, vencedor do Urso de Ouro em Berlim em 2008, principal premiação recebida por um filme brasileiro depois de O PAGADOR DE PROMESSAS, que venceu em Cannes em 1962. O que torna ainda mais compreensível a expectativa criada para a continuação é o ícone pop que se tornou o Capitão Nascimento (num trabalho excepcional de Wagner Moura). Parodiado à exaustão e com seus bordões que já fazem parte do cotidiano.
        O anti-herói é uma figura fascinante, a literatura e o cinema têm inúmeros exemplos, mas não há como criar um ícone pop na prancheta, ele sintetiza os anseios de uma determinada época, é mais fruto do acaso do que dos roteiristas. Isso é provado no primeiro TROPA DE ELITE, que tem Mathias (André Ramiro) como protagonista. O novo filme é concebido realmente para o Tenente-Coronel Nascimento, mas uma mera mudança de patente ou de protagonismo não é suficiente para desconstruí-lo, para enterrá-lo. Ainda no filme anterior, o Capitão Nascimento estava em busca de alguém que o sucedesse. TROPA DE ELITE 2 não sinaliza o nascimento de um novo Capitão, reitera o Capitão de sempre. “Promovido” a subsecretário de segurança, e o BOPE rebaixado a coadjuvante, ele abandona o uniforme preto, embora embaixo do terno e gravata haja uma caveira.
        Agora, o holofote é focado em algo mais complexo: a gênese da violência no país, resultado do populismo e da exploração da miséria. O dedo deixa de ser apontado para a cara do playboy, para ser mirado para todos nós, o que aumenta a sensação de desconforto. A narração em off retorna de maneira mais incisiva e constante, às vezes num didatismo desnecessário (até porque, nem sempre é preciso explicar o que está sendo visto). Como não tem Papa, os novos bordões estão todos na conta do Capitão Fábio (Milhem Cortaz), que tenta equilibrar o filme com humor, o que não ameniza o ritmo e a tensão permanentes. O discurso simplista do professor/deputado Fraga, interpretado pelo sempre ótimo Iradhir Santos, um ativista dos Direitos Humanos que não simpatiza nem um pouco com os métodos utilizados pelo BOPE, se estenderá àqueles que adjetivam o trabalho do diretor José Padilha e companhia de fascista, oportunista e manipulador (o sistema é foda).
        Já no começo, nos deparamos com um aviso: "apesar das possíveis coincidências com a realidade, esta é uma obra de ficção". Mas lá está o Brasil corrupto, o Brasil canastrão dos noticiários sensacionalistas, o Brasil do dinheiro e do poder, o Brasil miserável, o Brasil conivente. Ao ver os políticos retratados no filme, quis imaginar que não desperdicei meu voto nas últimas eleições para o legislativo, já que “eleição é negócio e o voto é a mercadoria mais valiosa da favela”. Os créditos iniciais são lidos ao som da homônima canção da banda Tihuana, que faz uma ponte com o filme anterior, e finaliza com “O Calibre”, dos Paralamas do Sucesso, que tem versos questionadores: “Há quanto tempo você sente medo? Quantos amigos você já perdeu? Entrincheirado, vivendo em segredo, e ainda diz que não é problema seu.”.
        Se a ideia era reconstruir o personagem de Wagner Moura, ele continua intacto, mais vivo do que nunca. E acenando um pouco de esperança.
   

31 comentários:

  1. segunda vou assistir o tropa 2

    abraços e um bom final de semana e feriado

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  2. Melhores bordões de TROPA 2:

    "Cada cachorro que lamba a sua caceta",
    "Quer me foder, me beija"
    "Tá de pombagirice?!"
    "Quem gosta de rir tem que fazer rir"

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  3. Com esse carimbo 5 estrelas, certamente irei conferir.

    E nada me pareceu mais irônico que o aviso inicial "apesar das possíveis coincidências com a realidade, esta é uma obra de ficção". Quem dera fosse.

    Porque tens razão, Herculano: "o sistema é foda!". E penso que ficou evidente que queremos um novo modelo político, e esperamos que o 'Supremo' - responsável agora por boa parte da moralização política neste momento - assuma seu papel histórico, e com coragem julgue procedente a impugnação dos
    'fichas-sujas'.

