quarta-feira, 27 de outubro de 2010

(NÃO) LEYA


          A editora portuguesa Leya, através da coleção “Clássicos Fantásticos”, colocou recentemente no mercado literário brasileiro uma série de volumes mash-ups (mash-up é um “gênero” americano que diz modernizar clássicos da literatura). Alguns desses inusitados volumes são: O ALIENISTA CAÇADOR DE MUTANTES; A ESCRAVA ISAURA E OS VAMPIROS; SENHORA, A BRUXA e, inacreditavelmente, DOM CASMURRO E OS DISCOS VOADORES.
          Os autores dessas mixórdias se consideram, humildemente, parceiros dos escritores consagrados, no entanto os trechos que li são de fazer corar qualquer admirador da nossa literatura. Além da narrativa pobre, com inúmeros atentados à língua portuguesa, há momentos que soam cômicos, que inclui vampiros escravocratas, pepinos envenenados e as guelras mutantes de Simão Bacamarte. No texto de apresentação desses livros, os editores tentam se justificar perguntando: “Como seriam alguns dos nossos clássicos se tivessem sido escritos hoje?”. Porém, me recuso acreditar que Machado de Assis em 2010 seria um nerd roteirista de HQs fascinado por alienígenas e mutantes. Curiosamente, esses livros se esgotaram rapidamente das livrarias. Provavelmente, pela “Geração Crepúsculo”, que deve achar os originais monótonos, incompreensíveis, verossímeis demais. Não me surpreenderia se esses títulos fossem utilizados nas escolas, com o raso argumento de desenvolver o interesse dos jovens estudantes por literatura, mais ou menos como fazem os professores dos cursinhos pré-vestibulares com os seus violões. O escritor peruano Mario Vargas Llosa, durante uma palestra em Porto Alegre, pouco dias após ter sido anunciado como vencedor do Prêmio Nobel, demonstrou seu temor que o livro digital banalizasse a literatura, creio que ele ainda não se inteirou dessa novidade, muito mais aterrorizante.
          O sucesso dos mash-ups pelo mundo não é equação difícil de resolver. Na verdade, é muito simples: as editoras se apropriam de obras de domínio público e tiram proveito da notoriedade delas para desenvolver subprodutos supostamente palatáveis, tornando insignificantes os custos com direito autoral e publicidade. Apenas não entendi porque a editora portuguesa não fez o mesmo contra Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa – ou não seria interessante encontrar a gangue dos heterônimos reunida numa tabacaria no melhor estilo “Cães de Aluguel”? Felizmente eles ainda não deturparam as memórias de Brás Cubas, talvez porque o autor-defunto ou o defunto-autor já seja fantástico demais. De qualquer forma, aqui está minha dica de presente para o amigo oculto do final do ano – caso sorteie aquele colega chato da empresa.

26 comentários:

  1. Sei que releituras e paródias sempre existiram e, muitas vezes, contribuiram. Mas o que foi feito com esses títulos é de doer. Li num jornal os autores e editores chamando os críticos de puristas. A questão aqui não é ser "purista" ou conservador, e sim de bom senso. Machado de Assis é maravilhoso, um dos maiores escritores de todos os tempos, não precisa ser adaptado para ser compreendido. Meu presente de final de ano para o meu filho será a coleção original.

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  2. Sinceramente, as últimas releituras tem sido uma porcaria, não só no universo literário quanto na estética músical e vestuária.
    Tenho medo, de fato.
    Ou melhor dizendo, tenho vergonha da minha geração. Quase ninguém quer ler, e quando lê, apela para uma "besta seller".

    Adorei o texto, está aqui minha salvação.

    Abraços

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  3. Seria que não foram vendidas como comédias? Estilo piadas (horriveis)?

    Hua, kkk, ha, ha, brincadeira com um fundo de verdade.

    Fique com Deus, menino Herculano.
    Um abraço.

