sábado, 5 de setembro de 2009

BEIRUT EM SALVADOR II


Na noite de 04 de setembro, no Teatro Castro Alves, aconteceu o tão esperado show do grupo americano Beirut em Salvador, no 16º Panorama Percussivo Mundial – o Percpan. Ainda na entrada, observando aquela juventude de comercial de creme dental, me senti um pouco fora do ninho. Não sou nenhum entusiasta do sistema de cotas, mas era possível contar os negros presentes com os dedos da mão direita, cheguei a desconfiar que tinha atravessado um portal e que não estava mais na Bahia. Dentro do teatro, a cada atração que se apresentava capitaneada competentemente pelo músico Marcos Suzano, aumentava a ansiedade. Enquanto isso, parte do público parecia mais interessada em brincar com seus celulares e câmeras fotográficas, ignorando as advertências iniciais com seus braços estendidos deselegantemente, como se fosse bem mais interessante assistir ao show depois na tela do computador do que no calor do momento. Enfim, após longas três horas de expectativas, o Beirut entrou em cena demonstrando uma qualidade sonora rara no cenário da música atual. O que ninguém imaginaria era que seu vocalista e trompetista, Zack Condon, empunhando um cavaquinho e num português trôpego e visivelmente embriagado, quebraria todos os protocolos ao pedir que a platéia abandonasse seus assentos após a segunda canção e se aproximasse da banda, transformando o solene Teatro Castro Alves numa festiva Concha Acústica, prato cheio para a molecada presente, que inacreditavelmente não era pouca, deixando seus pais esperando pacientemente sentados, e que culminou numa invasão consentida ao palco e no furto de um microfone e um instrumento musical. A histeria juvenil era tamanha que por um instante pensei estar num show da Hannah Montana. Marmanjos choravam copiosamente durante a execução de “Elephant Gun”, espero que relembrando Capitus perdidas pelo caminho, e meninas se descabelavam como numa nova beatlemania, até o arcaico gestual de simular guitarras deu lugar a cômicos trompetes imaginários e solfejos. Se me senti um estranho no ninho na entrada pior me senti na saída, afinal já faz algum tempo que não tenho mais 15 anos. Tentando evitar uma confusão maior a produção convidou Zack Condon a encerrar sua apresentação durante o bis e ele, no seu português ébrio e sem nunca encarar o público proferiu melancolicamente a sentença:
- Eu não posso cantar mais, boa noite.
E ainda tive que suportar o descontentamento do taxista, que detesta fazer corridas curtas.

9 comentários:

  1. Sua colocação foi a mais coerente em tudo o que li no forum do Orkut sobre Beirut hj...
    Sabemos que existem dias bons e outros nem tanto.
    Resta-me aguardar o próximo show e utilizar a peneira sobre esta juventude... Não quero me sentir perdida entre muitas patricinhas e mauricinhos sem conteudo no Show de SP, não tenho mais idade para isso... Pq sei que Beirut é muito mais que Capitu em 1 única musica e não acompanho o grupo a mais de 02 anos em vão...
    Espero que os próximos shows sejam nos "dias bons" de Zach Condon.

    Agora o mais estranho é que ontem numa busca por informações sobre a espectativa do show em Salvdor... Cai em seu blog... só que me peguei lendo muito mais que Beirut e sim td o que escreveu, desde o inicio do blog... guardo e acho que vai me acompanhar por muito a sua historia do Charlie Brown, e o poema Só. Abraços da Didi

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  2. Lamentavel tudo que ocorreu ontem, triste Bahia, triste juventude, que ainda festejava feito um gol as peripecias de jardim de infância.

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  3. Eu fiquei um pouco frustrada com isso, porque eu queria assistir ao show e voltar pra casa "flutuando", já que a banda tem um som lindo. Eu ainda acho que a juventude-legal-de-Salvador esqueceu aquele show não era nenhum show na Boomerangue e que alí não era nenhum carinha-bonitinho-que-tá-no-palco-pra-pegar-todas. Além de me sentir na selva durante a "invasão" no palco, fiquei frustrada por ver o que "Salvador" deixou passar para o que vier...

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  4. Como você leu lá no blog, cara, minhas sensações foram extremamente parecidas com as suas.
    Como já dizia um antigo (?) ídolo adolescente, teenage angst has paid off well, but now i´m bored and old.

    Salvador é uma choça, ok. Mas a banda também foi absolutamente desrespeitosa com o Teatro Castro Alves e com as pessoas.

    Quando você diz que "virou concha", eu não conseguiria definir melhor.

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  5. Fui hoje ao show do Buena Vista Social Club e também teve muita interatividade com o público que subiu ao palco também, mas foi uma experiência tão linda, com tanto respeito por tudo aquilo que estava acontecendo, que pensei muito no episódio do Beirut, que perdi porque os ingressos esgotaram e fiquei sabendo da cena caótica pelo jornal. O que será que diferenciou estas duas experiências? Saí contente de presenciar um espetáculo de tamanha beleza e triste pq não pude me embriagar com o outro (Beirut)

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  6. É meu filho Thiago na semana passada me descreveu o q aconteceria com um simples argumento:Não vou!As pessoas que lá estarão, vivem a vida como se fosse o ultimo dia pra passar na televisão.Agradeço a falta de adaptação do meu adolescente!

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  7. Caro amigo, lamentável o andamento do processo cultural na Bahia, abraço.

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  8. Depois de um exílio no tempo, táxi é um péssimo programa.

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  9. Não faz muito tempo que eu fiz meus 15 anos mas desconfio que também iria me sentir um pouco estranha nesse meio.
    Mas não ter ido me deixou mesmo um pouco frustrada.

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