    Este filme veio a calhar!
    grande abraço

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  4. Toda a arte tem um objetivo de nos questionar, se ela não causou isto, é por nós vemos do jeito errado...

    Acabei pensando nisto.

    Fique com Deus, menino Herculano.
    Um abraço.

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  5. Hoje assisti a uma entrevista do Wagner em que ele disse que neste segundo filme o capitão Nascimento amadureceu, está menos carnificida e buscando uma maior humanidade em si mesmo e nos demais à sua volta.

    Vou assistir ao filme e depois volto a comentar seu post.

    Adorei o primeiro filme. Assisti a ele algumas vezes.

    Penso que a violência está tão arraigada aos genes humanos que não se trata apenas de cultura social ou antropológica. É da essência do instinto de sobrevivência mesmo. E também em decorrência de uma certa perversidade maquiavélica e sádica.
    O ser humano é um labirinto repleto de surpresas muitas vezes assustadoras.

    BEIJÃO!!!

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  6. Bacana a crítica.
    E voce nao conta o filme, seu olhar vai além do mero enredo e seu desenlace. Tropa 2 já é o melhor filme do ano.

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  7. Pow!... Excelente crítica. Despertou ainda mais o interesse de ir ao cinema assitir esse filme.

    Gostei muito do seu blog. Ótimo conteúdo, estarei seguindo.

    Quando tiver um tempinho venha conhecer o meu blog tbm. Ok?
    Abraços e t+

    http://windersonmarques.blogspot.com/

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  8. não é filme que me interessa. assiste ao primeiro e não gostei. e não me darei ao trabalho de ir ao cinema para ver o segundo. mas gostei da abordagem de tua escrita. gostei muito. valeu à pena lê-la. grande abraço!

    vem no um-sentir que tem chico por lá, o buarque. e outras inutilidades :)

    ítalo.

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  9. Crime organizado é a união entre servidores públicos, políticos e grupos criminosos.
    Quando um policial honesto e romântico acha que vai acabar como crime matando gente aos montes não passa de um tolo sem visão da própria profissão. Um policial do BOP luta em uma guerra que não tem fim, só perdedores.
    Uma guerra não declarada, dois times controlados pela mesma empresa criminosa a: S/A corporações públicas limitada

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  10. Uma crítica bem escrita faz o leitor querer criticar também.
    Aconteceu isso... assistirei! rs

    Um beijo!

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  11. Para os “intelectualoides” brasileiros, o suprassumo da nossa pseudo elite cultural, fazer sucesso é sinônimo de ruim. Por TROPA DE ELITE ser popular e ter qualidades técnicas, manifestada em prêmios internacionais, muitos tiveram que engolir sem mastigar. Aqueles que viram a pre-estreia do longa em Paulínia, escreveram durante a semana, em seus respectivos veículos de comunicação, procurando defeitos aqui e ali, como se brincassem de jogo dos sete erros, procurando chifre em cabeça de cavalo, ou parodiando o texto acima: procurando unicórnio para colocar chifre. Mas unicórnios não existem, assim como defeitos em TROPA 2.

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  12. Acabei de ver seu comentário no blog do Carpinejar, então cheguei cá. Não pretendia ver este flme, mas estou mudando de ideia. Talvez a gente precise de um choque de realidade pra não desumanizar ou quem sabe pra estender a mão com mais eficácia (eu me enquadro neste segundo). Valeu! Até qualquer hora (ah, vou te linkar no meu blog).

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  13. Ja preparei minha pipoca.

    bjs
    Insana

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  14. Ainda não tive a oportunidade de assisti-lo, mas com esta tua releitura, instigou-me ainda mais. Valeu!

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  15. Fiquei super a fim de assistir ao filme e acompanhar este blog!! abração

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  16. Nâo vi o filme, mas gostei do seu comentário.

    E o que tenho a comentar é que, no fundo, infelizmente, não é uma simples obra de ficção...