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  4. Eu tinha ficado com a pulga atrás da orelha.....Como diz Alan Moore artes diferentes não devem ser "adaptadas". Valeu a dica. Abs

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  5. Caro HN,

    ainda penso que em literatura (como em arte) pode-se tudo. Entendo o seu ponto de vista e a sua pretensão (que é minha também) de preservar os clássicos.
    Você diz que riu de trechos, além de torcer o nariz para as barbáries ali apresentadas, e talvez esse seja o fim desse fenômeno para os conhecedores e apreciadores das "altas literaturas": movimentos de lábios e nariz.

    Torço, contudo, com o músculo peitoral para que algum leitor iniciante não se contente com os fogos de artifício dessa coleção e busque com olhos sequiosos os verdadeiros senhores que fabricam a combustão nas almas. Torço para que investiguem as origens...

    Estou com você, HN! Torçamos juntos!

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  6. Há pouco tempo vi uma versão dessas da Jane Austen.O mercado editorial como sempre, querendo ganhar rios de dinheiro em cima da ignorância alheia.

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  7. Oi Herculano,é de doer o que acontece no mercado editorial, não ?
    Já não basta a profusão de títulos estrangeiros de má qualidade em nosso país, ainda tem esse tipo de literatura de 5° categoria.

    E o que me irrita é que tem muito autor independente que escreve muito bem não consegue editar e lançar seu livro por uma boa editora, aí vem essas bostas e saem por uma editora grande.

    É de querer jogar o diploma fora mesmo.

    Grande abraço

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  8. Herculano,

    A mediocridade grassa nos dias de hoje. Não há arte, o que interessa é o dinheiro.
    Aí perde a graça, né.

    Beijo

    Carla

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  9. Caro conspirador:

    Muitíssimo pertinente seu post. A geração crepúsculo e harry potter está ai, mas duvido que se eternizem como Machado de Assis e outros.

    Obrigado pela visita a nossa humilde mesa de café e conspiração.

    Gostei do seu blog.

    Abs,

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  10. taí, essa eu desconhecia, relativismo dos relativismos. o que os mortos não sofrem,

    abraço

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  11. Herculano,
    É 'a força (forca) da grana que ergue e destroi coisas belas': muitos clássicos foram editados à custa de proventos dos próprios autores, que se consagrariam mais tarde, mas tiveram algumas de suas obras rejeitadas pelos especialistas de plantão que não são especialistas em nada...
    Drummond publicou seu primeiro livro com seu salário de funcionário público...
    Não será nenhuma supersurpresa se o peruano Vargas Llosa também tiver bancado sua estreia literária...
    E você sempre questionador, o que é o verdadeiro papel dos grandes artistas...

    Abraço inquestionável,
    Ramúcio.

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  12. Mas o problema é que o colega chato pode gostar e muito...

    Não sei o que acontece...por que história de vampiros vende tanto?!!!

    Beijo!

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  13. A história da literatura não costuma levar a sério esse tipo de coisas.
    Reescrever uma história tendo ela tão somente como mote é uma coisa, distorcê-la é outra

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  14. Machado e seus companheiros devem estar se revirando no túmulo isto é um assassinato a literatura clássica.

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  15. Olá, boa tarde!

    Teu blog é pra lá de interessante e muito cultural.

    Excelente matéria essa. Eu já tinha visto esses absurdos na livraria... E o pior: VENDE!

    abraços

    Lu C.

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  16. Fabuloso o seu espaçooooo...
    Seguindoooo...


