terça-feira, 3 de novembro de 2009

COMO FARIA PEREIO

Ontem alguém me disse, em circunstâncias constrangedoras, que eu não valia nada. Não foi o xeque-mate, faltou ênfase, mas me calei -, também não me ofendi, pelo titubear da pronúncia sabíamos que não era verdade (devo valer pouco como o refugo de feira ou o jornal de ontem). A expressão “você não vale nada” é uma tendência, está na dublagem dos filmes, dos desenhos animados, em toques de celulares, em trilhas de novelas. Faz as vezes da palavra “canalha”, que já teve lugar cativo nas artes cênicas. O silabar de canalha na voz de uma musa da pornochanchada ou de uma diva hoolywoodiana ganhava contornos dramáticos, resumia tramas, despedaçava relacionamentos, fomentava paixões. Se espalhava na ferocidade do grito lancinante de Walter Franco no campo de batalha.
           Canalha é uma palavra musical, sôfrega, excitante até. Fabrício Carpinejar, numa crônica famosa, diz que ser chamado de canalha por uma mulher é o domingo da língua portuguesa, é um elogio, uma agressão afetuosa. Talvez haja quem não simpatize com ofensas de nenhuma maneira, esses, certamente, não se deixaram aquecer na febre da inquietação e apanharam o primeiro paracetalmol que encontraram na gaveta, arrefecendo o devaneio, o desejo. Queria ser chamado de canalha ao menos uma vez, seria um prêmio, a certeza de que alcancei o pódio no coração de uma mulher. Queria ser chamado de canalha, soaria mais impactante, violento, vivo. Mas não se fazem mais calúnias como antigamente, canalha é uma ofensa em desuso, démodé.
            Ontem, quando disseram que eu não valia nada, dei um riso cínico, irritante, como faria Paulo César Pereio.

22 comentários:

  1. É uma dor canalha
    Que te dilacera
    É um grito que se espalha
    Também pudera
    Não tarda nem falha
    Apenas te espera
    Num campo de batalha
    É um grito que se espalha
    É uma dor:
    CANAAAALHA!!!

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  2. "Mas não se fazem mais calúnias como antigamente", hahaha, genial!

    Bjos.

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  3. Realmente, HN, "canalha", "cínico" e "imprestável" são grandes elogios que as mulheres deixaram de usar contra (contra?) nós. Bons tempos aqueles...rs...

    Grande texto!

    Abraço.

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  4. Eu não consigo ficar calada diante de uma ofensa! O riso cínico eu com certeza daria - e um se enxerga também!
    =*

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  5. texto instigante como a palavra em questão. muito bom.
    bjs

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  6. é com certeza "canalha" soa mais ofencivo ao mesmo tempo que atraente, não se é a pronuncia mais tem alguma coisa na palavra que atrai, ofende, classifica e valorece(vai entender né)

    adorei o texto ^^, e vlw pela visita no meu blog, adorei seu comentário só pra constar :D~

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  7. Belo texto sobre algo que aconteceu contigo.
    abs

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  8. Adorei sua crônica, um pouco machista talvez(rsrs), porém divertida.

    Escreveu muito bem!

    Um ótimo final de semana.

    Abraços.

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  9. Muito bom este texto. Fiquei com vontade de ser chamado de canalha tb.

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  10. Impressionante o texto! Notadamente, um grande escritor pincela palavras, sem dó, num quadro literário bem emoldurado. Falar sobre o "não-valer-nada" e a "canalhice" de forma tão sublime e tão sem "parêa" é coisa de gente grande, Herculano. Se, na poética, seu sangue fervilha como mirra em brasa, texto aí foi desenhado como quem desenha rios por onde se encaichoeira a própria alma.
    Vou ver se consigo a edição da revista Muito. No interior, a edição de domingo do A Tarde chega a nós, reles mortais, apenas na segunda-feira. Com certeza, é claro, seu texto ainda vai estar novinho em folha. Parabéns, desde já!

    Moacir Eduão

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  11. Do caralho esse texto!!!!!!!!! precisão cirurgica, certo cinismo cheio de uma elegância inglesa, mas sem deixar de ser brasileiro até a raiz... basta olhar a foto do Pereio... E, claro, como não pensar em Nelso Rodrigues? Pereio atuou em um maravilhoso filme de Jabor baseado numa obra do Nelson... E vale lembrar uma frase famosa do maior dramaturgo brasileiro: "Todo homem magro é um canalha". Sobeja canalha na obra de Nelson...Mas a análise sobre o valor e significado da palavra canalha, em priscas eras e em tempos de hoje é tão bem feita e tão enxuta que parece mesmo um poema ou prosa poética. Ou seja, arte, enfim, algo como aquelas crônicas do Paulo Francis ou, melhor ainda, os textos incisivos de H.L. Mencken, nada menos que o mentor de todo o jornalismo ensaístico pós anos 30 - finalmente reeditaram, pela Companhia das Letras e organizado por Ruy Castro, o Livro dos Insultos de Mencken - ... Valeu! Henrique Wagner

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  12. Ah, sinceramente... Depois do seu comentário lá no meu blog, você pode até não vale nada, mas que eu gosto de você, gosto! kkkkkk!!!!

    Olha, ADOREI seu blog, seu texto é uma delícia de ler. Concordo plenamente que as palavras, por si só, não representam tanto. O problema, mesmo, é como são ditas. Aí sim é que se determina se podem ou não ferir. O que sai da boca é um caso sério!

    Beijoca!

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  13. Bem canalha é o que elas
    precisam
    nossas meninas NÃO estão longe daqui

    Grande, Herculano Neto

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  14. Aos berros: Canalha!!!
    Que texto ótimo!
    Acho que vale muito!
    Parabéns.

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  15. ...me lembrei ´da "Norminha"
    aquela...

    rsrs

    'você não vale nada
    mas eu gosto de você...'

    bj

    desculpe a invasão e a
    brincadeira!

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  16. Pereio é um senhor ator.
    sabe que canalha é mesmo uma bonita palavra; vou tentar ser chamado assim.

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  17. Então os meus canalhas andam todos satisfeitíssimos comigo! Ando agora tentando praticar o insulto com uma expressão de atriz de filme americano dos anos 50.

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  18. A vida tem cada uma...

    Não achei seu texto (e experiência) machista.
    Adorei!
    Não sei qual foi o motivo do "canalha", mas pelo visto foi merecido e procurado hehehe

    Vc me lembrou Nelson Rodrigues



    Abç

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  19. Sempre considerei esta crônica GENIAL.

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  20. Muito obrigada pela informação!Agora,quando eu houver a necessidade de ofender de verdade um homem jamais o chamarei de canalha.

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  21. Nós mulheres não podemos respeitar um homem que não se respeita, não reage diante de uma traição, de uma boa ofensa. Podem ser legais, bonzinhos, mas não provocam a paixão de um beijo roubado no meio da briga, só pra calar a palavra final.

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