    Abraços,

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  17. aí está uma pergunta pertinente: porque você faz poema?
    eu nao tenho jeito para poema por isso admiro quem tem. kis :):)

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  18. Bom... O primeiro eu amei...
    Pois tem muita filosofia.
    "A barbárie subsidiando a virtude"

    Já o segundo ainda não vi... Estou louca para ver, ainda mais agora, depois de te ler!

    Será que rola um terceiro?
    Uma trilogia não seria nada mal, hein!

    Beijo mágico!
    Fabricante de Sonhos

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  19. Herculano, muitos pontos interessantíssimos tu tratas aqui, como sempre fazes.
    Inicias teu texto, citando um pobre de um unicórnio, animal pelo qual eu tenho particular apreço - sim, é o animal-símbolo do meu brasão de família, isso mesmo, coisa que só respeito por causa dos meus pais e só! - por isso, peço-te, quando estiveres afagando um unicórnio, seja carinhoso, lembre-se que é um animalzinho mitológico quase tanto quanto eu, essa sua leitora que lhe tem grande apreço;

    e quando prossegues, falando em estrelas, dá-me uma coisa por dentro e por fora, porque essa coisa de estrelas, me lembra para além da via láctea, do Cosmos, do Olavo Bilac entre outros, uns enfeites aí nos casacos de uns senhores que antecederam outros que tivemos o prazer, a alegria, a tristeza, o acerto e o erro de escolhê-los, mas fomos nós, nós e não um sistema e muitas imposições;

    continuas disparando essas tuas palavras certeiras - como balas de metralhadoras - que atingem-nos em cheio: todos somos responsáveis, todos! Porque eu brado para quem quiser e para quem não quiser também, qualquer que seja a nossa escolha, é a nossa escolha e ela tem consequencia(s), e tu reiteras isso aqui, nesse texto tão soberbo, tão lúcido, que não trata meramente de um filme, mas do retrato de uma sociedade, o filme é só o pano de fundo do Brasil que construímos.

    Deixo-te então um abraço pela coragem que tão respeitosamente apreendo a cada texto que leio e um obrigada por nos dedicar seu tempo com suas publicações sempre tão precisas e preciosas.

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  20. TROPA DE ELITE 2 É FODA!!!
    COMO NÃO-CRÍTICO, VOCÊ É UM GRANDE CRÍTICO.

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  21. Herculano,

    assisti ontem ao filme e te digo: sua análise é absolutamente perfeita, só não consigo vislumbrar essa tal esperança com a qual encerra seu brilhante texto.

    Confesso que, ao contrário do senso comum, gostei mais do primeiro. Não engoli essa versão mais "intelectualóide" do capitão, agora tenente-coronel. O coitado do Matias foi quem pagou com a própria vida pelo Cel. NASCIMENTO ter abandonado sua essência.

    E como disse minha filhinha de 9 anos:"também preferi o primeiro. Eles não largavam o saco."

    Beijo!!!!

    Lu

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  22. Para mim, "Tropa de elite 2" foi o melhor filme que assisti neste ano. Duvido muito que outro possa substituí-lo.

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  23. Perfeita a crítica e também perfeito o filme. Em menos de 14 minutos eu já estava louca enquanto o assistia. Louca pra compartilhar essa experiência com alguém, louca pra entrar naquela tela e fazer aquilo ali...Lutar pela justiça. Mas, fazer o quê? Esse é mais um pensamento utópico!!
    Beijoo

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  24. Com relação ao cinema nacional sou extremamente cético e crítico. Acredito que o Brasil poderia ser melhor do que mostra ser. Tropa de Elite 2 é sim um bom filme com uma boa história e é hoje o filme nacional mais visto nos cinemas do país. Contudo chega de violência nas telas, tá, mostra a realidade, tá certo, mas quem quer ver realidade assiste noticiário, o Brasil sim, tem a capacidade de criar grandes produções e quizá Tropa de Elite possa até ter uma continuação que as salas de cinema estarão lotadas, não por que querem ver sangue, mas porque o eterno Capitão Nascimento já se tornou um herói. Mas de violência no cinema, disso todos estão cheios.

    Se puder, me visite

    www.plantaocinema.blogspot.com

    Abraçoss

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