    Rafah
    http://eternizadoempalavras.blogspot.com

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  17. Li o seu texto e os comentários anteriores aos meus. E esse meu comentário se refere tanto ao seu post quanto aos outros comentários. Espero que me entenda bem.
    Eu tenho 20 anos, faço parte de uma relativamente nova geração de leitores. E sou mesmo uma leitora assídua, de twittes, de blogs, de e-books, de livros, de jornais, revistas, bulas e de embalagens.
    Me deliciei com Dom Casmurro e Romeu e Julieta assim como com Harry Potter e os Best Sellers de Dan Brown, Paulo Coelho e Stephenie Meyer. Levei semanas pra concluir O Cortiço, e concluí somente por um maldito trabalho de escola, mas, li em minutos um e-book de microcontos de dois autores relativamente desconhecidos, o Mais Uma Dose.
    Não acho nem um pouco sensível quando alguém se refere aos jovens leitores de hoje como “Geração Crepúsculo”. E generaliza assim. Generalização é pra quem enxerga os fatos de uma maneira muito estreita.
    Li toda a saga Crepúsculo no mesmo espaço de tempo em que li Senhora, e li com mais prazer. Me emocionei com a morte de Dumbledore (pra quem não sabe, no sexto livro da saga HP), assim como me emocionei com a morte de Jean Valjean em Os Miseráveis.
    Tem um comentário aqui assim: “Não sei o que acontece...por que história de vampiros vende tanto?!!” Oras, por que é um romance extravagante, como o de Romeu e Julieta. É uma estória gostosa, envolvente. Nada, nunca, agradará a todos.
    Não duvido de que essa coleção “Clássicos Fantásticos” seja mais uma jogada de marketing escrita sem nenhuma verdade e emoção, mas leria com toda a boa vontade, se um deles chegasse à minha mão um dia, e talvez eu até gostasse de ler. E não acho aterrorizante essa idéia de mash-ups, pode até ser divertido. Não me agrada esse "bom senso", esse repúdio ao pop e ao novo, nem essa crença no que é "de bom gosto" ou não, e muito menos essa generalização.
    Bom, vou parar por aqui, senão meu comentário vira um post. Acho que é a primeira vez que eu discordo de um pensamento seu (porém não inteiramente), Herculano, espero que eu tenha sido clara.

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  18. Desconhecia esse absurdo.
    "Dom Casmurro e os discos voadores"(!!!) foi demais pra mim...

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  19. Ah, isso eu sei o que é. É um absurdo. Enganação, oportunismo etc etc etc.

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  20. Impressionante o que mentes pequenas juntas podem produzir, de lixo.
    O triste é que esses que esgotaram as prateleiras são o "futuro" do país...

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  21. eu ri quando li aqui o seu "verossímeis demais".

    parece que o "verossímeis demais" perdeu a graça.

    quanto mais ridículo, melhor.

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  22. Esse tipo de adaptação tem como objetivo transformar obras clássicas em textos mais "convidativos" e palatáveis para as massas. Tornar medíocre e engraçado aquilo que o vulgo não pode (e nunca vai) compreender. Isso envolve uma série de questões, mas o "X" da questão é a linguagem utilizada nos clássicos que a geração crepúsculo, alienada e auto-complacente, sem convívio demorado com a poesia e com o universo fabuloso das palavras, nunca vai dominar. Não se engane, se a editora aposta em publicações como essa, é porque tem uma demanda que esgota esses exemplares das livrarias. Por outro lado, talvez essa seja uma oportunidade de instigar pelo menos um percentual desses leitores despreparados para se aprofundarem em textos mais profundos, funcionando como porta de entrada. Não deveria ser assim, mas infelizmente acaba sendo. Annie Besant diz que não podemos forçar o pão a quem não tem fome. Se é pedra que eles querem, deixe que comam pedra... E está tudo certo!

    Abração!

    http://misteriosdoorgasmo.blogspot.com/

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  23. Até me interessei (vagamente) pela coleção, até porque sou excessivamente curiosa com novidades (tanto, que a princípio me interessei por "Crepúsculo", e hoje detesto).
    É claro que o interesse é puramente comercial, mas algum valor pode ter. Pego uns pedaços de alguns comentários acima, concordando em esperar que aqueles que vierem a ler primeiramente essa coleção procurem os originais, e também sou uma leitora assídua de todo tipo de literatura (até infantil, se um desse gênero cair em minhas mãos), fascinada por Harry Potter, mas não resisto aos clássicos. Acho importante esse equilíbrio.

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