segunda-feira, 23 de novembro de 2009

IMITANDO FERNANDA YOUNG

Não faz muito tempo que alguém me disse que a escritora (e dublê de apresentadora) Fernanda Young sairia na Playboy. Apesar da mensagem clara, sem figuras de linguagem esquizofrênicas ou complicações de sintaxe, acreditei que na revista ela seria simplesmente a entrevistada do mês. Como a informação para mim era totalmente desinteressante dei de ombros, afinal não leio seus livros nem assisto aos telefilmes e programas de tv que ela coescreve. Mas para a minha surpresa, ao me dirigir esta manhã para a banca de jornais, me deparei com a capa da publicação prometendo desnudar Fernanda Young num ensaio fotográfico eroticamente irreal (não tão irreal quanto a edição americana que traz em suas páginas Margie Simpson), repetindo o feito inimaginável da cantora Marina Lima em 1999. Fiquei surpreso pois não se trata de nenhuma celebridade instantânea ou o mais recente fetiche fabricado na novela, na verdade ela é exatamente o contrário de todos os estereótipos de mulheres frutas e afins. Fernanda Young tentou, desnecessariamente, se justificar alegando que se expõe muito mais em seus livros, mas isso eu não sei, como disse não sou leitor dos seus livros, tudo que sei é que por trafegar na contramão do culto ao efêmero e provocar discussão sobre o que é o belo ela já tem muitos méritos. Gostaria apenas de ter um pouco de sua coragem e fazer algo semelhante, mas também não possuo a capacidade de um Vampeta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

TEM PAI QUE É CEGO

          O termo axé music foi cunhado pejorativamente pelo crítico musical Hagamenon Brito, em 1987, para designar a música para dançar produzida na Bahia naquela época e foi ingenuamente adotado pela mídia local. A palavra axé é derivada do yorúbá e quer dizer força; music é um mero cognato inglês que não agrega valores, apenas expõe nosso espírito de colonizado, talvez o afã de soar tão universal e palatável como a soul music ou a black music tenha sido mais forte que o axé. Um dos seus precursores, o cantor e compositor Luiz Caldas, num artigo publicado pela impressa soteropolitana, reivindica com unhas e dentes o título de criador de axé music (o ritmo) munido de documentos e datas, só faltando pedir um teste de DNA – assemelhando-se ao pai que desconhecia a paternidade e agora tenta recuperar o amor do filho em uma dessas novelas da tv. Quando fazemos algo errado primeiramente pensamos em negar, mesmo que não o façamos, é instintivo. Já Luiz Caldas sai por aí apregoando: Fui eu! Fui eu! (exibindo orgulhosamente a mão amarela).
           Depois que o filho tanto procriou, gerando uma famigerada indústria que engloba cantoras padronizadas, cantores anabolizados, coreografias constrangedoras e a privatização do carnaval, pouco importa quem colocou a criatura no mundo, isso é irrelevante.
            Não quero saber quem sujou, quero que limpem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O DELICADO CHARME DA VERDADE

           Sou viciado em verdade. Para mim a mentira é uma ofensa e a omissão, covardia.
           Sem perceber falo o que me vem à mente, falta-me freio, bom senso até. Não tenho receio de ofender, de magoar, de ouvir o que não quero (desde que não sejam mentiras). Não sou diplomático, não tenho traquejo social. Às vezes ajo como uma criança e falo o que vejo, o que sinto; não consigo ser diferente. Assim não faço amizades, as cultivo. Não trago na manga frases feitas nem respondo ao “tudo bem?” com um “tudo bem”. Meu maior refúgio é o silêncio, é onde me sinto seguro (queiram-me calado, certamente todos sairão ganhando).
           Quando eu sei que não devo falar, que é a deixa para mentir, me complico, troco os pés pelas mãos. Dizem que não só mentimos várias vezes todos os dias como também aceitamos naturalmente a mentira alheia, é a chamada “mentira branca”, “mentira social”. Mente-se para evitar conflitos, por estratégia, obrigação, preguiça, medo, cobiça, conquista, quando consideram a verdade desnecessária. Mas para mim a verdade é sempre necessária, quero a verdade negra, a honestidade incolor, embora nem todos entendam isso. Se alguém me diz que posso confiar e falar o que penso sei que é somente uma armadilha, ninguém quer ouvir a verdade, quer ouvir uma mentira (mesmo sabendo que é uma mentira). Não se exige franqueza, apenas conveniências.
           A mentira não é uma arte, como o talentoso Ripley faz entender - mentir não tem charme.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

MORANGOS SILVESTRES

“morangos silvestres”*
Herculano Neto

quando mainha chamou:
- vem pra dentro que invernou!
era de tarde e eu ainda não
sabia o que era a melancolia

quando mainha chamou
o quintal era grande
chôle e os vizinhos ainda estavam vivos
eu era outro menino

quando mainha


*“Morangos Silvestres” é o título de um filme de 1957, do cineasta sueco Ingmar Bergman. No filme o velho professor Isak Borg revê a juventude a partir de sonhos e recordações. Com perspectiva semelhante, embora nem tão distanciada, cunhei os versos acima buscando a inocência da infância que em algum momento temos que abandonar. O poema foi publicado primeiramente no fanzine O ATAQUE, em dezembro de 2006, e na REVISTA CULT, em janeiro de 2007, antes de integrar, com leves modificações, o livro “Cinema” em 2008.
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